Legenda da foto: João Vicente Goulart: “O PT se burocratizou no governo e isso é um problema grave”
Entrevista compartilhada do site JLPOLÍTICA, de 28 de agosto de 2025
João Vicente Goulart: “Creio que o campo progressista do Brasil ainda ganha a eleição de 2026”
Da Coluna Aparte, de Jozailto Lima*
O Brasil e os brasileiros democráticos descuidaram da democracia tão logo debelaram a ditadura militar em 1985, permitindo que hoje todos corram um tenebroso perigo vindo da frente fria nazifascista liderada pela extrema-direita.
Sobretudo a extrema-direita que tem o umbigo encastoado ao ideário de Jair Messias Bolsonaro e de seus familiares. Este é, na essência, o ponto de vista do filósofo, escritor e ex-deputado federal João Vicente Goulart, 68 anos.
Filho do ex-presidente da República João Goulart, João Vicente Goulart adverte: “Hoje nós estamos vivendo um momento de crescimento enorme da extrema direita e eu diria que esse crescimento se deve ao nosso descuido”, diz.
Apesar de filho do gaúcho João Goulart, João Vicente Goulart nasceu no Rio de Janeiro, foi deputado federal em 1982 e hoje mora em Brasília, onde preside o PCdoB do Distrito Federal.
Mas João Vicente Goulart não perde a esperança na democracia e em dias mais justos e menos sombrios para o Brasil. Para ele, essa extrema-direita com viés fascista não retorna ao poder central do país no ano que vem.
“Eu creio que o campo progressista do Brasil ainda ganha a eleição de 2026. Eu acho que essa questão da soberania que o Donald Trump colocou na mão do povo brasileiro deu uma ressuscitada na esperança”, disse ele à Coluna Aparte.
Na última segunda-feira, 25, a Câmara Municipal de Aracaju fez a entrega in memoriam dos Títulos de Cidadania Aracajuana ao pai dele e a Leonel Brizola, e João Vicente Goulart, em companhia do primo João Leonel Brizola, sobrinho de Leonel Brizola, esteve em Aracaju para receber as honrarias.
Depois do evento, ele conversou com a Coluna Aparte e o resultado é o que vai a seguir, no qual João Vicente Goulart lamentam, ainda, a inclinação acentuada a que o Sul da sua família tem dado para o pensamento de direita.
Aparte - Enquanto herdeiro de um brasileiro que sofreu muita intolerância política e que foi importante para a democracia, como é que senhor vê esse momento nos últimos 15 anos do Brasil do ponto de vista político?
João Vicente Goulart - Nós vemos como uma preocupação acentuada. Entendo que passamos 21 anos de ditadura, contra a qual muitos lutaram, muitos companheiros tombaram pelo caminho da redemocratização e só viemos ter eleições em 1989. A nossa democracia resistiu, conseguiu retirar o polo ditatorial sem traumas maiores e depois nos descuidamos da democracia. E hoje nós estamos vivendo um momento de crescimento enorme da extrema direita e eu diria que esse crescimento se deve ao nosso descuido.
Aparte - O que é que o Brasil erra a partir de 1989 para se encaixar nesse descuido?
JVG - Olha, eu acho que a Constituinte nos trouxe uma Constituição ampla em 1988, com grandes conquistas sociais, mas uma constituição que não conseguimos regular. Então, creio que o nosso grande problema de hoje se assemelha ao de 1962, que foi aquele a composição de um Congresso Nacional no qual a CIA, através do Instituto Brasileiro de Ação Democrática – IBAD -, financiou 500 parlamentares. Hoje estamos vivendo uma situação parecida.
Aparte - Por quê?
JVG - Porque lá em 1962, com as reformas de base, nós propugnávamos a reforma eleitoral com uma das reformas. Hoje estamos com um Congresso similar, ou talvez pior do que aquele de 62, com falta de credibilidade e muita falta de conteúdo ideológico. Por quê isso? Porque hoje o Brasil vota em nomes das pessoas e não de projetos. Eu, por exemplo, tenho vários amigos no Rio de Janeiro e conheço várias pessoas que votaram no Bolsonaro e na nossa camarada Jandira Feghali para deputada federal. Estranho, mas existe muito isso no Brasil.
Aparte - Para além disso, o senhor teria uma justificativa para esse nosso viés de direita que surge a partir de Temer, de Jair Messias Bolsonaro e que está vivíssimo hoje? O senhor tem uma explicação para um certo apelo quase fascista de boa parte dos brasileiros hoje?
JVG - Tenho: quando a gente não ocupa espaços, os espaços são preenchidos outros. E hoje nós vemos aí uma dificuldade muito grande, primeiro pela legislação eleitoral. Hoje não temos voto em lista, ou seja, o voto no projeto partidário, e como consequência temos aí a criação de bancadas da Bala, da Bíblia, do Boi, que são bancadas extremamente de direita com viés de serem as donas de uma verdade.
Aparte - O senhor supõe ou estima que possa haver mudanças em 2026 do ponto de vista da composição do Congresso Nacional?
JVG - Eu estimo que não. Lamentavelmente, acho que não. Eu acho que como consequência de 2026 nós vamos enfrentar ainda um parlamento pior do que o que temos hoje.
Aparte - Mas o senhor acredita que a direita pode voltar ao poder central do Brasil em 2026?
JV - Aí eu acho que não. Eu creio que o campo progressista do Brasil ainda ganha a eleição de 2026. Eu acho que essa questão da soberania que o Donald Trump colocou na mão do povo brasileiro deu uma ressuscitada na esperança.
Aparte - O senhor não vê Lula um pouco desprovido de partido? O PT não estaria fragilizado hoje?
JV - Não. Eu acho que o PT é um partido que se estruturou muito bem. Entendo que o PT tem condições políticas, porque ainda tem Lula. Mas, evidentemente, o PT perdeu a estrutura de base. O PT se burocratizou no governo e isso é um problema grave.Mas temos que preparar quadros do campo progressista, porque em 30 nós não teremos mais um Lula.
Aparte - Uma pergunta fatal para sua pessoa: o senhor se sente feliz como descendente sulista ao ver que no Sul do Brasil está se adensando, se concentrando, a maior capilaridade de direita nacional?
JVG - Isso é lamentável. O Sul sempre teve um espírito público de soberania, de independência, e hoje vemos por lá a direita extremamente grande com o viés de nazismo, e a crescer.
Aparte - Sobretudo em Santa Catarina e no Paraná. O Rio Grande do Sul ainda consegue se preservar um pouco ou não?
JVG - Não. Nós do Rio Grande do Sul estamos vendo um crescimento multiplicado da extrema-direita. Nós temos aí candidatos e deputados, que não vou citar os nomes, extremamente nazistas, extremamente fascistas, que têm essa orientação de macular tanto o trabalhismo quanto a esquerda socialista ou comunista.
Aparte - O governador do Estado da sua família, Eduardo Leite, é meio termo do ponto de vista ideológico?
JV - Eu acho que o nosso governador do Rio Grande do Sul é o governador que surgiu em cima do palco. Que está aí querendo dar um pulo maior do que as suas possibilidades. Já se filiou a outro partido, mas eu acho que não tem nenhuma chance de vir a ser candidato à Presidência da República.
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Jozailto É jornalista há 42 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Com colaboração da jornalista Tatianne Melo.
Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica com br
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