Arte sob tutela
A esquerda explora politicamente o sucesso de ‘O Agente Secreto’, tratando críticas ao filme como expressão da direita reacionária. Essa instrumentalização da arte empobrece a cultura. Editorial do Estadão:
O filme O Agente Secreto foi indicado a quatro categorias do Oscar – melhor filme, melhor filme internacional, melhor direção de elenco e melhor ator. Trata-se de um feito e tanto, que coroa uma trajetória já robusta de premiações internacionais e constitui motivo legítimo de alegria nacional. É reconhecimento ao trabalho liderado pelo cineasta Kleber Mendonça Filho e pelo ator Wagner Moura, além de confirmação da vitalidade do cinema brasileiro e de sua capacidade de dialogar com o mundo em alto nível artístico. Num país historicamente errático no apoio à cultura, cada conquista internacional nessa área merece ser celebrada.
No entanto, a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado da equipe do filme, durante sessão especial no Palácio da Alvorada, celebrando O Agente Secreto como uma espécie de chancela política do Brasil que “voltou”, ilustra os riscos de uma relação demasiadamente próxima – e instrumental – entre cinema, arte e política partidária. Quando conquistas artísticas passam a ser usadas como prova de sucesso de um projeto de poder, a arte deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser meio. E isso é sempre prejudicial – à cultura, à política e à própria obra celebrada.
De um lado, há o uso político explícito dessas indicações, como se O Agente Secreto simbolizasse uma virada civilizatória e como se o reconhecimento internacional de um filme fosse evidência das qualidades de um governo específico, e não resultado do talento de artistas que, vale lembrar, produziram obras relevantes sob governos de todas as cores. A apropriação simbólica da arte pelo poder é antiga, mas não por isso menos deletéria. De outro lado, o ambiente de polarização extrema em que o Brasil se atolou compromete algo ainda mais delicado: a possibilidade de análise crítica do que se faz no País em matéria artística e cultural. Quando tudo passa a ser lido exclusivamente pela lente da ideologia, a crítica deixa de ser exercício intelectual e passa a ser tratada como ato político hostil – ou, pior, como traição ao País.
Viu-se isso à direita, nos boicotes bolsonaristas ao premiado filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, rejeitado não por seus méritos ou limites cinematográficos, mas por sua leitura histórica e política. Vê-se agora, com frequência crescente, à esquerda, reações virulentas contra qualquer avaliação crítica de O Agente Secreto, tratando essa crítica como expressão da direita reacionária.
Como em outros campos do debate público, a polarização eliminou nuances. Já não há espaço para o meio-termo, para a ambiguidade, para o debate qualificado. Restam apenas anjos e demônios, o bem e o mal. Corre-se o risco de filmes bons serem rejeitados por setores da direita por expressarem uma visão progressista do mundo e, no extremo oposto, de obras medianas, mas politicamente engajadas, serem alçadas ao Olimpo cultural por parecerem estar “do lado certo da História”.
Arte e política nunca foram esferas isoladas, mas há sinais claros de que algo se agravou na paisagem cultural brasileira, em especial com o poder das milícias digitais. Ondas organizadas de ataque, difamação e intimidação transformam divergência estética em ofensa nacional, criando um ambiente de patrulhamento moral que sufoca a crítica.
O Agente Secreto é uma obra ambiciosa, justamente por isso merecedora de escrutínio crítico. Kleber Mendonça Filho é um cineasta de mérito inequívoco; Wagner Moura, um ator de qualidade evidente. É desejável que o audiovisual brasileiro seja valorizado no exterior. Nada disso está em disputa. O que está em disputa é outra coisa: a liberdade da crítica, a autonomia da arte e a saúde da cultura política brasileira. Quando a patrulha chega à fruição artística, o resultado não é fortalecimento cultural, mas empobrecimento do debate público. Arte não precisa de tutela política. Precisa de liberdade, inclusive para ser contestada. Sem isso, não há cultura viva. Há apenas propaganda com verniz artístico.
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2 comentários
Anonymousdomingo, janeiro 25, 2026 12:23:00 PM
Professor Orlando Tambosi, ainda assisto Filmes com Atores que saibam atuar libertos de ideologias ou crenças satânicas. Me respondam os adoradores da lacração qual foi a Bilheteria ou Streamings do Filme "Ainda estou aqui" que ganhou o Oscar de Melhor Diretor para um dos donos do Banco Itaú? Vou esperar para ver também esse mesmo retorno para este filme Agente Secreto, é pela procura e crítica ao filme e todos os seus aspectos que me faz assistir e opinar pelo trabalho. Estou cheio da lacração, sou do tempo que os "Filmes em Preto e Branco" com os Geniais Atores Grande Otelo, Oscarito e Ankito e as Grandes Vedetes do Brasil lotavam os Cinemas do Brasil sem se preocuparem com lacração da "Mídia Esquerdopata" ou "notinhas ideológicas" achando que alí é o que o Brasil pensa ou quer para seu futuro. Conheço o Cinema de Pernambuco desde seus Percursores que não escreviam Textos ideológicos e que hoje são criminosamente esquecidos como se o Cinema em Pernambuco tivesse começado agora, uma grande mentira das Mídias pagas na Orquestração da Perpetuação de um Ditadura até naquilo que chamam de Arte e Cultura. O Recife começou sua História na Arte do Cinema em 1923 com o "CICLO DO RECIFE, oficialmente, mas, já nos anos 10 do Século passado o Cinema já tinhas suas Produções em Pernambuco, sem lacrações ideológicas e mimi de adorações a canastrões que cospem pó quando falam ou pensam. Para ilustrar , tivemos os Filmes "Aitaré da Praia (1925)" e "A Filha do Advogado(1926)" que se tornaram Clássicos na História do Cinema Brasileiro. Esse movimento tinha o poder de impulsionar e retratar o Recife como uma Cidade Moderna, Urbana e em transformação. Se tivesse espaço informaria como o Cinema de Pernambuco é respeitado pelo seus Ciclos de Verdadeira Arte e Produção Cinematográfica, o resto que assisto é besteirol ideológico como se Lula tivesse inaugurado o Cinema Brasileiro. Saudades das tardes de Domingo para ver Grande Otelo, Oscarito e Ankito e tantos outros Grandes Artistas que lotavam os Cinema do Recife, ainda 3a. capital do Brasil, e hoje uma "Cidade Destruída" após mais de 25 anos de administração de PT e PSB em Cumplicidade e Conluio total, basta andar pelo Centro do Recife, é um verdadeiro Filme de Terror legado do LuloPeTralhismo e seus Cúmplices pernambucanos. A bilheteria de um Filme mede a grandeza de sua Arte, no mais a Lei Rouanet ainda paga para os Institutos de Pesquisas criarem "públicos invisíveis" como se um Filme arrastasse milhões de pessoas para frente das telas.
Amigo do Amigodomingo, janeiro 25, 2026 1:11:00 PM
A cultura, ao lado da arte, na verdade, tem sido objeto de grande cobiça de governos autoritários e totalitários. A fim de conquistar corações e mentes, eles buscam controlar o teatro, o audiovisual, a imprensa, as galerias, os museus, as universidades e onde quer que se produza sentido sobre o país, o povo e a realidade. Como o Estado não produz cultura em si, ele procura controlar homens e mulheres que a produzam. A cultura é vista como “recurso político”. E o "Agente Secreto", além de ser péssimo, é uma ótima propaganda para esse governo medíocre!
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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