Artgo compartilhado do site ICL NOTÍCIAS, de 12 de janeiro de 2026
O cinema e arte como armas contra o autoritarismo
Por Jamil Chade (Colunistas ICL)
Kleber Mendonça Filho, ao receber o Golden Globe, pediu que americanos e brasileiros façam filmes.
Ao receber neste domingo seu prêmio no Golden Globes, Kleber Mendonça Filho fez um apelo aos cineastas do Brasil e dos EUA: “façam filmes”.
Seu pedido não ocorreu por acaso. Memória, Justiça e Verdade são aspectos fundamentais para a sobrevivência de uma democracia. Mas um dos instrumentos mais poderosos de insurreição das consciências é a arte.
A arte é um antídoto aos abusos de poder, do Irã às poetas de Gaza. E, por isso mesmo, tem sido um dos principais alvos da repressão. Em 2020, 133 artistas pelo mundo foram presos. 82 deles estão presos. 17 mortos.
Em 2024, segundo o informe State of the Artistic Freedom, as formas de arte mais visadas foram o cinema e a música, com casos generalizados de prisões, censura, cancelamento de festivais e apresentações, remoção de obras de serviços de streaming e recusas discriminatórias de licenças.
“A indústria cinematográfica underground do Irã é surpreendentemente resiliente, apesar das pressões das autoridades, e os filmes iranianos receberam prêmios em festivais internacionais de cinema. No entanto, seus criadores enfrentam acusações de “propaganda contra a República” por suas representações da vida e do amor no Irã”, alertou.
Um exemplo de 2024 foi o do renomado cineasta e vencedor do prêmio de Cannes, Mohamad Rassoulof, que foi forçado a deixar o país após ser condenado a oito anos de prisão e açoites por seus filmes.
Os cineastas chineses vivem sob rígidas restrições e incerteza quanto a se seus filmes serão penalizados ou restringidos. Na Rússia, uma adaptação para o cinema de O Mestre e Margarida, de Bulgakov, foi censurada. No Egito, filmes foram proibidos por “insultarem o Islã” e por retratarem cenas de homossexualidade.
Mais recentemente, Donald Trump decidiu nomear “embaixadores para Hollywood”. Sylvester Stallone, Mel Gibson e Jon Voight foram os escolhidos. Além de sinalizar um novo nível de intromissão federal na esfera cultural de Hollywood, a decisão revelou a intenção de Trump de moldar e restringir a diversidade na arte. Homens brancos e musculosos, inclusive repletos de acusações de racismo. Suas nomeações reforçaram uma visão particular de Hollywood enraizada na identidade conservadora, masculina e branca.
Em apenas um ano nos EUA, mais de 10 mil livros foram censurados em bibliotecas públicas e escolas.
Tiranos tem razão. A arte cria o caminho da subversão e da capacidade de comunhão de uma sociedade. A arte imagina alternativas e, por isso, é tão perigosa.
O ódio da extrema direita pela arte não é apenas um sintoma da barbárie. É uma estratégia. Sabem que, diante dela, não existem armas que possam matar um sonho, uma revolta e um desejo por liberdade.
Kleber não pediu apenas filmes. Pediu resistência.
Texto e imagem reproduzidos do site: iclnoticias.com.br

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