Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 13 de fevereiro de 2026
O problema Toffoli
O ministro afunda o STF na crise do Banco Master e se expõe a impeachment. Duda Teixeira para a revista Crusoé:
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) recorrem frequentemente à retórica da defesa das instituições democráticas para se blindar de críticas diversas.
As últimas notícias sobre Dias Toffoli desta semana inviabilizam completamente essa narrativa.
Se existe hoje uma ameaça às instituições democráticas brasileiras, ela nasce da utilização que alguns magistrados fazem dos seus cargos públicos para obter benefícios pessoais.
Na noite de quinta, 12, Toffoli anunciou que deixaria a relatoria das investigações sobre fraudes no Banco Master.
A decisão, tomada a contragosto, só ocorreu depois que o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, entregou um relatório de 200 páginas ao presidente do STF, Edson Fachin, com menções ao ministro Toffoli ao longo das investigações sobre o Banco Master.
Investigadores que atuam no caso classificaram os achados como "bombásticos" e com capacidade de implodir a República.
No relatório entregue pela PF a Fachin, há troca de mensagens entre Vorcaro e Toffoli, telefonemas entre os dois, um convite de uma festa de aniversário do ministro, referências ao resort Tayayá e pagamentos para a Maridt S.A. e até uma suposta transação de 20 milhões de reais envolvendo a empresa.
No meio da confusão, Toffoli solicitou à Polícia Federal o envio de todas as provas e de todas as conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro. As suspeitas só aumentaram.
Fachin, então, abriu um processo de suspeição de Toffoli e convocou uma reunião de emergência com todos os dez ministros da Corte.
Acuado por todos os lados, Toffoli anunciou que deixará o caso.
Seu gesto pode até ajudar a aliviar a pressão momentânea sobre Toffoli, mas não afastará o risco de impeachment, uma vez que as investigações irão continuar, sob o comando de André Mendonça.
Além disso, o risco de o caso respingar na eleição presidencial e no presidente Lula continuará grande.
Informação de Polícia Judiciária
Um detalhe que pode explicar o desfecho de quinta é que, na papelada que foi encaminhada a Fachin, a PF encaminhou um relatório de Informação de Polícia Judiciária (IPJ).
Trocando em miúdos, um relatório de IPJ é um pré-inquérito, que lista indícios de crimes e sugestões de atuação por parte da autoridade policial.
A PF não pediu para investigar Toffoli, apenas questionou o que fazer diante desse caso inédito.
A sensação era que Toffoli estava agindo mais como advogado de defesa do que como juiz.
Maridt
A pressão contra o ministro ao longo da semana foi tanta que, pela primeira vez, ele admitiu ser sócio oculto da Maridt.
Ao longo da quinta, descobriu-se que a sigla da empresa era uma referência direta a Toffoli. "Mari" deve-se à cidade de Marília, local de nascimento de Toffoli. "DT" são as iniciais do integrante do Supremo. Genial, não?
Na nota oficial divulgada pelo seu gabinete na manhã de quinta, Toffoli admitiu que é sócio da Maridt, mas que não é sócio-controlador, algo vedado pela legislação e pela Lei Orgânica da Magistratura (Loman).
No papel, a empresa tinha como proprietários o padre José Carlos e o engenheiro José Eugênio, irmãos do ministro.
Ambos levam uma vida modesta em Marília, totalmente destoante de quem, em teoria, administra uma empresa que chegou a ter um terço de participação no Resort Tayayá, localizado na estrada do Laranjal, em Ribeirão Claro, interior do Paraná.
“A referida empresa foi integrante do grupo Tayaya Ribeirão Claro até 21 de fevereiro de 2025. A participação anteriormente existente foi integralmente encerrada por meio de duas operações sucessivas, sendo a primeira a venda de cotas ao Fundo Arleen, em 27 de setembro de 2021, e a segunda a alienação do saldo remanescente à empresa PHD Holding, em 21 de fevereiro de 2025”, admitiu o ministro em uma nota oficial, alegando que tudo está devidamente registrado junto à Receita Federal.
Lendo tudo de forma superficial, parece que estamos diante do negócio mais transparente do mundo.
Não é bem assim. A Maridt Participações S.A – ou Marília Dias Toffoli foi fundada em agosto de 2020. Em dezembro daquele ano, tornou-se sócia do Resort Tayayá. Em setembro de 2021, a Maridt vendeu 3,1 milhões de reais em cotas para o fundo Arleen.
O fundo Arleen, depois de comprar a parte da Maridt no resort, aplicou aproximadamente 20 milhões de reais nas empresas responsáveis pelo empreendimento.
O fundo Arleen, por sua vez, recebeu um aporte de 19,9 milhões de reais por meio de outro fundo, chamado Leal. O principal cotista da Leal era Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.
Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores é que a Maridt foi aberta com um capital social de 150 reais e está localizada em um endereço residencial.
Qualquer contador, por mais inexperiente que seja, nunca recomendaria a abertura de uma empresa S.A com um capital social tão baixo.
Impeachment
Tantas incongruências e inconsistências aumentaram a pressão no Congresso pelo impeachment de Toffoli.
Somente na quinta, foram apresentados dois novos pedidos: um do deputado Bibo Nunes (PL-RS), outro do Novo e ainda houve o aditamento de uma denúncia apresentada em 14 de janeiro pelos senadores Eduardo Girão (Novo-CE) e Magno Malta (PL-ES).
Se isso não fosse o bastante, a CPI do Crime Organizado está disposta a quebrar os sigilos dos irmãos de Toffoli e convocá-los a depor. O colegiado também pretende quebrar os sigilos do fundo Reag, que também esteve na cadeia de fundos ligadas ao Tayayá.
“A CPI do Crime Organizado cumpre uma função constitucional de investigar e fiscalizar a atuação de organizações criminosas que se utilizam do sistema financeiro nacional. Não podemos nos omitir diante desse escândalo que continua nos surpreendendo e horrorizando pela gravidade dos fatos revelados”, disse por meio de nota oficial o senador Fabiano Contarato (PT-ES), presidente da CPI.
Além disso, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou representação à Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o órgão apresente ao STF pedido de suspeição do ministro Dias Toffoli na condução do inquérito que apura fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. E a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) pretende ouvir Vorcaro em 24 de fevereiro.
Reações do poder
Diante de tanta pressão, há uma ala no STF que acredita ser impossível evitar o impeachment de Toffoli, mesmo com as investigações seguindo seu curso.
Alguns líderes partidários concordam que essa poderia ser uma solução negociada, inclusive com a oposição ao governo Lula, e que poderia agradar a gregos e troianos.
Eis algo que começou a ser ventilado: o STF entregaria a cabeça de Toffoli. Assim, salvaria outros ministros da pressão — como Alexandre de Moraes, que também foi citado no caso Master. Lula, então, teria condições de indicar Rodrigo Pacheco (PSD) para a vaga que seria aberta. Com anuência de Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, abriria-se um caminho para a condução sem sobressaltos de Jorge Messias à vaga de Barroso no STF.
Integrantes da oposição ouvidos por Crusoé até endossariam o acordo, mas apenas se a vaga que seria aberta com a saída de Toffoli fosse discutida pelo próximo presidente da República. Essa ideia, contudo, não conta com a simpatia do ministro Gilmar Mendes, decano do Tribunal.
Outra ala, alinhada a partidos do Centrão, teme a crise saia do controle. Essa turma defende que nem Câmara e nem Senado entrem nesse jogo e tentem preservar Toffoli da crise.
Alcolumbre, Pacheco e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), tentaram atuar como bombeiros e sentiram ao longo do dia a temperatura da crise.
Alguns cardeais do Centrão passaram a defender até mesmo a abertura de uma CPI para apurar vazamentos seletivos por parte da Polícia Federal. Felizmente, até o momento, nenhum integrante do Centrão teve coragem suficiente para defender uma ideia esdrúxula como essa.
Com esse tipo de investigação, o Centrão tenta controlar as investigações da PF justamente para debelar o incêndio na origem, antes que a crise do Banco Master atinja outros nomes do Centrão.
Alcolumbre, por exemplo, teme que as investigações tomem outros contornos e ele seja eventualmente citado por integrantes da PF.
Clima de Lava Jato
A revelação do conteúdo do celular de Daniel Vorcaro deve criar nos próximos dias um clima político de Lava Jato, com uma pressão intensa para que políticos e ministros do STF atendam às demandas da sociedade.
“Nós temos uma enorme dificuldade no Brasil de manter uma separação entre interesses públicos e privados. Não raro, grupos econômicos poderosos conseguem capturar parcelas do Estado para benefício próprio”, diz o cientista político Rodrigo Prando, colunista de Crusoé.
“Tudo isso pode ser nitroglicerina pura em um ano eleitoral, em que qualquer motivo pode dar à opinião pública uma sensação de descrença, de desconfiança e de raiva da política, permitindo que figuras de fora, como outsiders, ganhem corpo.”
Eleições em 7 meses
O escândalo, que só tende a crescer ao longo do ano, deve obrigar o presidente Lula a tomar decisões difíceis.
Apesar de Dias Toffoli ser próximo do PT e ter sido indicado por Lula ao STF, o presidente pode não hesitar em rifar o amigo encrenqueiro para preservar suas chances de reeleição.
Outra ação provável, já observada durante a crise do INSS, é argumentar que os podres do Master só vieram à tona porque o governo está fazendo a sua parte no combate à corrupção.
“Lula já está em um franco processo de reposicionamento de imagem. Ele já fez críticas públicas ao Toffoli, colocou o PT para assinar a CPI do Banco Master e não duvido que defenda seu impeachment e renúncia”, diz o cientista político Leonardo Barreto, colunista de Crusoé.
Na terça, 10, Lula chegou a citar em um discurso no Instituto Butantã, em São Paulo, “a nossa briga com o tal do Banco Master”.
O presidente, assim, já atua para tentar apagar as visitas de Vorcaro ao Palácio do Planalto, a resistência da base governista a uma CPMI do Banco Master (mais ampla e certeira) e o fato de que aliados próximos de Lula, como Ricardo Lewandowski e Guido Mantega, receberam pagamentos mensais do Master.
“Com escândalos se empilhando, a chance de o PT equilibrar o jogo ali é muito pequena porque não há nada que ele possa fazer. Mandar políticos do seu espectro criticarem o STF seria uma enorme traição”, afirma Leonardo Barreto.
Toffoli pode até ter largado o processo do Master, mas à medida que as descobertas das investigações vieram para a superfície, seu caso pode ficar ainda mais complicado. Melhor para o país.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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