sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Por que o hedonismo é recorrente entre sujos e poderosos

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de fevereiro de 2026

Vorcarus Calígula: por que o hedonismo é recorrente entre sujos e poderosos.

O hedonismo é seguramente associado à corrupção. Um estudo de 2025, sobre os empregados de bancos rurais da Indonésia, mostrou que, quanto mais hedônico era o estilo de vida deles, maior era sua tendência a querer cometer fraudes. Se vale para bancos da Indonésia, vale para o Banco Master. Eli Vieira para o portal Claudio Dantas:

“O Vorcaro encheu minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas!” A reclamação contra Daniel Vorcaro, do Banco Master, seria de Sandra Habib, esposa de Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil, em 5 de outubro de 2022.

Em mensagens de WhatsApp tornadas públicas hoje pela Folha de S. Paulo, a então proprietária da “Villa 21”, imóvel avaliado em R$ 300 milhões em frente à praia baiana de Trancoso, estava reclamando do comportamento do locatário banqueiro, que teria estourado a lotação máxima de 20 pessoas no contrato com 36 convidados.

A reclamação foi enviada para o corretor Celso, intermediário do aluguel. Habib detalhou que foi notificada sobre poluição sonora da festa, para a qual Vorcaro teria contratado um “conjunto de pagode”. Segundo a proprietária, “ele levou 20 putas para a casa que ele aluga com a esposa e filhos”.

A conversa veio à tona por causa de uma representação feita pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas da União para apurar uma denúncia de janeiro da revista digital Liberta, ligada ao veículo de esquerda ICL Notícias. Interessou ao viés político da publicação a alegação de que vários ministros de Estado de Jair Bolsonaro participavam da Festa, mas nenhum de Luiz Inácio Lula da Silva.

“Cine Trancoso” e festas em múltiplas localidades do Brasil e do mundo

O site alegou que aconteciam “festas de arromba” em Trancoso e que Vorcaro as teria usado para coletar imagens comprometedoras que a publicação chama sarcasticamente de “Cine Trancoso”.

Entre as imagens haveria uma “edição picante” envolvendo um membro de alto escalão do Judiciário, talvez ministro do STF. A fonte da revista alegou ter visto o vídeo em reunião do conselho da investigadora REAG, agora liquidada pelo Banco Central, assim como o Master. As imagens estariam no celular de Vorcaro, que se encontra apreendido pelo MPF e pela Polícia Federal.

O dispositivo faz parte das provas sob custódia do STF antes com relatoria de Dias Toffoli, agora sob a batuta de André Mendonça. Na reunião secreta do dia 12 de fevereiro no STF para discutir um pedido de suspeição contra Toffoli, Mendonça comentou, sobre eventos do Master com presença do colega, que, se os eventos forem considerados para julgar os ministros, “todos nós somos suspeitos de tudo”.

Depois das reclamações de Habib, a mansão de praia foi comprada por empresas ligadas a Vorcaro. A transação deu em litígio, e foi nos autos desse processo que a conversa de Habib com Celso foi incluída. O interesse do MPF em investigar as festas veio da alegação da presença de autoridades públicas federais.

Segundo 13 executivos, empresários e autoridades públicas ouvidos pela Folha, as festas de Trancoso eram parte de um padrão maior de hedonismo, com eventos em outros locais do Brasil e do exterior. De um hotel em São Paulo a uma mansão de R$ 36 milhões no Lago Sul em que Alexandre de Moraes teria sido recebido em mais de um evento, segundo o portal Metrópoles, inclusive para acompanhar o resultado da eleição de Trump “fumando charutos e degustando vinhos caros e raros”.

O portal vai além, afirmando que os habituados à mansão já sabiam que o Master havia contratado o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. O valor do contrato, revelado pela jornalista Malu Gaspar, foi de R$ 129 milhões por 36 meses.

Prazer e poder

Gaius Caesar Augustus Germanicus (12 d.C.-41 d.C.), o imperador romano mais conhecido como Calígula (literalmente “botinha” ou “sandalinha”), é o ícone histórico da conexão entre hedonismo e poder. Muitas das histórias extravagantes sobre ele, contudo, são falsas. O que é verdade é que ele gastava demais, era cruelmente vingativo e megalomaníaco, declarando a si mesmo um deus.

O posto de depravado do Império Romano se aplica melhor a Nero (37-68), que matou com chutes sua esposa grávida Popeia Sabina, castrou um jovem escravo liberto chamado Sporus, por achá-lo bonito e parecido com a falecida, casou-se com ele e o chamou de Sabina. Nero também matou a própria mãe e casou-se com outro escravo liberto chamado Pitágoras (não é o filósofo) — dessa vez, Nero é que se vestiu de noiva.

O imperador das orgias, contudo, era Elagábalo (204-222). Do ponto de vista de que ele morreu com apenas 18 anos e foi adolescente durante todo o seu reinado, não surpreende muito.

Outras figuras hedônicas da história do poder incluem o rei chinês Zhou de Shang (século XI a.C.), um Calígula oriental conhecido por tentar fazer um “lago de vinho” e uma “floresta de carne”, além de bacanais; Luís XV da França, apreciador de numerosas concubinas; Henrique VIII da Inglaterra, que rompeu com a Igreja Católica para poder trocar de esposa; Rei Farouk do Egito, um mandatário mulherengo de meados do século XX que apreciava jogatina, banquetes e a vida noturna; além de líderes mais recentes como Saddam Hussein, Kim Jong-il e Muammar Gaddafi.

Por que o hedonismo é associado à corrupção

Em um artigo de 2003, os pesquisadores da psicologia Dacher Keltner, Deborah Gruenfeld e Cameron Anderson investigaram como o poder influencia o comportamento.

Eles propuseram a “teoria abordagem-inibição do poder”, segundo a qual mais poder adquirido incentiva o indivíduo a prestar mais atenção nas recompensas do que nas ameaças, expressar-se de forma mais positiva e empregar menos esforço mental em processar informações.

Indivíduos com pouco poder são mais negativos, vigilantes diante de ameaças e quanto ao seu status social, e inibem mais o próprio comportamento.

O resultado disso é que os poderosos se sentem mais livres para perseguir prazeres imediatos, o que torna o consumo extravagante, o comportamento sexual de risco e as festas ilícitas mais fáceis, psicologicamente falando, de iniciar e justificar.

Em outro estudo de 2010, um grupo de pesquisadores holandeses liderado por Adam Galinsky buscou responder se ter mais poder torna as pessoas também mais moralmente hipócritas — impondo rígidos padrões de comportamento às outras pessoas, mas não a si mesmas.

Em cinco experimentos, os autores mostraram que os poderosos eram mais propensos a condenar outras pessoas por trapacearem ao mesmo tempo em que eles próprios trapaceavam mais.

Interessantemente, esse efeito dependia da legitimidade do poder. Se os próprios poderosos achassem que seu poder era ilegítimo, eles praticavam a “hipercrisia”, ou seja, julgavam a si mesmos com mais rigor do que aos outros. Deve ser porque os “poderosos” do estudo eram pessoas de princípios, diferentes daqueles da vida real.

Em sistemas em que o poder tem legitimidade incerta, como certamente é o caso geral no Brasil, o que existe é uma peneira atrativa para crápulas de tendências psicológicas anormais, ou seja, tendências à psicopatia, que jamais sofrem dessa crise de consciência. Pessoas mais normais que os acompanham é que sofrem dessa dor na alma, pois foram parar nessa posição com alguma versão de autopreservação inevitável.

Os experimentos de Galinsky e colegas também sugerem que o poder incentiva as pessoas a serem menos empáticas, ou seja, a adotar traços de psicopatia mesmo que não lhes sejam naturais.

Parte do motivo da depravação de Nero, segundo os historiadores, era justamente mostrar ao Senado que ele podia submetê-los à humilhação de tolerar seu comportamento repugnante. Vestir-se de noiva fazia parte do pacote do sadismo. É a violação de normas sociais como sinalização de status.

Tomado como um comportamento mais coletivo de uma elite depravada, o resultado é que os desvios, excessos e orgias tornam-se parte da manutenção de status e acesso, enquanto o dissenso é punido.

O hedonismo é seguramente associado à corrupção. Um estudo de 2025, sobre os empregados de bancos rurais da Indonésia, mostrou que, quanto mais hedônico era o estilo de vida deles, maior era sua tendência a querer cometer fraudes. Se vale para bancos da Indonésia, vale para o Banco Master.

A busca insensata e incessante pelo prazer também está associada à desonestidade na vida acadêmica, segundo a literatura consultada pelo mesmo estudo.

Esta praga é singularmente brasileira? Em parte. Um estudo de 2018 com 32 países em desenvolvimento, com dados entre 2004 e 2014, mostrou que o melhor controle da corrupção está associado a menor consumo de bens de luxo. Então, quando o público se preocupa ao ver o Rolex no pulso da autoridade com renda incompatível com o relógio de luxo, sua preocupação não é mero falso moralismo, mas a detecção de um fenômeno real.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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