quarta-feira, 22 de julho de 2026

Por que temos homens medíocres?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 21 de julho de 2026

Por que temos homens medíocres?

No Império, o saber funcionava como uma credencial esperada daqueles que aspiravam aos altos postos. Hoje, essa expectativa tornou-se menos exigente. Dennys Xavier para a Crusoé:

Gosto de imaginar uma sessão do Senado do Império. Sem idealizações românticas ou projeções infantilóides cogitadas para criar ranço ainda maior com os duros tempos em que estamos imersos, sei muito bem que os seus integrantes estavam longe de representar um modelo acabado de virtude.

A escravidão ainda existia, o país lidava com temas complexos, mas… existe uma característica daqueles debates que chama a atenção de qualquer leitor dos anais parlamentares.

Os homens que ocupavam a tribuna pareciam sentir uma obrigação permanente de demonstrar que haviam estudado.

Os discursos de Paulino José Soares de Sousa, o Visconde do Uruguai, de José Antônio Pimenta Bueno, o Marquês de São Vicente, de Zacarias de Góis e Vasconcelos, de Nabuco de Araújo, entre tantos outros, pertencem a uma época em que o debate político ainda caminhava de mãos dadas com o direito, com a história e com a filosofia política.

Não eram homens infalíveis, por óbvio.

Defenderam, aqui e ali, posições que hoje podem virtualmente ser contestadas com boas razões.

Ainda assim, percebiam que a autoridade de uma ideia dependia, em alguma medida, da tradição intelectual capaz de sustentá-la.

A experiência inglesa, o constitucionalismo americano, o direito romano, Montesquieu, Burke, Tocqueville e os autores clássicos apareciam com frequência nas discussões: não como ornamentos retóricos, mas como parte do próprio modo de raciocinar. A burrice ou o apedeutismo não eram vistos como virtude.

Esse ambiente ajuda a compreender a figura de Dom Pedro II.

Seu prestígio como homem de cultura não nasceu de uma lenda construída depois da Proclamação da República.

Os diários do imperador, sua correspondência e o testemunho de contemporâneos revelam um soberano cuja rotina reservava espaço constante para o estudo (eu sei, eu sei… entre “Dilmas”, “Lulas” e “Bolsonaros”, a vontade de chorar em posição fetal se faz sentir).

Interessava-se por astronomia, história, arqueologia, linguística, fotografia e literatura.

Aprendeu diversas línguas ao longo da vida, entre elas o grego e o hebraico, traduziu trechos de autores antigos e manteve diálogo com intelectuais como Louis Pasteur, Ernest Renan e Victor Hugo.

Em suas viagens ao exterior, visitava bibliotecas, museus, observatórios e universidades com uma curiosidade que impressionava até aqueles que não compartilhavam de suas ideias políticas.

Esse tipo de formação produzia impacto emblemático na vida pública. O poder parecia carregar consigo, como segunda natureza, uma expectativa de cultivo intelectual.

Um ministro podia fracassar em suas decisões, um senador podia defender uma causa equivocada, mas existia constrangimento diante da ignorância.

A falta de preparo não costumava ser motivo de ostentação, por assim dizer.

Um líder político daquele tempo talvez não ventilasse a possibilidade de aparecer em público falando em termos chulos, vulgares ou… comendo como uma besta num boteco de esquina qualquer, em meio a restos despencando da boca.

Seria mesmo difícil imaginar algum deles puxando coro de “imbrochável” em evento solene de história da pátria ou falando da densidade de “grelo” em discurso dirigido a membros da nação.

Esperava-se que um homem destinado aos altos cargos tivesse passado muitos anos entre livros, dominasse a língua com precisão e conhecesse algo da longa história das instituições que pretendia governar.

Essa expectativa foi se tornando menos visível ao longo do tempo.

A política brasileira ampliou seu alcance social, incorporou novos grupos e abriu espaços antes inacessíveis, transformação que faz parte da própria história da democracia.

Em paralelo, a cultura humanística perdeu parte do prestígio que possuía entre as elites dirigentes.

Ler os clássicos, estudar história constitucional ou acompanhar os grandes debates filosóficos deixou de ser entendido como requisito natural da vida pública.

A mudança aparece até na forma de falar. Muitos dos discursos parlamentares do século 19 eram longos, por vezes cansativos, mas pressupunham um auditório disposto a acompanhar argumentos desenvolvidos passo a passo.

A vida pública contemporânea recompensa outra habilidade.

A frase curta circula melhor do que a demonstração, o “corte Tramontina”, a resposta imediata com frases feitas vale mais do que a reflexão amadurecida, e a velocidade passou a exercer uma influência que nenhum orador do Império poderia imaginar.

Essa transformação alcança também o ambiente universitário, o jornalismo e os meios de comunicação. Durante muito tempo, ter cultura significava integrar-se a uma tradição de leitura.

Conhecer Homero, Tucídides, Cícero, Santo Agostinho, Shakespeare ou Montesquieu era uma forma de participar de uma conversa iniciada muitos séculos antes. Ninguém acreditava, um tanto ingenuamente, que começava do zero.

A inteligência consistia, entre outras coisas, em reconhecer uma herança e dialogar com ela.

Hoje, bem… para usar um eufemismo… a impressão é diferente.

Muitos homens públicos exibem uma relação distante com os livros, e isso quase nunca desperta constrangimento. Confunde-se frequência nas redes com influência intelectual, exposição permanente com autoridade, convicção virulenta com conhecimento.

A figura do homem cultivado perdeu parte do prestígio simbólico que possuía. Em alguns ambientes, demonstrações de erudição chegam a provocar suspeita, como se o estudo afastasse alguém da realidade concreta do país.

Seria injusto afirmar que desapareceram os homens verdadeiramente cultos.

O Brasil continua produzindo grandes historiadores, juristas, professores, cientistas e escritores. A diferença ocupa outro lugar.

Durante boa parte do Império, o saber funcionava como uma credencial esperada daqueles que aspiravam aos mais altos postos da nação.

Hoje, essa expectativa tornou-se muito menos exigente. A inteligência continua admirada por alguns (cada vez menos), mas deixou de ocupar o centro do imaginário político brasileiro.

E essa mudança diz bastante sobre o tempo em que vivemos, mesmo quando preferimos não percebê-la.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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