terça-feira, 18 de agosto de 2026

A guerra depois da guerra

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16 de agosto de 2026

A guerra depois da guerra

Israel luta para reabilitar 26 mil soldados feridos no conflito de múltiplas frentes. Miriam Sanger para a Oeste:

Para muitos soldados, a guerra não termina quando eles deixam o campo de batalha. Esse é o caso de mais de 26 mil militares israelenses feridos desde 7 de outubro de 2023, cuja batalha agora acontece em um novo palco. A reabilitação física e psicológica tornou-se o grande desafio desses combatentes — e também do Estado de Israel. Essa população junta-se a 60 mil feridos em guerras anteriores e exige atenção imediata e acompanhamento pelos próximos meses, anos ou até mesmo por toda a vida. Entre essas mais de 86 mil pessoas, há um contingente já reconhecido de 31 mil que lidam com graus variados de transtorno de estresse pós-traumático — os sintomas desse distúrbio podem surgir meses ou anos depois do evento motivador.

Segundo o Departamento de Reabilitação do Ministério da Defesa do Governo de Israel, órgão responsável pelo atendimento a militares, a expectativa é de que, até o fim do ano, o número total de feridos de guerra passe dos 90 mil, representando um salto de 40% em relação a três anos atrás. Em 2028, haverá 100 mil soldados em tratamento, metade deles lidando com transtornos psíquicos. Oferecer reabilitação a um contingente deste porte é um desafio tão grande quanto a própria guerra.

Orçamento bilionário

O governo ampliou em 53% o orçamento deste departamento: hoje, ele soma US$ 2,5 bilhões, metade deles direcionada a tratamentos de saúde mental. O sistema já agregou 4 mil novos profissionais às suas equipes médicas desde 2024 e triplicou o número de instituições de atendimento. Ainda assim, o sistema carece de profissionais de reabilitação: atualmente, a proporção é de 750 pacientes para cada especialista.

Uma das peculiaridades da atual guerra é que mais da metade dos feridos tem menos de 30 anos. A Revista Oeste entrevistou o soldado Amit Bar, de 24 anos, para conhecer o impacto dessa realidade. “Muito cedo na vida, nós experimentamos dois extremos. Primeiro, fizemos a escolha consciente de sermos combatentes e de entrarmos em Gaza para lutar por algo maior do que nós mesmos. Mas essa escolha acabou nos levando a uma situação em que já não temos escolha, e agora precisamos conviver com a deficiência pelo resto da vida”, reflete.

Bar fez seu primeiro ingresso em Gaza no dia 1º de novembro de 2023 e foi ferido em 26 de dezembro. Enquanto passava com seu pelotão formado por outros 15 soldados por um beco em Beit Hanoun, terroristas do Hamas detonaram uma enorme carga explosiva, matando dois de seus companheiros e ferindo gravemente os demais. Metade de seu corpo foi soterrada por destroços de um dos prédios destruídos. “Tive certeza de que havia perdido as duas pernas. Por isso, comemorei no hospital quando recobrei a consciência e me contaram que amputaram apenas uma delas”, relembra. Ele passou, até o momento, por 15 cirurgias.

No atual conflito, mais de mil soldados israelenses morreram, 329 deles em um único dia: o fatídico 7 de outubro de 2023.

O dia em que tudo mudou

O Shabat Negro, como é conhecido em Israel o dia 7 de outubro de 2023, transformou a rotina da Organização dos Veteranos Feridos no Serviço Militar, mais conhecida em Israel como Beit Halochem (que quer dizer “casa do combatente”). Ela é a instituição central de reabilitação de soldados e conta com cinco filiais; a sexta será inaugurada em outubro, em Ashdod, no sul do país. De organismo periférico, tornou-se, após o 7 de outubro, um órgão central para centenas de milhares de israelenses. A organização é sustentada por três fontes equivalentes de recursos: o governo, as doações e as mensalidades pagas pelos usuários, que incluem soldados e sua família direta.

O crescimento de sua relevância nacional acompanhou as demais mudanças em torno das Forças Armadas de Israel. O tempo de serviço militar obrigatório foi estendido, assim como o envolvimento de longo prazo de dezenas de milhares de reservistas. O nível de prontidão permanece alto, enquanto Israel luta em várias frentes na guerra mais longa de sua história, fazendo com que a dedicação ao esforço de segurança e a exposição ao perigo deixassem de ser exceção e se tornassem rotina.

O Beit Halochem viu seu público usuário crescer exponencialmente não apenas como resultado da ferocidade da atual guerra, mas também pela evolução das técnicas de atendimento médico realizadas ainda no campo de batalha. “Durante meses, recebemos dezenas e mais dezenas de feridos, dia após dia. Isso também se deve ao avanço da tecnologia dos primeiros socorros, que possibilita salvar a vida de pessoas que não teriam sobrevivido em guerras anteriores, mas seu processo de reabilitação será muito mais complexo e longo”, explica Zivit Kornblau, diretora responsável pelo setor de Fisioterapia de todas as filiais da organização.

“Atendíamos 50 mil pessoas e, em três anos, integramos outras 20 mil. A maior parte delas tem entre 18 e 42 anos. De Gaza e do Líbano chega nossa maior massa crítica. Não são apenas soldados: recebemos também gente do Mossad, do Serviço de Segurança Interno e da polícia”, descreve Moshe Shema, diretor executivo do Beit Halochem.

O papel da organização que dirige, diz ele, vai bem além da reabilitação física. “O objetivo é que encontrem uma comunidade, um lugar onde possam reconstruir a vida com qualidade.” Há uma forte ênfase no esporte como ferramenta de reabilitação, aliado a atividades sociais, terapêuticas e à preparação para os estudos e para a vida profissional.

Sem vergonha, sem julgamento

Quando um visitante chega ao impressionante edifício do Beit Halochem em Tel-Aviv — o primeiro a ser inaugurado, em 1974 —, percebe que ingressou em um universo particular, composto também por cães de assistência, muletas e cadeiras de rodas. Bem perto do lobby do prédio está a entrada para a imponente piscina olímpica, com placas que anunciam o público de cada raia: deficientes, deficientes graves, mulheres, cegos etc. Na frente desta última, há um grande gancho onde o usuário pode prender o seu cão.

Os espaços amplos entre os equipamentos permitem a circulação de cadeiras de rodas e o deslocamento de usuários com deficiência visual. O ambiente é silencioso para respeitar a sensibilidade dos pacientes com transtorno de estresse pós-traumático, e todos os aparelhos foram adaptados para oferecer independência aos usuários em cadeiras de rodas ou com membros amputados. Uma enorme balança permite que os frequentadores se pesem sobre a cadeira de rodas. “Fazer a rotina da academia sozinho é algo que não tem preço”, conta o instrutor Asaf Naon, que há 24 anos trabalha ali. “Em casa, essas pessoas têm apenas quatro paredes. Aqui, elas têm independência, uma comunidade e uma rede de relacionamentos”, descreve.

Rami Pur, de 78 anos, faz parte da antiga geração de frequentadores do local. Na Guerra dos Seis Dias, em 1967, seu tanque foi atingido no sul da Faixa de Gaza, o que o colocou, aos 18 anos, em uma cadeira de rodas. Rami acompanhou a chegada de todas as ondas de feridos da história de Israel — a maior delas havia sido resultado da Guerra do Yom Kipur. Travado em 1973, o conflito contra o Egito, Síria e uma coalizão de países árabes durou apenas 19 dias, mas deixou cerca de 2,7 mil soldados israelenses mortos e quase 9 mil feridos.

Na guerra atual, embora o número de mulheres feridas tenha aumentado em razão de sua maior participação em unidades de combate e forças policiais, veem-se poucas delas na academia. Mas o fato de representarem apenas 8% desse contingente não explica sua ausência naquele espaço. “Elas contam com ambientes próprios para tratamento, pois existem padrões específicos de recuperação do organismo feminino — como, por exemplo, a reabilitação do assoalho pélvico”, explica Zivit, que coordena 165 fisioterapeutas distribuídos por todas as unidades e também por centros menores da organização.

Entre os milhares de jovens atendidos pelo Beit Halochem está Aziz Shukurov, de 23 anos. Ele foi gravemente ferido em Gaza em 25 de janeiro de 2025, quando terroristas explodiram o prédio em que ele se encontrava junto com outros 15 combatentes; cinco morreram e os demais ficaram gravemente feridos. Shukurov sofreu traumatismo craniano e sangramento cerebral, além de ferimentos do pescoço aos pés. Foi mantido em coma por mais de um mês e, depois, permaneceu intubado por outros dois. “Reconstruíram meu crânio com um osso artificial, o qual depois se integrou ao meu próprio osso. Hoje, carrego uma cicatriz de cerca de 24 centímetros na cabeça.”

Um novo protocolo para o tratamento do pós-trauma

Apenas na filial de Tel-Aviv, o Beit Halochem realiza mil sessões de fisioterapia por mês, 1,6 mil de hidroterapia e outras 1,5 mil de terapias complementares. “Em toda a organização, atendemos aproximadamente 14 mil pacientes por ano”, diz Zivit Kornblau. “Eles têm todas as idades e perfis, inclusive veteranos que frequentam nossas casas há décadas e envelheceram conosco.”

Zivit conta que o reconhecimento formal de pacientes com transtorno de estresse pós-traumático é relativamente recente, mas não a convivência com ele dentro dos espaços de reabilitação. “Durante muitos anos, tudo era tratado apenas com fisioterapia e hidroterapia. Aprendemos, na prática, como tratar essas pessoas, como acalmá-las, como conduzir o atendimento e, principalmente, como evitar provocar gatilhos durante as sessões”, descreve.

Hoje há um setor específico para o tratamento da saúde mental no Beit Halochem, mas todos os caminhos da cura se intercruzam no departamento de Zivit. Sua equipe está aperfeiçoando um método que integra todo o conhecimento acumulado tanto no cuidado físico quanto mental em um único modelo de atendimento. “Na minha visão — e na de praticamente todos que trabalham hoje com reabilitação — não existe separação entre corpo e mente. Nossa intenção é estruturar esse conhecimento também como pesquisa científica, para que esse modelo nasça aqui e possa se tornar uma contribuição de nossa organização para o mundo da reabilitação.”

Enquanto esse protocolo é desenvolvido, Israel busca formas de ampliar sua estrutura de atendimento e responder ao desafio que o acompanhará por longos anos. Afinal, é papel do país apoiar as dezenas de milhares de soldados israelenses para os quais a guerra se transformou em um desafio individual e sem prazo para terminar.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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