quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Flávio Dino usa e abusa de Aristóteles

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 17 de setembro de 2026

Flávio Dino usa e abusa de Aristóteles

Flávio Dino recorreu a Aristóteles várias vezes durante julgamento de 15 de setembro. Mas o filósofo provavelmente não teria aprovado. Francisco Razzo para a Gazeta do Povo:

Já usei Aristóteles para parecer culto. Por vaidade, sobretudo, mas também por uma forma miúda de poder que costuma vir junto com o pedantismo: dito na hora certa, o nome do filósofo deixa o interlocutor sem saber se discorda de mim ou dele. Enquanto ele decide, a discussão acaba, de tédio. Conheço o expediente por dentro, com o sorrisinho idiota que o acompanha. Talvez por isso eu o tenha reconhecido tão depressa na sessão de terça-feira em que o Supremo decidiria se Alexandre de Moraes seria investigado pelo que a Polícia Federal achou no celular de Daniel Vorcaro. Não acompanho sessões do STF, tenho mais o que fazer, graças a Deus.

Flávio Dino alfinetava o presidente, Edson Fachin, quando ouviu que a ironia estava nas entrelinhas. Respondeu que “a ironia serve para descontrair o ambiente” e rematou com uma nota de rodapé falada: “Aristóteles”. O filósofo voltaria mais quatro vezes pela boca do ministro, a última para encerrar uma discordância de Luiz Fux: “é Aristóteles, é silogismo, é premissa”. Na frase, Dino rebaixou o silogismo a interjeição. Proponho levar o ministro mais a sério do que ele levou o filósofo. Não levo Dino a sério, é só exercício. Se foi Dino quem pôs Aristóteles como critério para julgar o Supremo, basta aceitar a premissa para ver o que sobra da sessão.

Estava em pauta um achado da PF: Vorcaro escrevia notas no celular, fazia uma captura de tela e, segundos depois, mandava mensagem a um número salvo como “Alexandre Moraes, Brasília”. Moraes diz que os diálogos são “fantasiosos”, porque há só bloco de notas e 47 das 52 notas não aparecem em conversa nenhuma. Pode ter razão; a sessão existia para saber. Fachin a abriu avisando que ali “não se julgam pessoas, julgam-se fatos”, mas esse fato foi lido em plenário uma vez, em pouco mais de um minuto.

Na Política, Aristóteles prefere as leis ao melhor dos homens por uma razão pouco lisonjeira para nós: a lei é inteligência sem desejo; quem entrega o governo a um homem acrescenta a fera. Dino a citou corretamente. Resta saber onde pôr a fera quando, na questão de ordem que definiria como o caso de Moraes seria julgado, votou o próprio Moraes. “Percebi que o ministro André vai votar, eu também irei votar”, explicou. André Mendonça, que pediu as informações à PF e é alvo de um pedido de investigação de Moraes, também votou.

Algumas páginas antes, Aristóteles escreve que talvez a maioria dos homens seja má juíza em causa própria. O “talvez” e a “maioria” são dele, que tinha cuidado com quantificadores. Gilmar Mendes, autor da questão de ordem, dera de manhã uma aula de imparcialidade, com Ferrajoli e a doutrina do juiz terceiro. Moraes votou com ele. Defendeu ainda que o caso dele e o pedido contra Mendonça fossem julgados juntos, porque, separados, cada um votaria no caso do outro. O ministro descreveu com exatidão a condição de parte que julga e pediu que ela fosse organizada numa sessão só.

A parte que julga não se contentou com o voto. Chamou de “patética” uma alegação do colega e de “investigação fraudulenta” a apuração sobre si; sugeriu que o relatório fora feito por “agentes externos, provavelmente estrangeiros”; disse que Mendonça quis incluí-lo numa delação porque “está a serviço de um grupo político que quis dar um golpe nesse país”. Aristóteles não previu o juiz em causa própria que ainda denuncia o golpismo do acusador. Faltou imaginação ao grego. Bela aula sobre imparcialidade, ministro Gilmar.

Dino falou ainda de corrupção “no sentido aristotélico”. Acertou de novo: para Aristóteles, o regime se desvia quando quem governa passa a governar em proveito próprio. A questão de ordem de Gilmar pedia que a decisão sobre Moraes esperasse a certificação de todos os magistrados citados no caso Master. Gilmar resumiu a proposta: “A pergunta não é saber se este ou aquele ministro deve ser investigado”. Era essa a pergunta da pauta. A sessão terminou sem chegar a ela.

Resta a ironia que descontrai. Na Ética a Nicômaco, a eironeia é um desvio da veracidade, o hábito de se apresentar menor do que se é. Para o humor da hora do descanso Aristóteles tem outra palavra, eutrapelia; para o excesso dela, uma terceira, bomolochia. O bomolochos era, na origem, quem rondava os altares à espera de um naco da carne sacrificada; na Ética, designa o sujeito que não resiste a uma piada. Não sei nem traduzir isso, melhor mostrar.

No fim da sessão, Cármen Lúcia pediu desculpas ao povo brasileiro e disse sentir-se “um pouco até envergonhada”. Minutos depois, Dino contou a história de uma senhora que, para o marido não ver a hora em que ela chega em casa, reza a Santa Luzia, padroeira dos olhos. Concluiu que a santa “é mais versátil”. A TV Justiça transmitia ao vivo.

Sobram duas saídas, nenhuma boa para o ministro. Se Aristóteles não é critério para julgar o Supremo, as cinco citações foram enfeite, das que se usam para calar um colega. Se é, a sessão não passa no critério que o próprio Dino levou ao plenário.

Conheço a primeira saída melhor do que gostaria, porque já a usei; a diferença está na escala (entenda o que quiser aqui e ponha a tua conta em risco, leitor). Quando cito Aristóteles por vaidade, o prejuízo fica com o interlocutor e, vez ou outra, com Aristóteles. Na terça, ficou com uma pergunta sobre um ministro do Supremo, que saiu da sessão sem resposta. Faltavam 19 dias para a eleição. Nela posso trocar deputado, senador, governador e presidente. Moraes fica até dezembro de 2043, quando completa 75 anos. Até lá, o que me cabe é assistir à TV Justiça. Vou precisar arranjar menos o que fazer.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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