As consequências de nossas escolhas
O que o governo de fato não prometeu, na campanha, e, logo, não está obrigado a fazer, são reformas estruturais. Fernando Schüler para o Estadão:
O tesouraço foi derrotado nas urnas”, disse o ministro Boulos. Seu ponto: a agenda econômica é de quem ganhou, não a de quem perdeu. E quem insiste no tema do “ajuste fiscal” não teria entendido “nada do que foi essa eleição”. Boulos acrescenta um detalhe: ajuste fiscal cortando “gastos em políticas sociais”.
É um pouco vago definir o que está incluído nisso. Gasto previdenciário seria “política social?”. E os R$ 17 bilhões em prejuízos dos Correios, desde 2023? E as vinculações constitucionais da saúde e educação? É tudo “incortável”, como diria o antigo filósofo Antônio Magri?
Daria para ir longe, aqui. O que o governo de fato não prometeu, na campanha, e, logo, não está obrigado a fazer, são reformas estruturais. Reformas que mexam com interesses bem enraizados na estrutura do Estado.
Lula não prometeu nada disso em 2022, e não fez. Muita gente à época não quis escutar o que Lula dizia (um velho hábito brasileiro). Ainda lembro da curiosa carta telepática enviada a Lula por Armínio Fraga pedindo reformas. A intenção de Armínio era boa, mas a mensagem ficou pelo caminho.
Agora, o fenômeno se repete. Mesmo o governo praticamente gritando que um ajuste não está na agenda, e nada disso tendo sido discutido na campanha, muita gente parece imaginar que alguma “racionalidade” autoevidente se imporá sobre a vontade política, e um Lula “reformador” surgirá, perto do Natal. De minha parte, torço para que isto aconteça. Apenas não acho prudente confundir desejo com realidade.
Ainda esta semana, a IFI, Instituição Fiscal Independente, do Senado, apresentou duas projeções inquietantes: um déficit potencial de R$ 145 bilhões em 2027 e a necessidade de um superávit de até 2,1% do PIB para estabilizar a dívida pública. Isto significa um ajuste superior a R$ 400 bilhões, praticamente o déficit anual da Previdência Social, juntando o regime geral e setor público.
Os números podem variar um pouco e a própria IFI reconhece que há promessas não contabilizadas aí, como o ônibus gratuito nos fins de semana e o “Pé-de-Meia Universitário”, entre outros.
Diante desses números, o ministro José Guimarães diz que ajuste fiscal “não está nas prioridades”, e muita gente fica nervosa com isso. Digo que não deveria. Da mesma forma que digo que Boulos não está errado. Isto foi uma escolha da sociedade nas eleições. E é preciso respeitar. Já passamos por dez eleições presidenciais, e quem sabe deveríamos ter aprendido. A democracia nos dá o direito de escolher. Só não nos dá o de escolher as consequências de nossas escolhas.
É evidente que governo pode mudar o rumo. Tem capital político e o diagnóstico é bastante claro. Em 2003, na gestão Palocci, o País gerou um superávit de 4,3% do PIB no primeiro ano do governo. O País vinha de uma fase de reformas, o contexto global era outro, mas houve decisões em um sentido diferente. Foi feita uma reforma na Previdência do setor público.
Por estas semanas, entre o primeiro e o segundo turno, demos marcha ré. Recriamos a “paridade” e a “integralidade” para agentes de saúde. Ao invés de andar para frente em uma reforma da Previdência, andamos para trás.
No fundo, as cartas estão na mesa do governo. Boulos acerta quando diz que ninguém prometeu e ninguém votou por “reformas” ou para recolocar o País no trilho da responsabilidade fiscal.
Mas a matemática, por vezes, pode ser cruel com a imaginação política. Weber insistiu que as convicções, na vida política, deveriam ser temperadas com um sentido de responsabilidade. E isto significava, entre muitas coisas, em ajustar a rota e rever escolhas quando os fatos se impõem. Mesmo quando alguma coisa não tenha sido prometida em uma campanha. Porque isto é um gesto de grandeza. Confesso não enxergar, nos vencedores do dia, muita disposição, nesta direção. Mas espero estar enganado.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com
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