Publicado originalmente no site da revista IDEIAS, em 9 de janeiro
de 2020
A coisa tá ruça!
Por Fábio Campana
Quando estamos diante de uma situação difícil, costumamos
dizer que a coisa tá ruça. Ruça ou ruço significa pardacento ou grisalho. Mas,
segundo o dicionário Houaiss, ruça ou ruço, passou a significar “complicado,
cheio de adversidades, de dificuldades; perigoso, apertado.” Parece a definição
perfeita para o governo de Jair Bolsonaro.
Nenhum governo se daria ao luxo de priorizar o supérfluo
quando o essencial agoniza. Mas nem os 12,4 milhões de desempregados, a
economia estagnada, beirando a recessão, a violência crescente, a miséria
abundante, a saúde e educação em frangalhos, afastam o presidente Jair
Bolsonaro de privilegiar uma agenda acessória, limitada aos seus fiéis.
Contrariando o bom senso para satisfazer sua visão
particular entre o que é bom ou mal para o cidadão, Bolsonaro insiste em dar
peso a matérias secundárias. Não raro, como fez na ressureição da ideia insana
de uma moeda única para Brasil e Argentina – “uma trava para aventuras
socialistas na América do Sul” –, parece estar enredando a todos em manobras
diversionistas.
Com o equivalente a 11,6% da força de trabalho, as condições
de emprego no trimestre móvel encerrado em outubro foram muito parecidas com as
de um ano antes, quando o deputado Jair Bolsonaro foi eleito presidente da
República. O quadro piorou depois da posse, embora empresários tenham
proclamado otimismo em relação ao novo governo. O primeiro ano de mandato foi
marcado por baixa atividade, severa escassez de vagas e aumento da
informalidade e da ocupação precária.
Melhora pífia
Os desempregados chegaram a 13,2 milhões no período de
fevereiro a abril, e a partir daí o número declinou lentamente. No trimestre da
eleição, em 2018, 12,3 milhões de trabalhadores caçavam qualquer oportunidade.
A taxa de desemprego passou de 11,7% para 11,6% em um ano, uma variação
estatística insignificante, enquanto aumentou o número absoluto dos
trabalhadores e famílias em situação ruim, precária. Estes são dados do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para que ninguém nos
acuse de inventar catástrofes.
Não se tratou, obviamente, de um triste caso de mera
fatalidade. Durante mais de um semestre o governo Bolsonaro nada fez para
atenuar com alguma rapidez os piores problemas de muitos milhões de
trabalhadores. A grande realização nesse período foi o encaminhamento da
reforma da Previdência, iniciativa essencial para o futuro do país, mas
insuficiente para dar impulso imediato aos negócios e à contratação de pessoal.
Mesmo os dados positivos acumulados no ano ficam bem menos bonitos quando examinados
com cuidado. O escasso aumento da ocupação resultou principalmente de
contratações informais – sem registro em carteira – e da expansão da atividade
por conta própria, em grande parte por meio de trabalhos precários e de baixo
rendimento.
No setor privado, os 11,9 milhões de empregados sem carteira
assinada constituíram um recorde. Número recorde foi também o dos trabalhadores
por conta própria, 24,4 milhões. Já no trimestre encerrado em setembro dados
sobre essas categorias haviam chamado a atenção. No caso da ocupação por conta
própria, a interpretação mais otimista envolve a repetição de uma pergunta já
formulada mais de uma vez: há um surto de empreendedorismo no Brasil?
Vale tudo para sobreviver
A resposta mais prudente apontaria um fenômeno muito
distinto e bem prosaico: muita gente, cansada de esperar a melhora no mercado,
resolveu fazer qualquer coisa para sobreviver e manter os dependentes. Parte
dessas pessoas provavelmente abandonará o negócio próprio se aparecer uma
chance de contratação. Outra parcela se disporá a manter a nova ocupação,
talvez mais compensadora do que a já experimentada relação de emprego. Esse
grupo, sim, poderá descobrir-se, talvez de forma surpreendente, com uma vocação
empreendedora. Por enquanto, é arriscado dizer como ficará o quadro das
atividades quando a oferta de vagas se tornar menos precária.
Mas o desemprego, a contratação informal e o recorde da
ocupação por conta própria mostram só uma parte de um quadro ainda muito
sombrio. Somando-se 12,4 milhões de desocupados, 7 milhões de subocupados com
insuficiência de horas de trabalho e 4,6 milhões de desalentados, chega-se a um
total de 24 milhões de pessoas em condições muito ruins – por falta de ocupação
ou de ânimo para continuar procurando emprego. No trimestre móvel terminado em
setembro, esse conjunto era formado por 24,2 milhões de trabalhadores.
Os técnicos do IBGE propõem outra conta, adicionando aos
desocupados, subocupados e desalentados um contingente de força de trabalho
potencial. Esse contingente inclui pessoas fora do mercado, mas em condições de
trabalhar, se o quadro se tornar mais favorável. Essa conta leva a um total de
27,1 milhões de pessoas subutilizadas. O número é 3,5% menor que o do trimestre
móvel de maio a julho, mas igual ao de um ano antes. Também nesse caso houve um
retorno às condições observadas na época da eleição.
Como naquele tempo, há alguma expectativa, agora, de alguma
dinamização dos negócios e do emprego. Falta ver se o governo se tornou mais
preocupado com crescimento e emprego, prioridades de quem precisa garantir a
sobrevivência da família. Uma resposta positiva terá de envolver algo mais que
a expansão econômica de 2% prevista para 2020.
Em causa própria
Além de atirar, o presidente gosta de pescar. Multado em
2012 pelo Ibama por lançar seu anzol nas águas da Estação Ecológica de Tamoios,
em Angra, Bolsonaro antecipou como costuma agir e como elege suas prioridades.
Deputado federal à época, ele apresentou um projeto de lei que impedia fiscais
ambientais de portar armas, algo nada condizente com o parlamentar pró-bala.
Presidente, ele não só demitiu o fiscal como já anunciou que pretende
transformar a sua área de pesca predileta em uma “Cancún brasileira”.
Em comum, todas essas questões têm a prevalência da
motivação pessoal em detrimento da coletividade. Nem todos os números que
mostram a descrença da população em armas – 73% dos brasileiros ouvidos pelo
Ibope são contra a flexibilização do porte e 61% contra a posse –, ou os que
apontam mais de 47 mil mortos no trânsito e outros 20 mil inválidos, são
capazes de convencê-lo da estultice e irresponsabilidade de afrouxar regras em
legislações que mexem com a vida e a morte.
Ele se move por voluntarismo, cujo efeito deletério o país
já conhece, associado a agrados baratos e linguajar fácil para o “povão”, mesmo
método que assegurou a popularidade de Lula. Parece ter aprendido ainda a arte
de tergiversar. Lança uma ideia estapafúrdia por dia, ocupando todos os espaços
com debates inócuos que acabam por escamotear sua incapacidade de governar.
Como bom populista, aposta na periferia, em questões que
movem corações e copos nas mesas de bar e nos porres virtuais. Mas nada tem de
tolo. Qualquer coisa que der certo – mesmo aquelas como a Reforma da
Previdência, para a qual teve empenho próximo de zero –, o mérito será seu. O
que falhar ficará na conta do Congresso.
Texto e imagem reproduzidos do site: revistaideias.com.br

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