O governador de Rondônia, Marcos Rocha, e sua mulher e secretária de
Estado da Assistência e do Desenvolvimento Social,
Liana Silva de Almeida Lima, na Marcha para Jesus 2019.
Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 7 de fevereiro de 2020
Censura de livros expõe “laboratório do conservadorismo” em
Rondônia
Governo do PSL apoiado pela tríade “bíblia, boi e bala”
manda recolher livros “inadequados”. Medida, depois revertida, não é um
fenômeno isolado na política local
Por Regiane Oliveira
Rubem Alves, Mário de Andrade, Machado de Assis, Franz
Kafka, Euclides da Cunha. Esses autores clássicos voltaram aos holofotes ao
figurarem em uma lista de 43 livros considerados “inadequados às crianças e
adolescentes” a serem recolhidos das escolas, por orientação do Governo de
Rondônia. A informação, em princípio chamada de fake news pelo secretário de
Educação do Estado, Suamy Vivecananda Lacerda Abreu, acabou corroborada por um
áudio atribuído à gerente de Educação Básica de Rondônia, Rosane Seitz
Magalhães. Na mensagem do WhatsApp, ela diz que o recolhimento foi "um
pedido do nosso secretário”.
A notícia de que Rondônia planejava estabelecer um índex de
livros proibidos viralizou e não foram poucas as críticas ao Governo do
ultradireitista Marcos Rocha, um ex-coronel da Polícia Militar que se filiou ao
PSL, então partido de Jair Bolsonaro, e chegou ao poder na onda conservadora
das eleições de 2018. Ao EL PAÍS, o presidente do Supremo Tribunal Federal,
Antonio Dias Toffoli, classificou a iniciativa de “inacreditável”. “Se um caso
desse chegar ao Supremo, cai na mesma hora. É absolutamente inacreditável que
no século XXI alguém tente censurar livros como esses”, afirmou o magistrado
nesta sexta-feira em Brasília. A Academia Brasileira de Letras (ABL), por sua
vez, chamou a ação de “deplorável”, uma vez que desrespeita a Constituição de
1988. “É um despautério imaginar, em pleno século XXI, a retomada de um índice
de livros proibidos”, afirmou a ABL em nota.
Mas a tentativa de censura não surpreendeu quem acompanha as
peculiaridades do Estado, que funciona como uma espécie de farol para
tendências conservadoras. No Estado do Norte prospera um Governo regido pela
tríade “bíblia, boi e bala”, influenciado pela forte concentração de militares
na região fronteiriça e o maior percentual de evangélicos do país (cerca de
34%). “Rondônia é extremamente conservadora e funciona como um grande
laboratório de experiências da modernidade, seja na sua visão particular de
liberalismo, seja na imposição de um certo olhar sobre a nação e o
nacionalismo, ou mesmo sobre questões de gênero”, explica Estevão Fernandes, professor
do Departamento de Ciências Sociais da Fundação Universidade Federal de
Rondônia (UNIR).
Falta de transparência
O EL PAÍS tentou conversar com educadores locais a respeito
do ensaio de veto a livros clássicos, mas muitos preferiram não se manifestar
por medo de retaliação. “Este é um lugar em que se mata jornalista no meio da
rua”, disse um professor, em referência ao assassinato do comunicador Ueliton
Brizon, presidente do Partido Humanista da Solidariedade (PHS) em Cacoal, morto
a tiros em janeiro de 2018.
Em nota, a Secretaria de Estado da Educação de Rondônia
esclareceu que recebeu uma denúncia de bibliotecas das escolas estaduais sobre
a suposta existência de livros paradidáticos com conteúdos inapropriados para
alunos do ensino médio. A equipe técnica afirma que analisou as informações,
mas não levou a adiante qualquer ação, por considerar a acusação inapropriada.
“São obras de autores consagrados mundialmente e cumprem um papel importante
para uma construção social”, afirma a nota.
O áudio vazado de Rosane Magalhães, porém, traz outra
versão. “Se estiverem na CRE [Coordenação Regional de Educação] ainda esses
livros, não mande para a escola (...) pegue os técnicos, pegue esses livros que
estou mandando aqui na lista, coloque numa caixa, lacre e envie para mim aqui a
gerência de Educação Básica (...) O núcleo do livro didático fica do lado, eu
vou passar para eles porque a editora vai providenciar a troca”, afirmou a
gerente na mensagem compartilhada no WhatsApp.
O EL PAÍS perguntou à assessoria de imprensa do Estado quais
livros substituiriam o lote considerado inadequado, como mencionado no áudio,
mas não obteve resposta. “O recolhimento de obras, de forma indistinta, sem
prévio debate com a sociedade, já demonstra o desprezo pelo diálogo e a
incapacidade de respeitar a diversidade”, afirma Vinicius Miguel, advogado e
professor universitário da UNIR, que concorreu ao Governo do Estado pela Rede,
em 2019.
Após a repercussão, o Estado decretou sigilo sobre os
documentos da Secretaria de Educação. “A inserção de sigilo na documentação não
pode ser interpretada como um mero erro. É um exemplo claro do ódio à
transparência e de uma tentativa de ocultamento da prática de censura”, afirma
Miguel.
Raízes do conservadorismo
Essa não é a primeira vez que o Estado ganha o noticiário
nacional com controvérsias sobre a educação. Em 2017, um grupo de 150 pais do
município de Ji-Paraná, o segundo mais populoso do Estado, acionou o Ministério
Público para tentar proibir um livro de ciência da 8ª série, que tinha fotos de
pênis no capítulo reservado ao corpo masculino. No mesmo ano, a Prefeitura de
Ariquemes mandou “suprimir” dos livros didáticos páginas que falassem de
diversidade sexual.
O impulso do conservadorismo na região, no entanto, não é um
fenômeno que pode ser explicado apenas com a polarização das eleições
presidenciais. “Porto Velho tem uma série de obras abandonadas da época do PAC
[Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Dilma Rousseff]. Muitos
viadutos começaram a ser construídos em 2007 e estão sendo terminados agora. O
bolsonarismo apenas agregou pessoas que queriam mudança e compartilhavam os
mesmos valores”, explica Fernandes. “A floresta ainda é vista como um obstáculo
ao desenvolvimento. Aqui o crescimento se dá apesar da floresta e dos
indígenas”, critica Fernandes, citando como exemplo a audiência pública
realizada na região em 2019 para discutir o projeto de lei para permitir
garimpo em terra indígena, para a qual os indígenas não foram convidados.
Colaborou Luciana Oliveira.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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