Cid Gomes: um bravateiro abusado que mancha a democracia e a
camisa de sangue
Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 19 de fevereiro de 2020
O trator de Cid Gomes, o balaço no peito e a morte
vexaminosa do Estado
Por Jozailto Lima (Da Coluna Aparte)
Independentemente do resultado fatal, que foi o tiro num
senador da República – dizem que lhe acertou o peito - é uma mancha sangrenta
na camisa exposta para o Brasil, a democracia não referenda, não acolhe e não
permite retroescavadeiras contra trabalhadores em greve, em manifestações, como
fizera nesta quarta-feira o senador do Ceará Cid Gomes, PDT.
É seguro e pertinente dizer, também, que a boa democracia
não referenda, não acolhe e não permite balaços no peito de autoridades e nem
de cidadãos comuns e trabalhadores em manifestação. Seja lá qual for a
categoria à qual pertençam esses trabalhadores.
O resultado da cena do tiro no senador Cid Gomes na tarde
desta quarta-feira, 19, em Sobral, no Ceará, - apesar de ter acertado o peito,
não teria sido em local letal - excede vergonhosamente em equívocos. Em
vexames. Em pantomimas populistas.
E, por mais constrangedor que possa parecer, a maior parcela
de erro nesse fatídico episódio está no baleado - não que esta Coluna seja
defensora de que se deva balear todo e qualquer reativo a manifestações sociais
Brasil afora, Ceará a dentro. Longe disso.
Mas por que é humanamente imprudente a imagem de Cid Gomes,
um homem que já foi governador do Estado do Ceará, sobre uma retroescavadeira,
atentando contra centenas de policiais fardados e amotinados na entrada de um
Quartel da PM de Sobral.
Onde já se viu, com que autoridade e com que grau de
imprudência, um homem público subir num trator e marchar, na força bruta, para
arrebentar o portão e o gradeado de ferro de um quartel de PM, no interior do
qual estão aquartelados centenas de policiais armados, como o fito de dissolver
uma manifestação mantida por eles?
Isso é insuportável. É uma bravata para lá de irresponsável.
Para lá de inaceitável e, sobretudo, inconsequente. Abusiva e arbitrária. As
imagens do ato de Cid, o tiro anônimo, o vidro da retroescavadeira se
estilhaçando e o atingido com a mancha de sangue na camisa no centro de seu ato
tresloucado depõem feiamente contra esse político.
Antes de marchar montado na retroescavadeira para cima dos
policiais – uma imagem não vale por mil palavras? -, Cid, que está licenciado
do mandato de senador, já havia insultado os manifestantes com um megafone em
punho, dando-lhes ordem e prazo exíguo para que saíssem do encastelamento. Uma
autêntica cena de alguém brincando com fogo e com um balde de gasolina pendurado
no pescoço - essa foi a protagonizada pelo esbaforido Cid Gomes.
Ora, ao fim de tudo, cabe a elementar pergunta: quem Cid
Gomes pensa que é? Ele é autoridade da polícia judiciária, um promotor de
justiça, um magistrado ou apenas um bravateiro de sangue e DNA quentes, como
são os Gomes de um modo geral?
Que fique bem claro, cidadão Cid Gomes, que a democracia não
referenda e nem permite retroescavadeiras contra trabalhadores em greve - sejam
elas pilotadas por senador, presidente de República, homem comum ou mesmo sob
comandos eletrônicos.
É bem provável que a Polícia do Ceará esteja exorbitando em
sua greve. Em sua ação de sequestro de viaturas policiais para manifestações
públicas. Mas não é passando o trator por cima que vai se eliminar os abusos
dela. Jamais.
O trator de Cid Gomes é uma certificação desastrosa,
constrangedora e intolerante de que o Estado faliu. Está nu e morto. Ou, no
mínimo, com uma bala no peito e uma camisa ensanguentada. Desse Estado, Cid
Gomes, as gerações presentes e futuras querem se ver livres.
Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

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