Publicado originalmente no site DIPLOMATIQUE, em 12 de Fevereiro de 2020
FAKE NEWS - A desinformação influencia eleições ao redor do mundo
Por Gabriela Arruda e Daiane Tadeu
Segundo um levantamento feito pela organização International
Center for Journalists no estudo “A Short Guide To History of Fake News”
publicado em julho de 2018, o uso da desinformação como ferramenta para a
manipulação da opinião pública tem seus primeiros registros datados do século
IV a.C.
O uso de desinformação como ferramenta política ganhou força
na última década e influenciou significativamente grandes acontecimentos e
eleições ao redor do mundo. No entanto, engana-se quem pensa que essa
estratégia é recente.
Ao longo da história, as conspirações e farsas circularam
entre todas as classes sociais, sendo parte indissociável dos governos de reis,
imperadores, democratas e ditadores, navegando pelo globo desde os papiros e
pergaminhos até o surgimento das redes sociais.
Segundo um levantamento feito pela organização International
Center for Journalists no estudo “A Short Guide To History of Fake News”
publicado em julho de 2018, o uso da desinformação como ferramenta para a
manipulação da opinião pública tem seus primeiros registros datados do século
IV a.C.
Seu alcance foi ampliado pela criação da imprensa, inventada
pelo grafista alemão Johannes Gernsfleisch Gutenberg, que, a partir de 1493,
revolucionou a produção e o acesso a conteúdos escritos ou grafados.
Escolha um inimigo por vez
“Uma mentira repetida mil vezes torna-se realidade”. Esta
frase é de Paul Joseph Goebbels, fundador e líder do Ministério do
Esclarecimento e da Propaganda do nazismo, regime que durou de 1933 a 1945, na
Alemanha.
Embora seja lembrado como um dos maiores propagandistas da
história, aos 27 anos Goebbels se descrevia como um “destroço em um banco de
areia”. Doutor em literatura, tentou a vida como escritor. No entanto, seu
romance semi-autobiográfico, “Michael”, foi um fracasso. Para externalizar a
depressão, exercitava a escrita em diários que o acompanharam até às últimas
semanas de vida.
Naquela época, início da década de 1920, o cenário político
alemão tinha tudo para agravar seus ânimos. A economia estava em frangalhos e a
hiperinflação chegou a 1000%, fazendo com que a moeda alemã não valesse nada.
Cada bem e serviço custava trilhões de marcos (moeda alemã
antes do euro). O dólar americano estava cotado a 4,2 trilhões de marcos e o
penny (moeda de um cent) americano custava 42 bilhões.
Em 1924, Goebbels ingressou na política filiando-se ao
partido nazista, iniciando assim uma ascensão meteórica que, de acordo com
Peter Longerich, autor de umas das mais importantes biografias do
propagandista, se deu pelo seu “excesso de autoconfiança, compulsão incansável
pelo trabalho, submissão incondicional a um ídolo, desprezo pelas relações
humanas e a disposição de passar por cima das normas morais geralmente
aceitas.”
Sob o comando da máquina de propaganda nazista, Goebbels
embasava a atuação do ministério em 11 princípios cunhados por ele mesmo,
alguns promovendo o uso claro da desinformação.
Entre seus objetivos de governo, o aparelhamento da imprensa
era um dos maiores. Além da censura, algumas das táticas adotadas passavam por
exagerar boatos para que fossem noticiados, bombardear a população com novas
notícias sobre um único inimigo e discutir informações com especialistas que
compartilhassem o mesmo ponto de vista.
Para monopolizar a opinião pública, os nazistas se
apropriaram de toda a produção cultural do país. A burocratização deste
controle aconteceu pela criação da Câmara de Cultura do Império que, por sua
vez, era dividida nas áreas de Letras, Imprensa, Rádio, Teatro, Cinema, Música
e Artes Plásticas.
Encantado por Hitler e sedento por sua aprovação, o ministro
criou o lema “um Füher, um povo”, utilizando o rádio e o cinema, principais
mídias da época, como canais de disseminação da sua ideologia.
De acordo com o historiador Wolfgang Benz, autor de
“História do Terceiro Reich”, apenas os filiados ao partido nazista é que
podiam exercer os ofícios de jornalista, escritor e cineasta. A regra,
instaurada em 1933, proibiu a presença de judeus ou de quaisquer outras pessoas
que criticassem o regime.
Nós contra eles
O nazismo, assim como o fascismo e outras formas
autoritárias de poder, governam alicerçados na ruptura da sociedade, dividindo
a população entre “nós” e “eles”. A distinção pode ser feita com base em
diferenças étnicas, censitárias, religiosas ou raciais. Esta é a tese defendida
por Jason Stanley, filósofo americano e estudioso do neo-fascismo.
A criação de um passado mítico faz parte dessa estratégia.
Por meio da propaganda e do anti-intelectualismo, os governos fascistas ou
neo-fascistas desacreditam a compreensão geral da história.
“Depois de um tempo com essas técnicas, a política fascista
acaba por criar um estado de irrealidade, em que as teorias da conspiração e as
notícias falsas tomam o lugar de um debate fundamentado”, analisa o autor no
livro “Como Funciona o Fascismo”, lançado em dezembro de 2018.
Para Stanley, o ataque às universidades e aos sistemas
educacionais são muito importantes nos governos autoritários, porque
desacreditam instituições que poderiam contestar suas ideias.
Em entrevista ao jornal El País, em 2019, ele citou o Brasil
como um exemplo, entre vários Estados, de aparelhamento do setor educacional.
“Basta olhar a situação hoje no Brasil ou ler o que Masha
Gessen escreveu sobre o furioso ataque ao politicamente correto nos EUA. Esse
ataque ocorre no âmbito internacional; as universidades se transformam em zona
de guerra”, afirma Stanley.
Nos últimos anos, a disputa acerca do “viés ideológico”
presente nos conteúdos ensinados em instituições de ensino brasileiras se
intensificou. O movimento Escola Sem Partido, que busca denunciar uma suposta
“doutrinação política e ideológica de esquerda por parte dos professores”,
ganhou notoriedade.
Fundado pelo advogado paulistano Miguel Nagib, em 2004, o
grupo inspirou mais de 60 projetos de lei em câmaras municipais e assembleias
legislativas pelo país. Em um vídeo publicado no site do movimento, Nagib
afirma que “é muito fácil entender por que os sindicatos dos professores, que
nem sempre representam seus interesses, e partidos de esquerda, em especial o
Partido dos Trabalhadores (PT), são contra programa”, sugerindo que estas
entidades são responsáveis por um processo de doutrinação nas escolas.
Em setembro de 2019, o ministro Abraham Weintraub lançou um
projeto com visíveis influências do Escola sem Partido. No lançamento desta
campanha, intitulada “Escola para Todos”, o Ministério da Educação enviou
ofícios para todas as secretarias municipais e estaduais de ensino do país,
determinando que as instituições de ensino adotem o “pluralismo de ideais e
concepções pedagógicas, evitando o que a equipe classifica como
propagandas-político-partidárias.”
Para Sabine Righetti, doutora em política científica,
jornalista e professora da Unicamp, as universidades públicas brasileiras,
assim como outras “instituições pensantes”, estão sendo agredidas por políticos
com informações falsas, postura que incentiva parte da população a fazer o
mesmo.
“Não é uma crítica do tipo ‘precisamos melhorar tal
aspecto’, porque seria muito legal se o governo falasse ‘temos evasão alta,
precisamos melhorar’. Elas [as universidades] estão sendo agredidas com
informações falsas. O Bolsonaro dá uma entrevista falando que só universidades
privadas produzem pesquisa no Brasil, o que é mentira. Depois o ministro fala
que as universidades fazem balbúrdia no lugar de desempenhar academicamente, o
que também é mentira”, afirmou.
A declaração de Bolsonaro, dada em entrevista ao programa
Pânico da rádio Jovem Pan em abril de 2019, era de que “não tem pesquisa nas
universidades” e “dessas poucas, a grande parte tá na iniciativa privada”.
Informação incorreta, já que, segundo a Academia Brasileira de Ciências, mais
de 95% da produção científica do país vêm de universidades públicas.
Na visão da professora, as pessoas que criticam a
universidade, assim como as que atacam a imprensa, chamando-as de “vagabundas”
e mentirosas, sempre pensaram assim. “Eu não acho que alguém que lia um jornal,
de repente vai deixar de ler um jornal porque o presidente falou que o jornal
mente”, destaca.
No entanto, segundo ela, o discurso adotado pelo governo
pode incentivar ataques a instituições. “As pessoas começaram a falar mais
isso, talvez empoderados ou encorajados pelo próprio governo do Brasil, dos
Estados Unidos, que são governos que estão descredibilizando instituições
pensantes. Isso está acontecendo em vários países.”
Além das constantes críticas às universidades e à imprensa,
outras práticas, como o uso assíduo das redes sociais e os ataques à oposição e
às minorias, aproximam as estratégias de desinformação utilizadas por Trump e
Bolsonaro. Tanto durante suas campanhas eleitorais quanto no exercício de seus
cargos como líderes do executivo, os dois políticos protagonizaram diversos
momentos de disseminação de informações mentirosas ou exageradas.
Muito além das fake news
Em 2017, fake news foi eleita a “palavra do ano” pelo
dicionário britânico Collins. Naquele ano, o uso da expressão na internet
cresceu 365%. As chamadas notícias falsas podem ser descritas como informações
falsas, geralmente sensacionalistas, disseminadas sob o disfarce de
reportagens.
No entanto, o uso indiscriminado desse termo, é questionado
por aqueles que estudam e combatem a desinformação.
Para Francisco Rofsen Belda, jornalista, professor da Unesp
e presidente do Projor, organização responsável pelo Projeto Credibilidade,
fake news é uma expressão imprecisa, “principalmente porque a ideia que carrega
é ambígua e simplista demais para descrever a diversidade de desinformação que
existe atualmente na internet”, explica.
Baseando-se nisso e observando a rapidez com que informações
falsas se espalham entre grandes grupos de pessoas, a dupla de pesquisadores
britânicos Claire Wardle e Hossein Derakshan criaram o conceito de ecossistema
da desinformação, dividindo os conteúdos maliciosos em três categorias:
Informação errada (em inglês, mis-information): quando
informações falsas são compartilhadas, mas sem intenção de causar danos.
Desinformação (em inglês, dis-information): quando
informações falsas são compartilhadas com a intenção de causar danos.
Informação má (em inglês, mal-information): informação
baseada na realidade, mas usada para infligir danos a uma pessoa, organização
ou país.
De acordo com Wardle, uma parte importante do combate às
informações falsas passa pela distinção correta da intenção por trás daquele
conteúdo. “Estamos falando de uma sátira ou paródia que não possui a intenção
de prejudicar? De um erro de apuração jornalística? Ou sobre um conteúdo
fabricado, 100% falso, criado para enganar e convencer?”, questiona em sua
palestra “Mais do que fake news – Entendendo o ecossistema da desinformação.”
Nesta análise, as fake news se enquadram no tipo de
desinformação criada com más intenções, muito distantes do jornalismo e das
notícias reais.
“Se é notícia, não poderia ser falsa, uma vez que o
jornalismo profissional tem um compromisso primordial com o relato dos fatos da
realidade. Se não há este compromisso, então não é jornalismo, não é notícia,
mas sim um relato enganoso, de propaganda, por exemplo, que se utiliza da
linguagem jornalística para confundir ou manipular o receptor”, afirma Belda.
Assim, quando uma notícia está errada, incorretamente apurada, o que caberia é
a correção e retratação por parte de seus autores.
Além da necessidade de pensar seu real significado, outra
problemática relacionada ao uso do termo e apontada por especialistas da
comunicação é a sua apropriação por políticos – e outros agentes de governo –
para rotular notícias (verdadeiras) que os critiquem ou desagradem.
O verdadeiro poder é o medo
“You are fake news”. Essa foi a resposta do então
recém-eleito Donald Trump a Jim Acosta, repórter da CNN, na coletiva de
imprensa que antecedeu a posse do 45º presidente dos Estados Unidos. Além de
atacar o jornalista, Trump ainda o mandou ficar quieto diversas vezes. A
hostilidade do republicano com a imprensa já deixava clara a tônica que seu
governo assumiria nos quatro anos seguintes. Entre seus inúmeros alvos,
destacam-se o jornalista Bob Woodward e o jornal The Washington Post.
Em 1974, Woordward e seu colega de redação Carl Bernstein
foram designados a cobrir um acontecimento aparentemente comum: um roubo em um
dos escritórios do Comitê Nacional Democrata, no complexo de prédios Watergate,
em Washington.
A apuração do crime culminou na revelação do que ficou
conhecido como o Escândalo de Watergate, o mais famoso caso de corrupção dos
Estados Unidos, responsável pela renúncia do então presidente Richard Nixon.
A obra mais recente de Woodward sobre política é o
livro-reportagem “Medo – Trump na Casa Branca”. Durante a produção, o
jornalista passou dois anos observando os movimentos do presidente de perto.
Por meio de entrevistas, conversou com conselheiros e pessoas próximas ao
governo que, anonimamente, relataram os conflitos de seus bastidores.
Vermelho x azul
A eleição disputada em 2016 pelo republicano Donald Trump e
a democrata Hillary Clinton, favorita da imprensa norte-americana, é um dos
episódios recentes mais bem-sucedidos no que se refere ao uso de mentiras em
campanhas políticas. O pleito foi marcado pela ação massiva de trolls (autores
de notícias falsas), bots (robôs) e pela interferência russa, ainda não muito
bem explicada.
O Facebook chegou a admitir, recentemente, que um terço da
população estadunidense, cerca de 126 milhões de pessoas, foi exposta a
publicações da Internet Research Agency (IRA), empresa ligada à sede do governo
russo, durante o período eleitoral.
Esse ecossistema de desinformação foi fundamental para
impulsionar a campanha de Trump. Desde a crise do subprime, que em 2008 lançou
o mundo no pior colapso financeiro desde a década de 1930, os Estados Unidos
veem crescerem as desigualdades sociais, a pobreza e o número de desempregados.
Somam-se a esses fatores o discurso anti-imigração, anti-globalização, a
polarização e as incertezas políticas e econômicas. Essa miscelânea, aliada à
máquina de mentiras do empresário “anti-establishment”, ajuda a explicar o
sucesso de Trump, que surpreendeu não só a imprensa norte-americana, mas o
mundo todo.
O declínio da verdade
Um levantamento feito pelo jornal Washington Post analisou
que Trump mente de forma sistemática. Somente em seu primeiro ano de governo,
em 2017, o presidente fez 2.140 alegações falsas ou enganosas – uma média de
5,9 mentiras por dia. Além das mentiras, ataques ao sistema de justiça, às
agências de inteligência, ao sistema eleitoral, aos funcionários públicos e,
claro, à imprensa são comuns na agenda do republicano. Ao todo, desde a posse
(em 20 de janeiro de 2017) até o final de outubro de 2018, foram 6.420
informações falsas ou imprecisas.
Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Trump, revelou que o
presidente “só lê o que reafirma suas crenças”. A VICE News também divulgou que
Trump recebe, duas vezes por dia, um clipping (recorte) com diversos elogios a
ele, incluindo “tuítes de admiradores, trechos de entrevistas bajuladoras na
TV, matérias jornalísticas repletas de elogios e, de vez em quando, fotos dele
na TV parecendo poderoso.”
O boom das redes sociais
Se a desinformação sempre foi usada como tática política, o
que mudou hoje foi a inserção da tecnologia. Para Francisco Belda, “temos, de
um lado, o uso muito mais intenso de instrumentos tecnológicos capazes de
potencializar o alcance dessas mensagens enganosas e, de outro, uma sociedade
desconfiada e confundida pelo excesso de informação, cada vez menos capaz de
distinguir entre o que é fato, o que é versão e o que é simplesmente
inverdade.”
De fato, a tecnologia e a evolução das redes sociais tiveram
um profundo impacto na produção e no consumo de notícias. Há 10 anos seria
impossível imaginar que um presidente usaria o Twitter, rede cujo número máximo
de caracteres é 280, como ferramenta oficial para se comunicar com a sociedade.
Contrários à atuação da imprensa, líderes como Trump e, mais
recentemente, Bolsonaro, utilizam suas contas nas redes sociais para tentar
minar a credibilidade jornalística. Desde a posse (1º de janeiro) até março de
2019, a mídia foi alvo de Bolsonaro no Twitter a cada 3 dias, com mensagens de
teor irônico e crítico.
Até 2008, a internet tinha pouca ou quase nenhuma relevância
em campanhas políticas. A mudança de paradigma aconteceu na disputa eleitoral
entre Barack Obama e John McCain. À época, Obama utilizou o Myspace, Facebook e
YouTube para fazer campanha e arrecadar fundos. A equipe do democrata, liderada
por Chris Hughes, um dos fundadores do Facebook, chegou a investir 7,5 milhões
de dólares no Google, em anúncios e links patrocinados. A estratégia funcionou,
e as redes sociais tiveram papel determinante na eleição do primeiro presidente
negro dos Estados Unidos.
Desde então, as plataformas digitais ganharam cada vez mais
destaque em diversos acontecimentos políticos. A Primavera Árabe, série de
protestos e revoltas ocorridos em 2011 na Líbia, Egito, Tunísia e outros países
do Oriente Médio, não teria sido possível sem as redes sociais. Um relatório
divulgado pela Dubai School of Government revelou a importância que o Twitter e
o Facebook tiveram na disseminação e no fortalecimento do movimento.
Somente na Tunísia, ponto de partida das revoltas, o número
de usuários do Facebook aumentou em 200 mil em apenas dois meses, entre
dezembro de 2010 e janeiro de 2011, período inicial do movimento. O Twitter
também registrou pico de acessos dos tunisianos quando o presidente Zine el
Abidine Ben Ali renunciou ao cargo e fugiu para a Arábia Saudita.
No Brasil, as Jornadas de Junho de 2013, manifestações
populares que surgiram, inicialmente, em protesto ao aumento de 20 centavos na
passagem do transporte público e que ganharam outros contornos políticos, são
resultado do ativismo online. Naquele mês, mais de 1 milhão de pessoas saíram
às ruas em mais de 130 cidades. A pesquisa IBOPE de 2014 revelou que 77% dos
manifestantes tomaram conhecimento dos protestos por meio do Facebook.
Na eleição de 2014, a mais disputada dos últimos 25 anos no
Brasil, novamente as redes sociais tiveram papel crucial na disseminação de
notícias, na promoção de debates e na propagação de mentiras. Durante o período
eleitoral, os brasileiros interagiram mais de 670 milhões de vezes no Facebook.
No Twitter, foram quase 40 milhões de mensagens publicadas durante a campanha.
Em diversos momentos das eleições, as hashtags de Dilma Rousseff
(#DilmaMudaMais) e Aécio Neves (#Aecio45PeloBrasil) ficaram nos Trending Topics
mundiais da plataforma.
Na Europa, a internet também ganhou protagonismo político. O
acordo do Brexit, polêmico plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da
União Europeia, teve forte influência do Facebook. Combinado com o crescimento
do nacionalismo e da xenofobia, a desinformação encontrou terreno fértil nas
redes sociais.
A pesquisa YouGov, encomendada pela Reuters Institute for
the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, revelou que as redes
sociais ultrapassaram os jornais tradicionais como fontes de notícia no Reino
Unido entre 2015 e 2016 (ano em que o plebiscito foi votado e que o “sim”
ganhou com 51,9% dos votos). O estudo também analisou o consumo de mídia em 26
países, inclusive o Brasil, e descobriu que 51% dos entrevistados usam as redes
sociais como fonte de informação.
Antropólogo da tecnologia e professor da Universidade da
Virgínia, nos Estados Unidos, David Nemer diz que as fake news se espalham
pelas redes sociais graças à facilidade e eficiência, características da
internet. “Antes, para ter a notícia, você tinha que ir numa banca, comprar o
jornal, fazer uma assinatura, então além de o acesso ser mais dificultado, o
custo era mais alto. Hoje em dia nós temos o WhatsApp, as coisas são entregues
a nós na hora, em qualquer lugar, em qualquer momento”, aponta.
Vem de zap
Na eleição brasileira de 2018, o WhatsApp foi o grande
protagonista. Com mais de 120 milhões de usuários, o aplicativo de mensagens
instantâneas foi decisivo para que mentiras como o “kit gay”, a “ideologia de
gênero” e a “doutrinação comunista”, temas explorados na campanha de Jair
Bolsonaro (PSL), viralizassem nas redes sociais.
Aliada ao antipetismo e à polarização política, a
desinformação, que circulou sem nenhum controle pelos grupos do Whatsapp, foi
fundamental para eleger Bolsonaro. Alguns dias antes da votação, a Folha de S.
Paulo divulgou que um grupo de empresários comprou um pacote de disparo de
mensagens em massa contra o PT. Bolsonaro processou o jornal, mas foi derrotado
no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ainda durante as eleições, Bolsonaro recebeu uma suspensão
de conteúdo do Tribunal. Em outubro de 2018, o ministro Carlos Horbach
determinou que textos e vídeos sobre o “kit gay” fossem removidos.
Usado amplamente nas campanhas de 2018, o “kit” foi o
apelido que diversos congressistas e políticos conservadores deram ao material
do programa “Escola sem Homofobia”, uma cartilha idealizada em 2011 pelo MEC,
mas vetada pela presidente Dilma Rousseff, após pressão das bancadas evangélica
e católica.
O material, destinado somente a professores, explicava
conceitos como gênero e sexualidade, além de sugerir atividades para que os
alunos refletissem sobre comportamentos preconceituosos.
Apesar de estar calcado em informações mentirosas e descontextualizadas,
o uso de discursos como o do “kit” pode ser uma ferramenta eficaz de promoção
política, como demonstrou a pesquisa do IDEIA Big Data Avaaz, realizada em
novembro de 2018. De acordo com o estudo, 84% dos eleitores de Bolsonaro
acreditaram na existência deste conteúdo.
Frequentemente disseminadas em correntes de mensagens pelo
WhatsApp, as informações falsas alcançam um grande número de pessoas.
De acordo com levantamento feito em 2018 pelo Datafolha, 47%
dos eleitores que usam o WhatsApp disseram acreditar em notícias compartilhadas
pelo aplicativo. Além disso, essa é a rede mais utilizada pelos eleitores: 65%
têm conta e 24% o utilizam para compartilhar notícias sobre política.
Ainda de acordo com o instituto, o segmento mais ativo no aplicativo
de mensagens é o de eleitores de Jair Bolsonaro, tanto em alcance quanto em
taxa de engajamento.
Sempre carregadas de forte apelo emocional, as fake news
costumam ter outras características em comum: fogem à norma culta da língua
portuguesa, são sensacionalistas, alarmistas, fazem menção a questões morais,
sexuais e religiosas e as fontes, quando citadas, são bastante duvidosas.
É mentira, tá ok?
A exemplo de Donald Trump, Bolsonaro também transformou a
mentira em prática cotidiana. Mesmo após o fim das eleições, o presidente – que
foge dos jornalistas – continua desinformando. A agência Aos Fatos revelou que
de janeiro a outubro deste ano Bolsonaro deu 400 declarações falsas ou
distorcidas, uma média de 1,4 mentira por dia. Os temas mais abordados por ele
foram economia e meio ambiente.
Embora as declarações do presidente ultraconservador sejam
contestadas por diversos veículos de imprensa, parte do séquito de seguidores
que o elegeu continua ativo e ainda mais radical.
O professor David Nemer diz que os grupos de bolsonaristas
no WhatsApp, antes mais coesos, se dividiram, agora, em três categorias. O
primeiro se concentra na propaganda de governo, cujos membros não permitem que
os atos do presidente sejam questionados. O segundo é o da insurgência, que
reúne pessoas que se tornaram opositoras de Bolsonaro, considerando-o traidor
por ter se alinhado à velha política. O terceiro e último grupo é o da
supremacia social, que está mais interessado em enaltecer o discurso de
extrema-direita do presidente do que, necessariamente, discutir suas ações de
governo. De acordo com Nemer, este último é o grupo mais perigoso e radical.
“Eles estão mais radicalizados, estão em números menores,
mas que podem fazer um estrago maior. Estão em constante processo de
recrutamento, querem expandir mais os grupos deles, os grupos mais extremistas.
Eles não estão muito preocupados com a política do dia a dia, mas se capitalizam
em cima do discurso de extrema-direita dele e do Flávio [um dos filhos do
presidente], principalmente”, destaca.
Apesar do já conhecido uso do WhatsApp para fins políticos,
somente em outubro deste ano a empresa admitiu o envio maciço de mensagens, inclusive
com sistemas automatizados, durante a eleição brasileira de 2018. A empresa
também disse condenar os grupos públicos acessados por meio de links, que
compartilham conteúdos políticos.
Conservadorismo
Assim como na administração de Barack Obama, nos Estados
Unidos, o Brasil também vivenciou, durante os governos petistas, um período de
implementação de políticas sociais. Para Nemer, a inclusão social pode explicar
a eleição de candidatos outsiders, como Trump e Bolsonaro.
“O governo Obama, principalmente no segundo mandato, foi bem
audacioso em políticas de inclusão, sobretudo inclusão para as minorias. Por
isso, eu acredito que o conservador americano, que é bem forte aqui, se sentiu
ameaçado. Se sentiu ameaçado pelo politicamente correto. É mais ou menos o
movimento que ocorreu no Brasil”, revela.
Em ambos os países, governos mais progressistas deram lugar
a políticos autoritários, que desprezam o jornalismo profissional, distorcem a
realidade, polarizam a sociedade e atacam qualquer “instituição pensante”.
Tanto Trump quanto Bolsonaro lançam mão de diversas estratégias de
desinformação para pôr em prática seus planos de governo – no mínimo –
impopulares.
Pensamento crítico
Na era da comunicação instantânea, na qual as informações
circulam em demasia, sobretudo pelas redes sociais, é fundamental saber
reconhecer discursos e conteúdos falaciosos. A educação midiática, conceito
relativamente novo para a maior parte da população, busca dar ferramentas para
que as pessoas consigam identificar conteúdos falsos e fazer uma leitura
crítica das informações que recebem.
Daniela Machado, jornalista e coordenadora do EducaMídia,
programa que busca sensibilizar a sociedade para a importância da educação
midiática, diz que proibir a divulgação de fake news não ajuda a solucionar o
problema, “o que resolve é educar”.
“Acho que a educação midiática é fundamental. Não há uma
única solução que seja a bala de prata que vai acabar com a desinformação, mas
acho que a educação midiática é sim o caminho mais preciso e talvez um dos mais
seguros para que a gente consiga melhorar o ambiente informacional. (…) É
importante que a gente esteja preparado, que seja uma formação de todos os
jovens, ter habitualmente condições de interrogar a informação, de fazer essa
leitura crítica”.
Para ela, a educação midiática é um processo que se constrói
ao longo da vida toda, não em um único ano ou semestre. “Devemos perseguir esse
objetivo o tempo todo na escola. É algo que vai nos dar a habilidade de
conseguir fazer uma leitura reflexiva de toda essa informação que vai chegar
até nós”, destaca Daniela.
Jornalismo profissional
Além do investimento em educação, componente básico para a
formação crítica de qualquer indivíduo, também é fundamental reconhecer a
importância do jornalismo profissional no combate à desinformação.
Profissionais capacitados, éticos e compromissados com a veracidade das
informações são essenciais à manutenção da democracia.
Fortalecer os veículos profissionais de comunicação, desde
as recentes agências de checagem até os jornais mais tradicionais, é
imprescindível para fazer frente ao ecossistema de desinformação que domina a
sociedade hiperconectada do século XXI.
Texto e imagens reproduzidos do site: diplomatique.org.br




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