Luiz Henrique Mandetta. Foto: Agência Brasil
Publicado originalmente no site SRzd, em 29 de março de 2020
O coronavírus avança e o ministro Mandetta virou termômetro
Por Sidney Rezende
“Estamos preparados para ver caminhões do Exército
transportando corpos?”. O impacto avassalador da pergunta do ministro da Saúde
Luiz Henrique Mandetta ao presidente Jair Bolsonaro é de gosto amargo como fel.
Mas acordou quem não entendeu o que está acontecendo.
Precisamos voltar um pouquinho para contextualizar o atual
momento.
O coronavírus colocou o ministro na condição de autoridade
máxima do país. Nossas carências, e desprezo pela pesquisa, conduziram o
ministro a condição de general escolhido para definir a melhor forma de vencer
o inimigo no front de batalha.
No vácuo deixado pela
incapacidade do presidente perceber que os coelhos da sua cartola não são mais
suficientes para evitar a tragédia coletiva, Mandetta assumiu a condição de
líder. E isto é tão forte que nem milícias digitais o retiram desta condição
midiática.
A equipe do ministro é organizada e está sempre um passo na
frente. Muitas vezes engalfinhada em estatísticas, nem sempre precisas, mas ela
tem trazido orientação.
Mandetta assumiu a condição de líder. E agora?
Muito diferente, só para não perder a viagem, do que ocorre
com a equipe econômica. Basta comparar.
O ministro Paulo Guedes está desorientado. Mais parece aquele tiozinho
que fala repetidas vezes do que ele “teria feito se fosse jovem novamente”.
Ministro, ou salvamos vidas ou nos preocupamos com a pauta econômica de
Chicago. Não há espaço para as duas coisas. Guedes ficou pequeno.
O mesmo acontece com o ministro da Justiça, Sérgio Moro,
que, acovardado, sumiu do radar. O temor dele é o mesmo do personagem Joselino
Barbacena, da escolinha do Professor Raimundo, lembra? Aquele que resumia-se ao
bordão: “Ai meu Jesus Cristinho, já me descobriram eu aqui de novo”.
Voltando: Mandetta virou termômetro quando nos perguntamos a
quantas anda a intensidade do avanço do coronavírus, que está se multiplicando,
indubitavelmente. Mas ele também é político quando ache como um pêndulo. Basta
surgir a pergunta: É melhor isolamento vertical ou horizontal? Depende do humor
de Bolsonaro no dia.
O ministro da saúde agora também virou ombudsman e está à
vontade para julgar o trabalho da imprensa como fez neste fim de semana: ” às
vezes meios de comunicação são sórdidos”. Pegou pesado.
O ministro da Saúde tem mais acertado que errado. Sua
popularidade e a aceitação da sua liderança advém justamente desta sensação de
que temos um técnico capaz como um general que confiamos. Mas vale o alerta,
somente para não nos iludirmos, não é o termômetro que derrota a doença. É o
tratamento!
O número de leitos ainda é insuficiente para o que se
avizinha. O treinamento do pessoal da saúde precisa ser intensificado. No Rio,
o cônsul honorário do Panamá, Jorge José González Seba, morreu de forma cruel e,
segundo o relato do próprio em áudio, pouco antes de morrer, ele ficou na UTI
por 48 horas submetido a nenhuma assistência, aparentemente, por incapacidade
da equipe médica saber lidar com a nova doença.
E, por fim, o ministro Mandetta pode ser “general”,
“termômetro”, “líder”, “técnico graduado”, mas não é Deus. O presidente já
sinalizou várias vezes que pode até demiti-lo. Se este sentimento for
verdadeiro, está explicado porque o Chefe da Nação tem sempre ao seu lado o
presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra
Torres.
Barra é aquele que estava com Bolsonaro quando o presidente
ignorando orientações médicas, rompeu diversos protocolos recomendados pelo
Ministério da Saúde para prevenir a disseminação do novo coronavírus, e foi
cumprimentar os seus apoiadores em frente ao Alvorada.
É melhor ficar com o Mandetta.
Texto e imagem reproduzidos do site: srzd.com

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