Morador da favela de Paraisópolis, em São Paulo, em
isolamento contra o coronavírus.
Foto: AMANDA PEROBELLI/REUTERS
Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em
3 de abril de 2020
As lágrimas de Bolsonaro
Pior que o pranto dos poderosos são as lágrimas que os mais
pobres e perseguidos têm que engolir antes que cheguem aos seus rostos
endurecidos pelo abandono
Por Juan Arias
Já não é mais segredo que o presidente Jair Bolsonaro sofre
crises de choro. Às vezes no silêncio da noite, como ele mesmo confessou, e às
vezes perante alguns interlocutores do Planalto, como publicou Igor Gielow em
sua coluna da Folha de S.Paulo.
Poderia parecer estranho que o ex-capitão paraquedista, um
militar atleta, que defende a ditadura e a tortura, cuja paixão são as armas,
possa chorar. Conta-se que chora porque se sente atacado por todos, sobretudo
pela imprensa que ele diz que o odeia. E porque começa a perder milhões dos que
tinham votado nele e hoje estão arrependidos. E não sabe como reconquistá-los.
É sabido que suas preocupações, mais do que a tragédia do
coronavírus, são que possa ser ou não reeleito em 2022 ou que tenha que deixar
a Presidência antes de acabar o mandato. Tudo isso, entretanto, poderia lhe
causar raiva, ira e desejos de vingança. Mas chorar? Não é fácil encontrar no
mundo presidentes da República importantes com crise de pranto. Vocês imaginam
um Putin ou mesmo um Trump soluçando por perderem consensos?
Sobre o choro existe uma grande literatura psicológica.
Sabemos que, como rir, chorar também é uma faculdade exclusiva dos seres racionais.
Os animais não choram. E os humanos choram mais de dor, de emoção e alegria do
que de medo. Diz-se que choram mais as mulheres que os homens, mas se trata de
algo cultural mais do que biológico. É atávico. Conta a lenda que quando o
último rei islâmico de Granada (Espanha), Boabdil, saiu da Alhambra após
entregar as chaves aos Reis Católicos, em 1492, sua mãe, a sultana Aixa,
pronunciou a famosa frase: “Você chora como mulher o que não soube defender
como homem”. Nesta frase está contida toda a literatura do mito da suposta
fragilidade da mulher que é a que chora diante do perigo. Os homens não choram.
O que seria interessante saber é se o presidente que chora
em suas noites de insônia —além de chorar porque se sente incompreendido e com
medo de que o tirem do seu trono— chora também por outros motivos nobres, como
os males que o Brasil sofre. E certamente não lhe faltam motivos para sofrer e
chorar e se preocupar com este país hoje amedrontado pela epidemia do
coronavírus e onde milhões de pessoas sonham com um trabalho que lhes permita
viver com decência, e que hoje temem perder o pouco que resta.
Há mil motivos mais nobres para que Bolsonaro possa chorar
do que o medo de que seus ministros mais importantes ou os militares de seu
Governo possam abandoná-lo. Há motivos para chorar vendo a cobiça dos bancos
que enforcam milhões de trabalhadores com seus juros, entre os maiores do
mundo, e que continuam impassíveis e frios também diante da tragédia da
epidemia. Há motivos de dor frente ao mar de privilégios dos políticos e das
castas que resistem a morrer e que são uma ofensa à dignidade dos que sofrem
necessidades e são abandonados à própria sorte.
O que seria interessante saber é se o presidente que chora
em suas noites de insônia chora também por outros motivos nobres, como os males
que o Brasil sofre.
Seria um ponto a seu favor se Bolsonaro, o duro, fosse
também capaz de chorar por se sentir responsável por todas as lágrimas
derramadas neste país pelos que mais precisariam ser ajudados; de todas as dores
das mães que perdem seus filhos vítimas de uma violência da qual os políticos
parecem desviar seu olhar. E, embora seja lhe pedir demais, que fosse capaz de
chorar também pelo assassinato contínuo da Amazônia e de seus habitantes, a
quem nos custa aceitar que sejam tão ou mais humanos que nós, apesar de serem
quem melhor conserva valores exponenciais do Homo sapiens que nossa civilização
esqueceu.
É possível que as crises de choro que afligem Bolsonaro
sejam um alarme de algum transtorno psíquico, como alguns tentam insinuar. Mas
o que mais preocupa é que o presidente de um país da envergadura do Brasil, com
milhões condenados ao abandono, seja ao mesmo tempo condescendente com um
capitalismo que assassina os mais pobres e excluídos do sistema.
Não sabemos o motivo real dos choros do presidente, mas
certamente não parece que seja, por exemplo, pelos idosos que, segundo ele, não
importaria que fossem devorados pela epidemia. Nem pelos mais pobres e
marginalizados pelo sistema, nem pelos diferentes, os não atletas, aqueles a
quem a natureza já castigou e a humanidade deixa abandonados.
O Brasil, hoje, mais que de lágrimas do presidente,
necessita de políticas valentes de recuperação de uma sociedade doente de medo
porque não sabe se quem deveria cuidar dela prefere continuar obstinado a seus
privilégios e à sua voracidade de poder em vez de se sacrificar por seu resgate
social e político.
Pior que o pranto dos poderosos são as lágrimas que os mais
pobres e perseguidos têm que engolir antes que cheguem aos seus rostos
endurecidos pelo abandono a que foram condenados por um poder que tem alergia
aos pobres, um vocábulo que lhes custa até pronunciar.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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