terça-feira, 14 de abril de 2020

O mundo como eu vejo. Uma contribuição ao debate


Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 10 de Abril de 2020

Opinião - O mundo como eu vejo. Uma contribuição ao debate

Por Almeida Lima* (Da Coluna Aparte)

É pesaroso saber que a humanidade, embora já tendo caminhado por muitos e longos séculos, vivenciado inúmeras guerras, enfrentado epidemias, pandemias, fomes e cataclismas naturais, suportado imensas dores e sofrimentos, não tenha percebido a importância de se construir uma sociedade global com alto grau de civilização e de progresso.

Falo de uma sociedade que seja obra da solidariedade e da fraternidade entre as nações pelas ações de governos comprometidos com a felicidade humana. Na aldeia em que o mundo se transformou, opera-se um modelo de sociedade que não mais serve, embora nunca tenha servido.

Era, como ainda é, suportado. Nela não se cultua a cooperação mútua, e não há o senso de proteção e de defesa recíprocas. O que impera são os conflitos, a competição, a dominação, a subjugação, a espoliação, enfim, é a sociedade dos que vivem de costas uns para os outros.

Sinto que essa é uma conta que não fecha. E as circunstâncias em que fomos surpreendidos pela pandemia do novo vírus corona revelam o fracasso desse modelo de sociedade global capitalista selvagem. Somos hoje um mundo falido.

Uma nova ordem mundial deve ser estabelecida sob pena de sermos varridos da face da terra. E urge que cada um de nós - pessoas, líderes e nações - dê os primeiros passos na tarefa de tornar essa aldeia pacificada, solidária e envolvida num esforço coletivo de desenvolvimento e de progresso humanos capazes de enfrentar e superar as vicissitudes de uma nova era.

Somos quase 200 países ao redor do mundo, e onde estão seus líderes? Cadê os estadistas nesse momento de dificuldades? Se existem, sumiram, estão calados ou até doentes, vitimados pelo próprio vírus.

Outros ausentaram-se, envergonhados e desacreditados por decisões equivocadas que tomaram, além dos que estão a bater boca por força da ignorância, charlatanice, populismo, irresponsabilidade e demagogia a que são afeitos, pois estão preocupados, apenas, com a próxima eleição.

E a ciência..., onde está a ciência, a sua evolução? Arrasta-se, ainda, pelas bandas do século passado? Que vexame! Nenhuma vacina ou remédio existe como resposta imediata para combater um organismo (vírus) que, embora sofra mutações, foi descoberto no final do século XIX. Há 130 anos, portanto.

Vejam que estou a falar da ciência, não dos cientistas, pois esses dependem do financiamento de governos que não lhes dão a importância devida, já que o capital privado das corporações financeiras monopolistas não atua sem o retorno de grandes lucros, e a eles não importa a preservação da vida, mas o acúmulo de capital.

E a indústria? E os mercados que dizem se “auto-organizar” sem a necessidade da regulação do Estado? Qual nada! Foram surpreendidos de calças arriadas. Uma vergonha! Que humilhação! Tido como a potência mundial, os Estados Unidos disputam com o terceiro mundo, numa concorrência desleal, a preferência pela compra de luvas, máscaras e ventiladores pulmonares no mercado Chinês.

E a chamada Europa do primeiro mundo... Quem diria, hein! Teve revelada a sua saúde pública e privada terceiro-mundistas. Deficitários em tudo. Em leitos, inclusive de UTI, em simples respiradores mecânicos, em luvas e máscaras, além de em profissionais de saúde. Nos hospitais, pacientes morrendo por impossibilidade material de assistência, levando médicos à terrível decisão de quem deve viver ou morrer.

Não gosto da expressão “não há mal que não traga um bem”, mas concordo que a Covid-19 revelou ao mundo a falência desse modelo de sociedade universal, cujo desastre tem a marca da perversidade patrocinada pela dominação capitalista selvagem.

E a lição resultante é da incerteza do futuro que nos espera, mantido o estado de coisas vigentes, ou a construção da sociedade global com alto grau de civilização e de progresso, ao se estabelecer uma nova ordem mundial baseada na valorização do ser humano e da vida, na solidariedade e ajuda mútuas entre as nações, no avanço da ciência, no progresso da humanidade, e na regeneração e preservação do planeta. É assim que eu vejo.

* É advogado. Foi prefeito de Aracaju, deputado estadual, federal e senador e secretário de Estado da Saúde de Sergipe.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

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