O presidente Jair Bolsonaro, durante pronunciamento na
sexta-feira (24/04).
Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em
25 de abril de 2020
Bolsonaro fica nu ao se despir das três bandeiras que o
levaram ao poder
Os próximos dias serão decisivos para saber se, mais uma
vez, a Presidência da República cairá nas mãos do vice-presidente
Por Juan Arias
O presidente de extrema direita Jair Bolsonaro manteve ontem
um duelo histórico com seu ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, que lhe fez
graves acusações de querer interferir na Polícia Federal para ficar a par de
investigações de corrupção sobre sua família.
Ainda é cedo para saber quais serão as consequências
jurídicas e legais sobre tais acusações, mas o que ficou claro é que Bolsonaro
vai ficando nu ao rasgar durante seu mandato as três grandes bandeiras com as
quais se cobriu durante a campanha e o levaram à vitória.
Era a luta dura contra a corrupção política que naquela
época envergonhava o país e que o candidato à Presidência jurou combater. Foi
assim que aceitou que o paladino naquele momento de luta contra a corrupção, o
à época juiz da Lava Jato, Sergio Moro, entrasse em seu Governo como um
superministro da Justiça. Foi seu primeiro gol.
Ele foi perdendo essa bandeira à medida em que foram
aparecendo possíveis escândalos de corrupção dentro de sua própria família.
Hoje, Bolsonaro, com sua Presidência acossada, está se refugiando até mesmo nos
velhos deputados que também estão envolvidos em escândalos de corrupção para
que possam salvá-lo de um possível impeachment no Congresso. E acaba de perder
sua melhor espada, o ministro da Justiça, Moro, que decidiu deixar o Governo e
lançar contra ele acusações tão graves que serão agora analisadas pelo Supremo
e podem acabar forçando-o a renunciar.
A segunda bandeira era a de acabar no Brasil com a chamada
velha política que governava fazendo acordos pouco republicanos com os
deputados oferecendo-lhes cargos e benefícios para conseguir aprovar os projetos
do Governo.
Bolsonaro havia jurado acabar em seu mandato com aquele
velho estilo de governo para governar “escutando mais o povo” do que os
deputados e senadores.
Tal bandeira, que lhe rendeu muitos votos nas eleições até
mesmo de brasileiros que não gostavam de seu aspecto militar totalitário, mas
que estavam aborrecidos com as tais maneiras de governar de costas às pessoas,
foi ao chão. E está tentando formar uma maioria que nunca teve no Congresso e
sem a qual viu que era impossível governar. E o está fazendo com os métodos da
mais rançosa velha política.
Resta a ele, prestes a cair, a última bandeira, a de
realizar uma política neoliberal, de menos Brasília e mais Brasil, menos Estado
e mais capital privado. Para essa bandeira escolheu o economista da Escola de
Chicago, o superliberal Paulo Guedes. Uma bandeira que pretendia reverter a
desastrosa política econômica dos governos de Dilma Rousseff, que deixou 14
milhões de trabalhadores na rua.
Essa bandeira neoliberal também já está praticamente murcha
e a imprensa fala abertamente que após a saída do popular ministro Moro, já
estaria sendo preparada a saída da estrela econômica Guedes, que teria perdido
a confiança do Presidente que pretende reverter a política econômica para dar
lugar a um populismo que possa ajudá-lo na reeleição.
Ontem foi significativo que durante seu discurso para
responder às acusações de Moro, durante o qual esteve cercado por todos os
outros ministros, o único sem terno e gravata, de camisa e com a máscara contra
o coronavírus, tenha sido justamente o ministro da Economia. Guedes com a
máscara mostrava seu contraponto ao Presidente, que insiste em minimizar a
epidemia e continua abraçando as pessoas nas ruas e pedindo que tudo volte à
vida normal enquanto o número de mortos já se multiplica em maior proporção do
que a Espanha.
Despojado das três bandeiras que lhe deram a vitória, o
Presidente, cujo Governo faz água por todos os lados, aparece a cada momento
mais nu e sozinho. Restam a ele os ministros generais do Exército cuja reação
diante das graves acusações lançadas por Moro, ninguém ainda sabe se decidirão
abrigar o Presidente nu, ou se farão algum malabarismo para cobrir sua nudez
com seu voto de confiança.
Os próximos dias serão decisivos para saber se, mais uma vez,
a Presidência da República deste país cairá nas mãos do vice-presidente eleito
com ele nas urnas que no Brasil, hoje, é o general Mourão. A última palavra
agora será do Congresso e do Supremo, as duas instituições que podem colocar em
andamento o impeachment de um Presidente da República.
Um momento que para o Brasil não poderia ser mais crítico,
já que o coronavírus, além de a cada dia levar mais vidas, está produzindo uma
grave crise econômica com milhões de brasileiros que sem poder trabalhar voltam
aos anos terríveis da fome e da miséria.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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