Publicado originalmente no site [huffpostbrasil.com], em 24 de abril de 2020
As 'relações impróprias' de Bolsonaro e outros trechos da
'delação' de Moro
Leia as principais declarações de Sergio Moro sobre a
atuação de Bolsonaro para interferir na PF; Ex-juiz da Lava Jato deixou
Ministério da Justiça nesta sexta.
By Isabel Fleck e Débora Álvares
Mais popular ministro do governo, Sérgio Moro deixou o
Ministério da Justiça e da Segurança Pública nesta sexta-feira (24), expondo
que Jair Bolsonaro está tentando interferir politicamente na Polícia Federal ao
exonerar o diretor-geral do órgão Maurício Valeixo, sem qualquer causa
“consistente”.
“Falei ao presidente que seria uma interferência política, e
ele disse que seria mesmo”, disse Sergio Moro. “Não tendo uma causa consistente
[para a troca no comando da PF] e percebendo que essa interferência política
pode levar a relações impróprias entre o diretor-geral, o superintendente e
presidente da república, é algo que não posso concordar”, disse Moro.
Além disso, o ex-juiz da Lava Jato afirmou ainda que
Bolsonaro disse a ele, “mais de uma vez, expressamente, que ele queria ter uma
pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher
informações, que ele pudesse colher relatórios de inteligência” da PF.
“Realmente não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação.”
Moro disse que Valeixo não pediu para sair, ao contrário do
que foi publicado no Diário Oficial, e que ele não foi sequer informado da
decisão final de Bolsonaro, apesar de sua assinatura digital constar na nota do
documento oficial.
“Eu não assinei esse decreto. Em nenhum momento isso foi
trazido para mim. Em nenhum momento, o diretor-geral da PF apresentou um pedido
formal de exoneração. Eu sinceramente fui surpreendido, achei que isso foi
ofensivo.”
Leia as principais declarações feitas por Moro em sua
“delação” na saída do governo.
Não foi opção
“Queria lamentar esse evento [sua demissão] na data de hoje,
estamos passando por uma pandemia. Busquei ao máximo evitar que isso
acontecesse, mas foi inevitável. Peço a compreensão de todos pela situação
adversa, mas não foi por minha opção.”
Pressão por mudança na PF
“A partir do segundo semestre do ano passado, passou a haver
insistência do presidente para a troca do comando da Polícia Federal. Isso,
inclusive foi declarado publicamente por ele.
Houve primeiro o desejo de trocar o superintendente da PF do
Rio de Janeiro. Sinceramente não havia motivo para essa substituição, mas,
conversando com o superintendente em questão, ele queria sair do cargo, por
questões exclusivamente pessoais. Então, nesse cenário, acabamos concordando,
eu e o diretor-geral, com uma substituição técnica.
Quando se começa a preencher esses cargos técnicos de
polícia com questões político-partidárias, realmente o resultado não é bom,
para a corporação inclusive. (...)
[Depois] O presidente passou a insistir na troca do
diretor-geral. Eu sempre disse para o presidente: ‘Não tenho nenhum problema em
trocar o diretor-geral da Polícia Federal, mas eu preciso de uma causa. E uma
causa relacionada a insuficiência de desempenho, a um erro grave’. No entanto,
o que vi, durante todo esse período, até pelo histórico do próprio
diretor-geral, é um trabalho bem feito.”
Interferência política
“Não é questão do nome. Há outros bons nomes para assumir o
cargo de diretor-geral da PF, outros delegados igualmente competentes. O grande
problema de realizar essa troca é que haveria uma violação de uma promessa que
me foi feita inicialmente - de que eu teria carta branca -, em segundo lugar,
não haveria uma causa para essa substituição e estaria claro que estaria
havendo uma interferência política na Polícia Federal, o que gera um abalo na
credibilidade - não minha, mas minha também, mas também do governo, com esse
compromisso maior que temos que ter com a lei, e ia ter impacto também na
própria efetividade da Polícia Federal. Ia gerar uma desorganização.
Não aconteceu durante a Lava Jato, a despeito de todos os
problemas de corrupção dos governos anteriores. Houve até um episódio em que
foi nomeado um diretor no passado com o intuito de interferência política e não
deu certo, ficou pouco mais de 3 meses. A própria instituição rejeitou essa
possibilidade.”
Troca geral
“O problema nas conversas com o presidente, e isso ele me
disse expressamente, não é só a troca do diretor-geral. Haveria também intenção
de trocar superintendentes (...) sem que fosse me apresentado uma razão, uma
causa para realizar esses tipos de substituições que fossem aceitáveis.
Cada vez mais me veio a sinalização de que seria um grande
equívoco realizar essa substituição [do diretor-geral].”
“Falei ao presidente que seria uma interferência política, e
ele disse que seria mesmo", disse Sergio Moro.
Interferência política ‘mesmo’
“Falei ao presidente que seria uma interferência política, e
ele disse que seria mesmo. Falei que isso teria um impacto para todos, que
seria negativo, mas para evitar uma crise durante uma pandemia - não tenho
vocação para carbonário, muito pelo contrário -, eu sinalizei: então vamos
substituir o Valeixo por alguém que represente a continuidade aos trabalhos,
alguém com perfil absolutamente técnico e que fosse uma sugestão minha também,
na verdade nem minha, da própria PF. Eu sinalizei com o nome do atual
diretor-executivo da PF, Disney Rosseti. Nem tenho uma grande familiaridade com
ele, mas é uma pessoa de carreira, de confiança e essas questões não são
pessoais, mas são decididas tecnicamente. Não obtive resposta [de Bolsonaro].
O presidente tem preferência por alguns nomes que seriam da
indicação deles. Não sei qual vai ser a escolha. Foi ventilado o nome de um
delegado que passou mais tempo no Congresso do que na ativa. Foi sugerido o
nome do atual diretor da Abin, que é até um bom nome dentro da PF. Mas o grande
problema não é tanto quem colocar, mas por que trocar - e permitir que seja
feita a interferência política no âmbito da PF.”
Bolsonaro queria relatórios de inteligência
“O presidente me disse mais de uma vez, expressamente, que
ele queria ter uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse ligar, que
ele pudesse colher informações, que ele pudesse colher relatórios de
inteligência, seja o diretor, seja o superintendente e realmente não é o papel
da Polícia Federal prestar esse tipo de informação.
As investigações têm que ser preservadas. Imaginem se,
durante a própria Lava Jato, ministro, diretor-geral, presidente, a então
presidente Dilma ou o ex-presidente [Temer] ficasse ligando para o
superintendente em Curitiba para colher informações sobre as investigações em
andamento.”
Por que alguém entra?
″[A substituição de Valeixo] É algo que não entendi
apropriado.
O grande problema não é quem entra, mas por que alguém
entra. E se esse alguém recebe a corporação aceitando substituição do atual diretor-geral,
com o impacto que isso vai ter na corporação, não conseguiu dizer não ao
presidente a uma proposta dessa espécie, fico na dúvida se vai conseguir dizer
não em relação a outros temas.”
Valeixo não pediu para sair
“Há uma possibilidade que se afirma, que o Maurício Valeixo
gostaria de sair, mas isso não é totalmente verdadeiro. É o ápice da carreira
de qualquer policial federal a direção-geral da PF. E ele entrou com uma
missão. Claro que, depois de tantas pressões para que ele saísse, ele manifestou
a mim: ’Olha, talvez seja melhor eu sair para diminuir essa cisma e nós
conseguirmos realizar uma substituição adequada, e daí eu sairia para uma
adidância, para outro cargo. Mas não fez isso voluntariamente, mas em
decorrência dessa pressão que, a meu ver, não é apropriada.”
Impacto sobre inquéritos no STF
“O presidente também me informou que tinha preocupação com
inquéritos em curso no STF e a troca também seria oportuna na Polícia Federal
por esse motivo. Também não é uma razão que justifique a substituição, e é até
algo que é uma grande preocupação.
Tenho dever de tentar proteger a instituição, a PF, e por
todos esses motivos, busquei solução alternativa para tentar evitar crise
política na pandemia, acho que o foco deveria ser o combate à pandemia, mas
entendi que não podia deixar de lado meu compromisso com o estado de direito.”
Moro não assinou ato de exoneração (mas sua assinatura
digital está lá)
“A exoneração que foi publicada, eu fiquei sabendo pelo
Diário Oficial, na madrugada, eu não assinei esse decreto [tem a assinatura
digital de Moro na publicação]. Em nenhum momento isso foi trazido para mim. Em
nenhum momento, o diretor-geral da PF apresentou um pedido formal de exoneração
[o texto também fala que a exoneração foi “a pedido”]. Eu sinceramente fui
surpreendido, achei que isso foi ofensivo.
"Esse ultimato também é uma sinalização de que presidente me
quer fora do cargo".
Biografia como juiz
De todo modo, meu entendimento foi de que eu não tinha como
aceitar essa substituição. Há uma questão envolvida da minha biografia como
juiz, de respeito à lei, ao estado de direito, à impessoalidade no trato das
coisas com o governo. Eu vivenciei isso na Lava Jato.
Tenho que preservar a minha biografia, mas acima de tudo
tenho que preservar o compromisso que assumi inicialmente com o próprio
presidente, que nós seríamos firmes no combate à corrupção, crime organizado e
criminalidade violenta. E o pressuposto para isso é que nós temos que garantir
o respeito à lei e a própria autonomia da própria PF contra interferências
políticas
Relações impróprias do presidente
“Não tendo uma causa consistente [para a troca no comando da
PF] e percebendo que essa interferência política pode levar a relações
impróprias entre o diretor-geral, o superintendente e presidente da república,
é algo que não posso concordar.
Não tenho como persistir com o compromisso que assumi sem
que eu tenha condições de trabalho, sem que eu tenha condições de preservar a
autonomia da PF para realizar seus trabalhos ou sendo forçado a sinalizar uma
concordância a uma interferência política na PF cujos resultados são
imprevisíveis.”
Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

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