Imagem reproduzida do Google e postada pelo blog para ilustrar o presente artigo
Da morte do espírito: falar da ignorância em tempos de
corona vírus
Por Edmilson Menezes * (Do Blog GETEMPO)
É estarrecedor ver o que está acontecendo em nosso país.
Verdadeiros tempos sombrios! Enfrentamos caso único na história: a pandemia por
corona vírus. É verdade que outras pandemias ocorreram na história, mas esta
tem singularidades biológicas bastante distintas. Todavia, sua maior tipicidade
é carregar consigo o poder de revelar nuances inevitáveis da indigência moral e
política da nossa combalida sociedade brasileira. Com a chegada da doença,
ouvimos retumbar as premissas orientadoras da ação pública entre nós: a
economia primeiro, a saúde e a vida da população que paga impostos depois.
Vimos estarrecidos (alguns!) o vosso chefe de Estado, apesar de todas as
evidências científicas, estatísticas e empíricas, minimizar a gravidade de uma
moléstia de proporções planetária, porque enxergou seus projetos políticos se
desestabilizarem diante do mal. A vaidade e o ressentimento manifestos, que de
contínuo afloram em momentos embaraçosos como o vivido por nós agora, são a
estampa de um Presidente pouco afeito à preservação da vida dos brasileiros,
seus eleitores ou não. O que Vossa Majestade e seus asseclas tinham em mente
pode demorar a se concretizar ou mesmo não se concretizar, a saber, a
consecução renitente de uma estabilidade econômica, à custa sempre do
sacrifício dos trabalhadores (a exemplo da Reforma Trabalhista, Reforma da
Previdência e quejandos), que deveria, inexorável e paranoicamente, ser
esfregada na cara de todos nós junto com as palavras de ordem: “Somos melhores
que os comunistas”; “Fizemos o que eles não fizeram”; “Limpamos o Brasil da
corrupção”.
Não sou ingênuo quanto ao passado dos governos anteriores ao
atual. Pelo contrário, em vez disso a eles desferi inúmeras críticas sem deixar
de reconhecer que o jogo da democracia tem cláusulas explícitas, dentre elas, a
alternância no poder. De José Sarney, passando por Fernando Collor, Fernando
Henrique, Luiz Inácio, até Dilma Rousseff e Michel Temer, presenciei uma série
de desmandos, de incompetências, de adulterações, de privilégios, etc. Todavia,
acontece algo de especialmente turvo e mórbido promovido nessa atual gestão: a
marca do incentivo à morte em nome da economia. É verdade que o sistema capitalista
subsiste para sugar, por intermédio da mais-valia, a força de trabalho e com
ela o tônus vital do trabalhador. Mas isso se dá através de etapas bem marcadas
e calculadas. O que o Chefe brasileiro quer é, de forma despudorada, suprimir
essas etapas e nos jogar diretamente nos braços de Thanatus. O coletivo
expresso no pronome nos foi empregue na oração anterior de modo apelativo e
quase metafórico, porquanto estamos cansados de saber, apesar do caráter
“democrático” do corona vírus, quem são os nos: os pobres, os negros, os
moradores de comunidades, os idosos, os trabalhadores (agora hipocritamente
enaltecidos como fundamentais, essenciais, etc, mas que até a pouco eram
invisíveis para a sociedade), enfim, aqueles que fazem parte do lado fraco da
linha, que não podem deixar de se expor ao vírus letal, porque a economia não
pode parar.
De tudo isso, no entanto, tiro uma lição dolorosa: uma
expressiva parte desses trabalhadores brasileiros, desses candidatos a noivas e
noivos da morte, ama a foice ameaçadora à beira de seu pescoço. Amam-na porque
eles próprios colocaram-na lá; e, depois que fizeram o serviço, são incapazes
de reconhecer, apesar de verem suas vidas sendo ameaçadas por avarentos
interesses políticos afiadores da lâmina do Potentado, que é possível e
permitido desfazer o equívoco.
Há um torpor geral invadindo nossa sociedade. Parece que
estamos paralisados, parece que os espíritos quedaram-se incapazes. Eles não
sabem mais reconhecer evidências, desdenham da lógica, fazem pouco caso da
prova empírica, e, acima de tudo, apartam-se do bom senso. A morte resultante
do vírus é seguida, paralelamente, pela morte dos espíritos, atingidos em cheio
pelo germe da ignorância. O corona pode ser domado por vacinas, tratamentos e
antídotos. E a ignorância? E a turbidez do caráter? E o narcisismo patético
gerado pela força do coturno?
O velho Platão, no seu Alcebíades, já nos lembrava: a pior
ignorância é a que não se reconhece como tal. Quando ignoro e ponho-me à cata
de superar tal estado, há mérito; todavia, quando não reconheço minha condição
de ignorar, já que minha arrogância não permite, encaminho-me para um contágio
cujo desfecho é a morte do espírito. Tão triste como vermos sucumbir vítimas à
pandemia é sabermos que a ignorância arrogante pode procrastinar semelhante
estado construindo novos cadafalsos para receber mais e mais vítimas. Talvez os
prejuízos espirituais sejam, neste contexto, mais letais do que os biológicos,
em virtude dos primeiros nos paralisarem diante dos segundos e serem
responsáveis pela certidão de óbito da inteligência! Por fim, nunca é demais
lembrar: a ignorância não significa somente o estado de quem não sabe, é também
grafada como sinônimo de obscurantismo e de rudeza. Tempos insanos!
* Doutor em Filosofia e professor universitário.
Texto reproduzido do site: infonet.com.br

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