Publicado originalmente no site OS DIVERGENTES, em 6 de maio de 2020
Conversa com Jair Bolsonaro
Por Orlando Brito
Eu saía do Palácio do Planalto nessa terça-feira (5/05) por
volta do meio dia quando vi três soldados da Guarda presidencial subindo a
rampa usando máscaras. Em plena crise da pandemia do novo Coronavírus, essa cena
diferente me chamou a atenção: Dragões da Independência com o rosto
semi-coberto. De repente, ouço um chamado: “Brito, quero falar com você”. Era o
presidente Jair Bolsonaro, que estava no topo da rampa.
Ao ouvir a um segundo chamado, retornei ao interior do
Planalto e tomei o elevador para o segundo andar. Ao lado de 10 ou 12 pessoas
que o acompanhavam, Bolsonaro veio falar comigo e perguntou-me se eu havia
mesmo sofrido agressão na manifestação de domingo. Eu disse que sim. Narrei o
que acontecera. Contei do safanão que levei, que fui chamado de “mídia lixo” e
que queriam quebrar minhas câmeras.
Ele não se desculpou. Mas disse ser “impossível controlar a
ação das pessoas em uma multidão “. E que não entendia como alguém podia
atribuir a ele, Bolsonaro, a autorização para agressões contra quem quer que
fosse.
Subimos a rampa interna do Palácio a caminho de seu
gabinete. Indagou pelo meu colega também repórter-fotográfico Dida Sampaio, do
Estadão. Ao chegarmos ao terceiro andar, outras pessoas falaram com ele, antes
de mim. Pediu que eu esperasse.
Em seguida, me chamou para que, junto com as outras pessoas,
fôssemos para uma sala contígua ao seu gabinete. Havia lá uma mesa com 12 ou 14
cadeiras e um bufê. Disse-me que comêssemos alguma coisa enquanto conversássemos.
Eu falei que tinha outro compromisso e que não queria atrapalhar sua agenda.
Pediu que eu continuasse. Serviu-se de pouca comida.
Disse muitos impropérios contra os jornais Folha de São
Paulo e Estadão e e a TV Globo. Expressões fortes. “Querem me sacanear o tempo
todo… deturpam o que digo… mídia lixo, lixo… canalhas…” Quando nos sentamos, eu
afirmei que ele tinha uma relação desagradável conosco da imprensa. Mais uma
vez, o presidente disse palavras pesadas contra a mídia. Quando percebiam que Bolsonaro
estava se exaltando, o deputado Fábio Farias e o presidente da Embratur Gilson
Machado, também presentes, puxavam outros assuntos para amenizar o clima.
Isso durou não mais que vinte minutos. Pouco antes antes de
sair dessa sala, eu opinei que ele deveria — ao invés das entrevistas
tumultuadas sob a mangueira do Palácio Alvorada — ir ao Comitê de Imprensa para
falar com os jornalistas credenciados pelos jornais, profissionais qualificados
para uma cobertura da envergadura da Presidência. Acrescentei que sempre éramos
admoestados e ofendidos. Que ficamos confinados em um cercadinho
desconfortável. Bolsonaro disse que ia rever sua presença naquelas entrevistas.
E novamente palavras pesadas sobre a mídia. Ele retornou ao gabinete principal.
Fiz uma foto para meu futuro livro. Agradeci e fui embora.
Desci para o térreo, onde fica o Comitê de Imprensa. Narrei
fielmente o que aconteceu aos colegas jornalistas da cobertura diária da
Presidência da República. Vi que sua promessa de rever o formato de entrevista
na porta do Alvorada não se cumpriu porque à noite ele falava de lá sobre o
depoimento de Sérgio Moro em Curitiba. Mas reparei que pediu desculpas pelo que
havia dito pela manhã, quando mandou colegas jornalistas calarem a boca.
Alguns não interpretaram corretamente o chamado para uma
conversa sobre o desagradável episódio da agressão no domingo e interpretaram
como um almoço de caráter social e colaborativo.
Não creio que um jornalista que, como eu, cobre a
Presidência possa recusar um convite de um presidente, seja ele qual for,
quando chamado para uma conversa. Seria a negação da própria profissão.
Orlando Brito
Texto e imagens reproduzidos do site: osdivergentes.com.br


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