O comandante-geral do Exército, Edson Leal Pujol,
durante
solenidade em Porto Alegre no dia 30 de abril de 2020.
FOTO: MARCOS
CORRÊA/PR/VÍDEO: AFP
Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 4 de maio de 2020
Forças Armadas sinalizam distância de Bolsonaro na crise do
coronavírus, mas divórcio de militares com Governo é improvável
Bolsonaro avança com troca na PF e ganha apoio de Mourão na
contenda com o STF. Pulso da turbulência depende de quebra de sigilo do
depoimento de Sergio Moro
Por Afonso Benites
O comando das Forças Armadas no Brasil fez um raro gesto
público de distanciamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nesta
segunda-feira, mas os militares, que nunca foram tão poderosos no Brasil desde
o fim da ditadura, ainda estão longe de uma eventual declaração de divórcio de
seu Governo. Um dia após o mandatário tentar se fiar no alto índice de
confiabilidade das Forças Armadas dizendo que os militares estavam ao seu lado
em uma manifestação pró-intervenção militar —e frisar que a paciência com
outras instituições estava acabando—, o ministro da Defesa, o general Fernando
de Azevedo e Silva, emitiu uma nota para reforçar o que deveria ser óbvio: que
a Marinha, o Exército e a Aeronáutica respeitam a legislação e estão
comprometidos com a democracia e com a “harmonia” e “independência” dos
poderes, além de repudiarem agressões a jornalistas. “As Forças Armadas estarão
sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade. Este é o nosso
compromisso”.
O presidente buscava respaldo para uma irritação em
especial: a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal
Federal, que o impediu de nomear o delegado Alexandre Ramagem para a
diretoria-geral da Polícia Federal. “Chegamos no limite, não tem mais conversa,
daqui pra frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição, ela será
cumprida a qualquer preço, e ela tem dupla mão”, disse Bolsonaro no domingo ao
participar pela terceira vez de uma manifestação que pedia o fechamento do STF
e do Congresso. Ramagem é amigo dos filhos de Bolsonaro e havia a suspeita,
levantada pelo ex-ministro Sergio Moro, de que um novo chefe da PF interferiria
politicamente no órgão em benefício do presidente. Como Ramagem não pode
assumir a função, o seu número dois na Agência Brasileira de Inteligência
(ABIN), Rolando Alexandre de Souza, assumiu a diretoria da PF nesta segunda.
Se parte da cúpula militar está pronta para concordar com
Bolsonaro na avaliação de que o STF extrapolou seu papel ao vetar Ramagem, por
outro, não parece disposta a ver o presidente transferindo esse endosso à sua
participação em manifestações radicais. Apesar do recado dos militares nesta
segunda, na prática, eles nunca tiveram tão imbricados no poder desde a
redemocratização, no fim da década de 1980. Oficiais das Forças Armadas e
egressos de academias e da Polícia Militar ocupam 9 dos 22 ministérios. Também
estão em dezenas de cargos nos segundo e terceiro escalões. Quando o presidente
quer tutelar algum ministro, como no caso de Nelson Teich na Saúde, ele coloca
um militar como seu número dois.
A luta declarada dos militares agora é tentar manter o
contingente das forças distanciado dos discursos presidenciais mais exaltados.
O principal articulador dessa tentativa de isolamento é o comandante do
Exército, o general Edson Leal Pujol. Quando teve de definir estratégias
logísticas para fazer com que a Força ajudasse no combate à pandemia de
coronavírus, Pujol avisou aos comandantes das 12 regiões militares que o
importante era “mostrar serviço e deixar a política para os políticos”, nas
palavras de um oficial de alta patente consultado pela reportagem. A nota do
Ministério da Defesa nesta segunda foi inequívoca em marcar diferença na
abordagem sobre a covid-19: “Enfrentamos uma pandemia de consequências
sanitárias e sociais ainda imprevisíveis, que requer esforço e entendimento de
todos", diz o texto assinado por Fernando de Azevedo e Silva, que chegou a
ser assessor do presidente do STF, Antonio Dias Toffoli, antes de assumir o
posto
Em março, enquanto Bolsonaro reforçava em rede nacional de
rádio e televisão o seu discurso negacionista da gravidade da doença e se
mostrava mais preocupado com a economia do que com a saúde, Pujol gravou um
vídeo para os canais do Exército dizendo que o momento exigia “cuidado e
prevenção” e que essa talvez fosse “a missão mais importante de nossa geração”.
Considerado um profissional de poucas palavras, que já
declarou ser contrário à intervenção militar e sem conexões no universo
político-partidário, Pujol sabe enviar seus recados nas entrelinhas. Enquanto
quase todo o séquito de Bolsonaro participa de solenidades no Planalto, o
comandante do Exército se esquiva como pode. Ele não esteve na posse do general
Walter Braga Netto na Casa Civil. Tampouco nas de André Mendonça e de José Levi
Amaral, no Ministério da Justiça e na Advocacia Geral da União, respectivamente.
Neste domingo, Bolsonaro lançou mão de um de seus usuais
balões de ensaio —o jargão para quando um político testa a receptividade de um
movimento ou decisão: disse a aliados que poderia trocar Pujol ainda neste ano
pelo general Luiz Eduardo Ramos, atual ministro da Secretaria de Governo (um
inusual general da ativa com cargo no Governo). O recado que veio da caserna
foi de quem quer que fosse o substituto, ele enfrentaria rejeição. Prontamente,
Bolsonaro mandou seus assessores negarem a informação. O próprio Ramos foi um
dos que afirmaram que a troca não faria sentido, que essa era uma “hipótese
absurda” e que ele respeita a fila hierárquica de promoção interna. Hoje, o
ministro estaria na sexta posição dessa lista, que leva em conta a antiguidade
dos generais da ativa para assumirem o comando geral. “Com que liderança eu
chegaria para comandar o Exército ultrapassando os cinco mais antigos, com uma
indicação, entre aspas, política? E o presidente em nenhum momento tratou,
pensou, falou isso aí com quem quer que seja”, afirmou o ministro Ramos a
jornalistas.
Apoio e preocupações
Como tem sido às segundas-feiras em Brasília, após as
provocações em atos pró-golpe de Bolsonaro nos fins de semana, o dia foi de
medir a temperatura da tensão política. Se tomou nota da advertência das Forças
Armadas, Bolsonaro também ganhou um apoio importante, o do vice general da
reserva Hamilton Mourão (PRTB), na contenda com o STF. Em entrevista à rádio
Gaúcha, Mourão disse que “cada um tem que navegar dentro dos limites de sua
responsabilidade”, em referência à decisão de Moraes que impediu a posse de
Ramagem. Mourão seguiu a defesa em sua conta no Twitter: “Neste momento em que
se procura turvar o ambiente nacional pela discórdia e intriga, é importante
deixar claro, como o presidente @jairbolsonaro declarou ontem, que ninguém irá
descumprir a Constituição. Agora, cada Poder tem seus limites e
responsabilidades”.
Enquanto isso, representantes de outros poderes, como também
tem sido costume, emitiram notas de repúdio diante das manifestações
ameaçadoras de Bolsonaro. No domingo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia
(DEM-RJ), lembrou de dois episódios de agressão contra opositores do presidente
e contra profissionais da imprensa no fim de semana. “Ontem enfermeiras ameaçadas.
Hoje jornalistas agredidos. Amanhã qualquer um que se opõe à visão de mundo
deles. Cabe às instituições democráticas impor a ordem legal a esse grupo que
confunde fazer política com tocar o terror”, disse o deputado. Cabe a ele dar
andamento a um dos 29 pedidos de impeachment que se encontram na Casa. Mas já
disse que não o fará, por ora, pois sua prioridade é tratar do combate à
pandemia de covid-19, algo ausente da agenda presidencial.
Considerado um dos ministros mais progressistas do STF, Luís
Roberto Barroso disse durante uma entrevista à consultoria Arko Advice que se
preocupa em ver a invocação das Forças Armadas em atos políticos. Mas não crê
que elas entrariam em uma aventura golpista. “Não vejo a menor possibilidade de
que essa Forças Armadas profissionalizadas e com compromisso com o Brasil
aceitem serem puxadas, arrastadas, para esse varejo da política”, declarou.
Apesar de indignações, Bolsonaro segue com seus planos,
governando mediante a estratégia do confronto. Se não conseguiu colocar Ramagem
na PF, colocou Rolando Alexandre de Souza, também de confiança e mantém a
intenção de trocar o comando a corporação no Rio, onde a família e aliados tem
interesses . O Planalto tem negociado cargos com representantes da velha
política hoje lotados no Centrão, algo que ele falou diversas vezes que não
faria, e, por ora, isso tem lhe rendido ao menos defesas públicas de lideranças
em sua disputa com o STF. O tom dos próximos dias deverá ser dado pelo o
andamento do inquérito que apuras as acusações de Sergio Moro contra Bolsonaro.
No sábado, o ex-ministro, que caiu delatando eventuais crimes do presidente,
depôs à Polícia Federal. Agora, ele quer que todo o seu depoimento se torne
público.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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