Texto compartilhado de publicação no BLOG DO ORLANDO TAMBOSI,
em 30/08/2020
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"Cultura do cancelamento" e ataque à liberdade de
expressão preocupam acadêmicos
Reportagem de Leonardo Desderi para a Gazeta do Povo aborda
a falta de liberdade no ambiente universitário, onde predomina a ideologia
esquerdista:
A liberdade de expressão está sob ataque nas universidades.
Por um lado, há uma inquietação crescente quanto à dificuldade de se discutir
ideias que fujam do consenso dominante, sobretudo na área de humanidades, em
que a cultura do cancelamento fica cada vez mais implacável. Por outro, o
negacionismo científico e o anti-intelectualismo buscam esvaziar a legitimidade
do discurso acadêmico. Não por acaso, o problema da liberdade de expressão
acadêmica tem ganhado foco nas últimas semanas.
Um manifesto de intelectuais e artistas de diversos países
pela liberdade de expressão e contra a cultura do cancelamento foi publicado
pela revista norte-americana Harper’s no começo de julho e ganhou repercussão
mundial nas últimas semanas. O documento inspirou versões em alguns países.
Na Espanha, uma carta no mesmo estilo contou com a
assinatura de intelectuais como o escritor peruano Mario Vargas Llosa. No
Brasil, no começo de agosto, intelectuais, cientistas e acadêmicos assinaram um
manifesto pela liberdade de expressão nas universidades.
“No caso da universidade, é preciso que ela seja o palco do
diálogo, o campo da livre manifestação de ideias e atue com a sabedoria
restauradora das possíveis fraturas existentes”, diz a carta brasileira. Os
autores defendem que a busca da verdade “seja um valor que possa ser defendido
e exercido por todos os componentes da academia, sem cerceamentos, sem medos
nem receios diante das mais variadas opiniões, mesmo que sejam opostas ou
contrárias a certas concepções dominantes”.
Na semana passada, de 19 a 21 de agosto, a Associação de
Direito de Família e das Sucessões (Adfas) promoveu um congresso sobre
liberdade de expressão acadêmica. "Estamos muito preocupados com o
cerceamento que vem ocorrendo quanto à liberdade de nossa expressão sobre a
família, entre outros temas relevantes, nas academias de Direito do Brasil e de
outros países", afirmou à Gazeta do Povo Regina Beatriz Tavares da Silva,
presidente da Adfas.
Consensos estabelecidos barram a liberdade de expressão
Um dos signatários do manifesto de intelectuais brasileiros
pela liberdade de expressão é André Magnelli, fundador do Ateliê de Humanidades
e doutor em sociologia pelo IESP-UERJ. Para ele, há “uma expectativa de que as
pessoas se adaptem ao senso comum acadêmico estabelecido, sobretudo na área de
humanas”, o que prejudica o trabalho intelectual, e o manifesto tenta apontar
isso.
“O ofício do intelectual, do acadêmico, do trabalho próprio
de uma universidade, é de compromisso com a verdade, com uma concepção
universal de conhecimento, de debate, de análise, de crítica, de reflexão
normativa… Diversos compromissos do intelectual e do acadêmico acabam sendo
tosados por certos consensos estabelecidos no ambiente acadêmico”, diz.
Victor Sales Pinheiro, doutor em Filosofia pela Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professor da Universidade Federal do Pará
(UFPA), tem estudado o tema da liberdade de expressão e já sofreu ele próprio o
ataque de um desses consensos estabelecidos.
Em 2018, a dissertação de uma orientanda sua, Dienny Riker,
foi alvo de um movimento estudantil e de comunidades LGBT quando a defesa da
tese já tinha data marcada. O grupo tentou evitar que a defesa acontecesse. O
trabalho abordava o casamento segundo a teoria da lei natural do filósofo John
Finnis, professor emérito de Oxford.
“Foi uma tentativa de censura prévia de um trabalho inédito,
que não tinha sequer sido publicado. Ou seja, tentaram silenciar a minha
orientanda sem ter lido o que ela escreveu, num ato de desonestidade
intelectual patente. Como é notório que John Finnis defende o casamento
conjugal, fundamento da família reprodutiva, tentou-se impedi-la de concluir a
sua pesquisa de filosofia do direito”, explica Pinheiro.
“Houve manifestações e ameaças contra ela e contra mim,
antes, durante e depois do processo, mas não passou disso. O direito dela de
liberdade acadêmica prevaleceu, sem que ela precisasse acionar o Poder
Judiciário. Hoje ela é mestre e doutoranda no mesmo programa, ainda sob a minha
orientação”, afirma.
Ele considera que o efeito do episódio foi “muito positivo”,
porque o fato ganhou repercussão nacional, e o trabalho acabou ganhando mais
notoriedade. Para Pinheiro, é comum na academia, hoje, que se taxem ideias
divergentes de ideológicas e anticientíficas, e há uma censura prévia em
relação a certos autores, teses ou opiniões que fogem do consenso.
“A pesquisa acadêmica sempre se baseia em certas premissas
consideradas consensuais na comunidade científica. Quando esses pressupostos
são abalados, no contexto do pluralismo epistemológico, os pesquisadores passam
a desconfiar que o trabalho dos outros não é mais ‘científico’, mas
ideológico”, diz.
Falta de liberdade na academia atinge até pesquisa sobre a
liberdade de expressão acadêmica
Pedro Damazio, graduado em Comunicação Social e mestre em
História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro, tem a liberdade de expressão acadêmica como foco de suas pesquisas
atuais. Segundo ele, trata-se de “uma área de pesquisa totalmente nova no
Brasil em termos acadêmicos”.
“Tudo o que a gente tem aqui no Brasil, infelizmente, são
relatos isolados, anedotas. O que a gente sabe é que existe um problema de
liberdade de expressão na academia. Tem muita gente que reclama disso. Agora,
qual é a escala do problema, qual é o tamanho, quais são as causas, as soluções
possíveis? Tem muita pesquisa para ser feita”, diz.
Para ele, um dos motivos dessa carência pode ser o fato de
que o tema não é bem-vindo nas universidades. “Por que esse é um assunto tão
pouco explorado, se é um assunto de que todo o mundo fala? Fui descobrindo que,
de fato, esse é um dos assuntos proibidos da academia. Já tive a experiência de
tentar organizar uma palestra sobre esse assunto – e, para isso, eu precisava
do apoio de algum professor titular da universidade – e os professores se
recusarem a dar apoio porque não queriam ser associados a esse tipo de
pesquisa, porque poderia dar a impressão de que a academia é ideologicamente
dominada por um viés político.”
A falta de liberdade para se investigar qualquer tema, sem
constrangimentos por parte da universidade, foi uma das coisas que despertou o
interesse de Damazio nesse campo de pesquisa. “Como pode um ambiente cuja
função principal é discutir ideias e, através dessa discussão, produzir
conhecimento e fornecer um espaço para o embate de teorias, para ver quais são
as mais válidas… Como pode esse ambiente não estar proporcionando isso? Não
seria justamente esse o ambiente para se fazer isso?”, questiona.
A liberdade de expressão é “de direita”?
Nos departamentos de humanidades de algumas universidades,
professores têm torcido o nariz para o tema da liberdade de expressão,
justamente porque ele está cada vez mais vinculado a posições consideradas “de
direita”. Do ponto de vista histórico, a guinada é surpreendente.
“É curioso que certa esquerda que na tradição da luta contra
ditaduras colocou-se como uma porta-voz das liberdades, inclusive a de
expressão, hoje em dia se deslocou, por vários fatores”, diz André Magnelli.
Para Damazio, a etiqueta “de direita” que foi colocada no
tema da liberdade de expressão levanta “uma barreira imensa para a discussão,
porque você já é associado a um campo político”. “É muito sensível introduzir
esse tópico”, diz.
Essa crescente falta de interesse de setores progressistas
pela liberdade de expressão, segundo ele, pode ser prejudicial para os próprios
progressistas, que não passarão por aquilo que o psicólogo norte-americano
Jonathan Haidt chama de "desconfirmação institucionalizada” – isto é, a
prova de fogo da opinião contrária, que permite entender melhor o outro lado e
aperfeiçoar os argumentos para superá-lo.
“Toda vez que você avança uma ideia na academia, é obrigação
dos seus pares procurar as falhas, os equívocos, as simplificações dessa ideia.
Só isso vai forçar você a construir o argumento mais forte possível para a sua
ideia. Se você não tem isso, se não tem contestações a suas ideias, o risco é
não ter mais controle de qualidade em relação às ideias que surgem”, diz
Damazio.
O processo da desconfirmação institucionalizada, segundo
ele, passa por admitir nas universidades até mesmo a discussão de ideias
consideradas repugnantes. “Se você não permite que ideias terríveis, absurdas,
completamente equivocadas, se expressem da maneira mais coerente, eloquente,
logicamente construída possível, se você não permite que essas ideias se
construam, como você vai saber refutar essas ideias mais tarde? A academia
oferece um ambiente seguro para discutir ideias antes de elas saírem por aí no
mundo.”
“Autoritarismo da subjetividade” e “narcisismo de massas”
comprometem liberdade acadêmica, diz pesquisador
Para Magnelli, a privação da liberdade de expressão nas
universidades “é um problema pré-redes sociais, mas que na cultura das redes
sociais, de cancelamento, de rotulação, de identitarismo – tanto de esquerda
quanto de direita – se torna ainda mais agudo”.
Esses novos fenômenos acabam facilitando, segundo o
sociólogo, uma autocensura gerada pela “tirania da opinião pública” – certas
visões de mundo não podem mais sair do âmbito privado.
Ele pondera, contudo, que há também o risco de transformar a
liberdade de expressão em um valor absoluto.
“Liberdade de expressão não é falar o que dá na telha, dizer
o que se quer. Você pode fazer isso emitindo uma opinião privada, mas, num
ambiente acadêmico, existe o compromisso com o saber, com a formação. Senão,
abre-se campo para negacionismos, anti-intelectualismos, irracionalismos e tudo
mais”, diz.
“É evidente que, quando eu falo isso, estou pensando muito
em certos tipos de movimentos de extrema-direita no Brasil e no mundo que têm
características negacionistas, e isso é um perigo para a democracia e os
valores civilizacionais. Isso pode ser feito por qualquer linha ideológica como
uma forma de destruir valores, mesmo que se fale em nome de valores
conservadores”, acrescenta Magnelli.
Para lutar por uma liberdade de expressão autêntica nas
universidades, é necessário, segundo ele, compartilhar o compromisso com a
verdade, com a busca de entender o mundo e com os valores normativos comuns do
ambiente acadêmico. “A defesa da liberdade de expressão tem que vir junto com
uma defesa do trabalho da cultura, do trabalho do saber”, afirma o pesquisador.
Ele reconhece que “existe uma crise efetiva da vida
universitária” e que “a universidade foi desconstruída, nos últimos 20, 30
anos, por uma série de problemas que fez com que a própria ideia de
universidade tenha ido, em parte, para o espaço”. Afirma, no entanto, que
“muitas das pessoas que estão criticando o mundo universitário estão
expressando apenas a sua profunda ignorância sobre as universidades” e
“vomitando preconceitos”. “Isso às vezes é marcado muito grandemente por uma
cultura de ressentimento muito forte”, observa.
Uma solução autêntica para o problema da liberdade de
expressão acadêmica, segundo Magnelli, também passa por “ter o princípio de
caridade de tentar entender o que a outra pessoa está falando e não somente
querer eliminá-la, ou combatê-la, ou tomá-la como inimiga”.
O professor enxerga, nas últimas décadas, um foco em modelos
de educação que servem para “formar pessoas para que sejam meras trabalhadoras
voltadas para o mundo útil” ou “pessoas simplesmente voltadas para seus
próprios interesses”. “Vivemos um narcisismo de massas, uma concepção de ‘a
cada um a sua verdade, a cada um a sua moral’. A sociedade perde uma
consistência própria. É uma falta de educação para ideais de sociedade que
construam pontos de vista comuns”, afirma.
Esse “autoritarismo da subjetividade”, como define Magnelli,
limita o espaço para a liberdade de expressão nas universidades, já que a luta
por fazer prevalecer as próprias opiniões fica acima da busca autêntica do
saber.
“Tem que se repensar a educação, no sentido amplo do termo.
Não é somente a escola. Tem que se repensar a cultura. O que é se tornar um ser
humano cidadão em uma sociedade complexa como a nossa? É possível organizar uma
sociedade baseada em indivíduos autorreferentes, baseados em si mesmos e na
busca de maximizar seus resultados, sua felicidade, que ficam na expectativa de
que os outros lhes deem o reconhecimento devido? Não dá para construir uma
sociedade com base somente nisso”, observa o professor.
“De um lado, faltam ideais transcendentais, de
transcendência do indivíduo em relação a si mesmo e, de outro lado, é
necessário que se tenha uma concepção mais científica das coisas, de apreço
pela experimentação e pela curiosidade científica. Essas questões são
importantes para sair dessa cultura de que a gente está falando aqui, em que
avança o anti-intelectualismo, avançam o mero combate e a mentalidade
autoritária.”
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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