sábado, 29 de agosto de 2020

"Diário da Crise CLXII", por Fernando Gabeira


Publicado originalmente no site do GABEIRA, em 28 de agosto de 2020 

Diário da Crise CLXII 
Por Fernando Gabeira (do Blog) 

Que tragédia a vida pública no Rio. Mais um governador afastado, Wilson Witzel. E quase toda a linha de sucessão abalada, pois tanto o vice-governador como o presidente da Assembléia receberam a visita da polícia.

Aparentemente, Witzel copiou os métodos de Cabral usando o escritório de advocacia da mulher para celebrar falsos contratos.

Mas a soma da propina que teria recebido até agora não chega aos pés de Cabral: é inferior ao preço de um dos anéis de Adriana Ancelmo.

Li a denúncia dos promotores e parece fundamentada, pelo menos no caso da relação com duas empresas de saúde do empresário Gothardo Neto, de Volta Redonda.

Li também a delação do ex-secretário de Saúde, mostrando como estava mapeada a influência no governo em torno de três grupos. Um deles, era do empresário Mário Peixoto que destinou dinheiro ao escritório da mulher de Witzel, Helena.

Segundo, o delator, Peixoto dominava basicamente as áreas de educação, ciência e tecnologia. Seu homem de contato era o Secretário Lucas Tristão.

Outra área de influência era do Pastor Everaldo, o mesmo que batizou Bolsonaro no Rio Jordão. O pastor dominava a Cedae, o Detran e a Saúde. Finalmente, atuava como freelancer o empresário José Carlos de Melo que dizia ter influência sobre 12 deputados. Fazia negócios e recebia comissões.

Na verdade ainda era um esquema incipiente que foi propulsionado pela pandemia. Segundo a PGR a ideia era faturar R$400 milhões em quatro anos de mandato.

A PGR em Brasília, sobretudo Augusto Aras e sua assistente Lindôra Maria Araújo parecem ser francamente simpáticos ao governo Bolsonaro, portanto adversários de Witzel.

As consequências políticas são favoráveis à família Bolsonaro que pretende, através do vice Cláudio Castro, nomear o procurador geral do Rio e estancar as investigações contra Flávio Bolsonaro. O problema é que o tema já avançou muito e haverá grandes ruídos .

Finalmente, o processo de impeachment que foi artificialmente bloqueado por Tofolli poderá prosseguir, por decisão de Alexandre de Moraes.

Sempre afirmei que a decisão de Tofolli era equivocada. Ele queria que a Assembléia usasse o mesmo princípio de proporcionalidade no impeachment de Dilma. Acontece que a Asssembléia optou por outro princípio igualmente democrático e consensual. Por que interferir?

Espero que tenhamos um fim de semana de sol. É quase tudo que nos resta. Não consigo esquecer a imagem de uma criança cantando enquanto do outro lado do vidro passam homens fortemente armados. A mãe, preocupada, pede silêncio à criança. É a imagem símbolo do Rio de agora. Insegurança nas ruas, corrupção nos palácios.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário