Publicado originalmente no site do GABEIRA, em 28 de agosto de 2020
Diário da Crise CLXII
Por Fernando Gabeira (do Blog)
Que tragédia a vida pública no Rio. Mais um governador
afastado, Wilson Witzel. E quase toda a linha de sucessão abalada, pois tanto o
vice-governador como o presidente da Assembléia receberam a visita da polícia.
Aparentemente, Witzel copiou os métodos de Cabral usando o
escritório de advocacia da mulher para celebrar falsos contratos.
Mas a soma da propina que teria recebido até agora não chega
aos pés de Cabral: é inferior ao preço de um dos anéis de Adriana Ancelmo.
Li a denúncia dos promotores e parece fundamentada, pelo
menos no caso da relação com duas empresas de saúde do empresário Gothardo
Neto, de Volta Redonda.
Li também a delação do ex-secretário de Saúde, mostrando
como estava mapeada a influência no governo em torno de três grupos. Um deles,
era do empresário Mário Peixoto que destinou dinheiro ao escritório da mulher
de Witzel, Helena.
Segundo, o delator, Peixoto dominava basicamente as áreas de
educação, ciência e tecnologia. Seu homem de contato era o Secretário Lucas
Tristão.
Outra área de influência era do Pastor Everaldo, o mesmo que
batizou Bolsonaro no Rio Jordão. O pastor dominava a Cedae, o Detran e a Saúde.
Finalmente, atuava como freelancer o empresário José Carlos de Melo que dizia
ter influência sobre 12 deputados. Fazia negócios e recebia comissões.
Na verdade ainda era um esquema incipiente que foi
propulsionado pela pandemia. Segundo a PGR a ideia era faturar R$400 milhões em
quatro anos de mandato.
A PGR em Brasília, sobretudo Augusto Aras e sua assistente
Lindôra Maria Araújo parecem ser francamente simpáticos ao governo Bolsonaro,
portanto adversários de Witzel.
As consequências políticas são favoráveis à família
Bolsonaro que pretende, através do vice Cláudio Castro, nomear o procurador
geral do Rio e estancar as investigações contra Flávio Bolsonaro. O problema é
que o tema já avançou muito e haverá grandes ruídos .
Finalmente, o processo de impeachment que foi
artificialmente bloqueado por Tofolli poderá prosseguir, por decisão de
Alexandre de Moraes.
Sempre afirmei que a decisão de Tofolli era equivocada. Ele
queria que a Assembléia usasse o mesmo princípio de proporcionalidade no
impeachment de Dilma. Acontece que a Asssembléia optou por outro princípio
igualmente democrático e consensual. Por que interferir?
Espero que tenhamos um fim de semana de sol. É quase tudo
que nos resta. Não consigo esquecer a imagem de uma criança cantando enquanto
do outro lado do vidro passam homens fortemente armados. A mãe, preocupada,
pede silêncio à criança. É a imagem símbolo do Rio de agora. Insegurança nas
ruas, corrupção nos palácios.
Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira.com.br

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