Texto compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 21 de agosto
de 2020
Lula é a versão degenerada do São Jorge de bordel
O ex-presidente presidiário continua fingindo ignorar o que
aconteceu na zona do PT, escreve Augusto Nunes em sua coluna na revista Oeste:
Nos anos 60, sobretudo nas pequenas cidades, não era fácil
atender ao clamor dos hormônios que acossavam o corpo, a imaginação e a alma de
quem chegava à adolescência. Antes da revolução dos costumes desencadeada no
fim daquela década, a virgindade devia ser preservada até o casamento, e
portanto a esfregação dos namorados nunca ia muito longe. Letreiro em vermelho
neon na fachada de um motel só aparecia em estradas de filme norte-americano e
drive-in só existia num punhado de capitais. O jeito era abrandar a inquietude
com pecados solitários e torcer pela aparição dos primeiros fiapos de barba. A
penugem inaugural avisava que chegara a hora de arrumar dinheiro com o irmão
mais velho, escalar como acompanhante um amigo que já conhecesse o lugar e
caprichar na pose de quase adulto no momento de cruzar a porta de entrada da
zona do meretrício. Vencido o último obstáculo, convinha rezar para não fazer
feio na estreia. As testemunhas oculares do fiasco nunca primaram pela
discrição.
Toda cidade com mais de 10 mil habitantes tinha uma zona —
um punhado de três ou quatro casas plantadas à beira de uma estradinha de terra
que cortava aquele território impreciso onde a área urbana acabava sem que
tivesse começado o mundo rural. Na região em que nasci, a casa principal tinha
o nome da dona. O elenco de atendentes sofria oscilações, mas invariavelmente
incluía dois destaques que garantiam um conjunto de respeito. Mudavam o
mobiliário e o tamanho da sala de espera, mudavam a metragem e a quantidade dos
quartos. Algumas casas possuíam a varanda lateral, outras dispunham de um
quintal para churrascos. Nada disso importava muito. O que não podia faltar de
jeito nenhum eram uma cama de casal em cada quarto e, pendurado numa das
paredes da sala, o quadro que mostrava São Jorge matando o dragão. Fosse qual
fosse a casa, eram o mesmíssimo São Jorge, o mesmíssimo dragão, as mesmíssimas
imagens. Não havia uma única e escassa diferença entre um quadro e os outros.
Aquele duelo tremendo poderia fazer bonito em museus pouco
exigentes. As vestes multicoloridas e o corcel branco com as patas empinadas
rimam com o capacete do santo guerreiro. A extremidade da lança já parcialmente
enterrada no lombo do dragão é empunhada pela mão direita. A esquerda segura as
rédeas e, simultaneamente, envolve com os dedos a haste para empurrar a lâmina
que perfura a couraça da fera. É o espetáculo da coragem temerária, que
contrasta com a expressão beatífica do herói. Sim, todo santo de retrato parece
sereno, mas nenhum deles se mete com monstros que soltam fogo pelas ventas. Só
um São Jorge de bordel conseguiria arrostar tais perigos com aquela placidez
inabalável. Inteiramente absorvido pelo embate mortal, o exterminador de
dragões nunca prestava a menor atenção ao que acontecia fora do retrato. Na sala
da zona, a farra corria solta sobretudo nos fins de semana. Duplas de
desconhecidos negociavam o acordo que os levaria a um dos quartos, dos quais
não paravam de chegar sons proibidos para menores de idade. Um adolescente
imberbe era expulso aos berros por ter esquecido que em nenhuma casa da zona
estudantes pagavam meia. A zona era uma zona, mas São Jorge parecia nada ver,
nada ouvir e nada estranhar.
Demorei a compreender que o santo estava lá não para
garantir a moral e os bons costumes, muito menos para transformar zona em
convento, mas para matar um dragão, e quem peleja com um bicho daqueles não tem
tempo a perder com batalhas de alcova ou guerras extraconjugais. E então
entendi por que era chamado de “São Jorge de bordel” todo homem da cidade que mantinha
a cara de paisagem enquanto prosseguia, a um palmo do nariz, o cortejo de
iniquidades, bandalheiras, delinquências e safadezas domésticas. O filho
abandonara os estudos, não tinha emprego fixo e voltava da rua cada vez com
mais dinheiro. A filha se apaixonara pelo cafajeste do bairro e dizia que
estava estudando na casa de uma amiga quando chegava às 6 da manhã. A mulher
vivia arrastando vizinhos para conhecer o quintal, o irmão furtava o cofrinho
do sobrinho, o cunhado roubava a pensão da avó. E a tudo o chefe da família
seguia indiferente. Concentrado na luta para pagar as contas da casa, ele não
tinha tempo nem paciência para outras incumbências. Como um São Jorge de
bordel.
Como um São Jorge de bordel agiu Luiz Inácio Lula da Silva
desde sempre. O ex-líder sindicalista que começava a carreira política morou
oito anos num apartamento pertencente ao advogado Roberto Teixeira. Concentrado
na fundação do PT, nem perguntou quanto custava o aluguel nem se devia pagar a
taxa do condomínio. Candidato profissional à Presidência da República, não
tinha tempo para saber de onde vinha o dinheiro para as campanhas. Empenhado em
acabar com a pobreza, nem notou que o filho trocara o ofício de tratador do
zoológico de São Paulo pelo vidaço de empresário do ramo de informática. Só
depois da entrada em cena da Lava Jato ficou claro que Lula sempre soube de
tudo o que ocorria na zona do PT. Fingiu ignorar a catarata de bandalheiras
porque delas foi, sucessivamente, beneficiário, sócio majoritário e mentor
antes de assumir a chefia do maior esquema corrupto da história do Brasil. Lula
já se comparou a Tiradentes, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Nelson
Mandela e Jesus Cristo. A devassa das catacumbas do Petrolão provou que Lula é
apenas uma versão degenerada do São Jorge de bordel.
Numa zona de antigamente, o santo do quadro interromperia o
duelo por um tempo e desceria da parede para, em nome da casa, pedir desculpas
à turma na sala. Num Brasil imbecilizado pela ascensão dos idiotas, o São Jorge
que só luta a favor da bandidagem pretende baixar no Supremo Tribunal Federal
para avisar que anular os processos que o instalaram na cadeia é pouco. Ele
também quer a prisão dos procuradores engajados na Lava Jato e a condenação de
Sergio Moro ao degredo perpétuo. Se for atendido, os superjuízes amigos serão
convidados para a festa da vitória na zona de São Bernardo.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário