Publicado originalmente no BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 6 de
setembro de 2020
Lula, Jucá e a PGR: todos contra a Lava Jato.
Hoje, o sonho de Jucá de ‘estancar a sangria’ da Lava Jato
parece estar realizado - aliás, não é para isso que Augusto Aras foi nomeado
procurador-geral da República? Coluna de J. R. Guzzo, via Estadão:
Em março de 2016, com o camburão da Federal rondando a casa
de tantos políticos brasileiros, o então senador Romero Jucá fez um apelo
histórico às forças vivas da nação: “É preciso estancar a sangria”. Estava
falando da Operação Lava Jato, o maior ataque à corrupção já feito nos 500 anos
de história do Brasil – que, àquela altura, estava fervendo em torno da
roubalheira na Petrobrás durante os governos dos ex-presidentes Lula e Dilma
Rousseff, um fenômeno sem paralelo na história universal da ladroagem. Na
ocasião, Jucá era intensamente odiado como “golpista” por toda a esquerda
nacional; só faltou chamarem uma tropa de choque da ONU para desembarcar aqui e
levar o homem preso para um xadrez no Tribunal de Haia. Mas pouco a pouco a
ficha foi caindo. O fim da Lava Jato era o que quase todo mundo na política
brasileira realmente queria, da extrema esquerda à extrema direita, passando
pelo extremo “centrão”. Hoje, quatro anos depois, o sonho de Jucá parece estar
realizado.
Depois de ficar empurrando muito papelório de um lado para o
outro, com um despacho aqui, uma canetada ali, o procurador-geral Augusto Aras,
o mais alto mandarim do Judiciário já nomeado até agora por Jair Bolsonaro,
acaba de dar um nó de marinheiro nas investigações da Lava Jato; a partir de
agora, todos o processos que a operação tem no Superior Tribunal de Justiça
deixam a “força-tarefa”, que meteu tanto ladrão do erário na cadeia, e passam a
ser propriedade exclusiva da subprocuradora Áurea Etelvina Pierre. Há, como
sempre, um grosso, penoso e incompreensível angu burocrático para explicar que
tudo está sendo feito para o bem de todos e a felicidade geral da nação. Mas o
que interessa saber, no fundo, é o seguinte: a mais notável realização
profissional da doutora Áurea Etelvina é ter trancado na sua gaveta mais de mil
processos, o que já lhe valeu inclusive um procedimento disciplinar – que,
obviamente, nunca deu em nada até hoje. Além disso, ela fala mal da Lava Jato,
é simpática à causa de Lula como “réu político” e considera que Sérgio Moro é
um juiz “suspeito”. Já deu para entender, não é mesmo?
O funeral da Lava Jato, iniciado com o manifesto de Romero
Jucá, adotado na prática, de corpo e alma, por seus inimigos do consórcio
Lula-PT-classes intelectuais e completado, enfim, pelo governo Bolsonaro, é um
lindo exemplo de como todo mundo se entende perfeitamente, na política
brasileira de hoje, quando se trata de cuidar do seu interesse número 1: deixar
a corrupção em paz. Jucá, um marechal de campo da direita, conclamou o Brasil a
interromper a “sangria”, mas já ali o nome supremo da esquerda, o ex-presidente
Lula, estava em guerra aberta contra a Lava Jato. Virou uma obsessão, para ele e
o seu entorno: há cinco anos não faz outra coisa, basicamente, que não seja
guerrear contra Sérgio Moro e exigir a punição de quem condenou a ele, seus
empreiteiros, seus diretores de estatais e outros tantos pelo crime de
corrupção. Com o tempo, juntaram-se a Lula o resto da política e todo o Brasil
bem pensante. O resultado está aí.
É, também, uma soma exemplar da fome do Supremo Tribunal
Federal com a vontade de comer da PGR. O STF, sobretudo por meio dos ministros
Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, assumiu sem disfarces o
papel de advogado de defesa de Lula. Chegaram a acusar a Lava Jato de estar
destruindo a democracia no Brasil com a “República de Curitiba”.
Ganham agora, após a mídia, o apoio da PGR do atual governo.
Moro, odiado por Lula, é hoje odiado por Bolsonaro. Tudo a ver: é preciso
defender as instituições, a democracia e o direito de defesa, certo?
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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