Em Santa Catarina, ninguém acreditaria em alguém com esse
olhar doentio.
Texto compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 2 de
setembro de 2020
Crivella é apenas um coronel gospel
O caso dos “guardiões do Crivella” revela a face de um
Brasil velhíssimo, o do coronelismo. Bruna Frascolla, em artigo publicado pela
Gazeta, sobre o miserável Rio de Janeiro, que parece eternamente condenado ao
pior, por cumplicidade eleitoral, convenhamos:
Quem mora ou tem parentes no Rio de Janeiro está
familiarizado com o problema que é a saúde pública lá. Assim, quando os
repórteres do jornalismo local foram entrevistar os pacientes do lado de fora
do hospital e hostilizaram-nos os populares que amavam o maravilhoso prefeito
Crivella, devem ter pensado: “Aí, tem!” E tinha.
Um grupo de WhatsApp de aspones da prefeitura se organizava para
ficar nas portas dos postos de saúde em prontidão, cumprindo a tarefa de
defender o prefeito de jornalistas e doentes queixosos. Davam-se até um nome
pomposo: “Guardiões do Crivella”.
Aqui, o letrado típico verá a oportunidade perfeita para
dizer que crentes são horríveis, afetar superioridade moral e puxar os cabelos
por causa no nazismo bolsonarista. Depois o direitista, soltando fogo pelas
ventas, com razão apontará a hipocrisia e o duplo padrão de moral do letrado.
Ao cabo, ninguém ligará mais pro posto de saúde.
O aspone de direita é pago pra xingar a “Globolixo” na porta
do hospital, o aspone de esquerda é pago pra ficar carpindo o fim do mundo nas
redes. Fica esse oba-oba suprapartidário de aspone fazendo escândalo. Enquanto
houver contribuintes cariocas sadios para pagar o salário deles, tudo bem. A
morte nos postos de saúde não deve atrapalhar a arrecadação, e talvez até
diminua o bolo a ser dividido, se morrerem aposentados.
Precedente prussiano
A situação era a seguinte: os aspones de Crivella
trabalharam como cabos eleitorais, foram recompensados com cargos públicos e
seguiam trabalhando pela reputação política do prefeito. Organizar barraco em
porta de hospital é trabalho!
Em 1919, um professor de política do Reino da Prússia
descrevia da seguinte maneira a dinâmica eleitoral em seu país:
“O homem político profissional, que vive ‘da’ política, pode
ser um puro ‘beneficiário’ ou um ‘funcionário’ remunerado. Em outras palavras,
ele receberá rendas, que são honorários ou emolumentos por serviços prestados –
não passando a gorjeta de uma forma desnaturada, irregular e formalmente ilegal
dessa espécie de renda – ou que assumem a forma de remuneração fixada em
dinheiro ou espécie, ou em ambos ao mesmo tempo. […]
A compensação típica outrora outorgada pelos príncipes,
pelos conquistadores vitoriosos ou pelos chefes de partidos, quando
triunfantes, consistia em feudos, doação de terras, prebendas de todo tipo e,
com o desenvolvimento da economia financeira, traduziu-se, mais
particularmente, em gratificações. Em nossos dias, são empregos de toda
espécie, em partidos, em jornais, em cooperativas, em organizações de seguro
social, em municipalidades ou na administração do Estado – distribuídos pelos
chefes de partido aos seus partidários, pelos bons e leais serviços prestados.
As lutas partidárias não são, portanto, apenas lutas para a
consecução de metas objetivas, mas são, a par disso, e sobretudo, rivalidades
para controlar a distribuição de empregos.” (Max Weber, Ciência e Política:
Duas vocações, ed. Cultrix, p. 82. Ênfase minha.)
Nessa descrição, reconhecemos figuras encontradiças da
política brasileira, que são os cabos eleitorais, os aspones e os mortadelas.
Os cabos trabalham para eleger o político, e depois recebem prêmios lícitos,
ilícitos, ou duvidosos – como os assessores de Crivella, que foram legalmente
contratados para fazer algo de legalidade questionável.
O cabo, portanto, tem a aspiração de virar aspone. E aspone,
como informa o dicionário Houaiss, é uma palavra brasileira que abrevia
“assessor de p**** nenhuma”. Não faz nada de útil pela sociedade, mas recebe
pelo cargo. Já o mortadela podemos classificar como um soldado raso do mesmo
negócio: recompensas tão modestas quanto um sanduíche de mortadela compram os
seus servicinhos.
Como um homem nascido no Reino da Prússia pode falar de uma
realidade tão familiar? Ora, Max Weber é o teórico que inventou o conceito de
patrimonialismo. Um Estado patrimonial é aquele em que não há distinção entre o
que é patrimônio pessoal de um governante, e o que é patrimônio do Estado.
Nele, como observou Antonio Paim, a burocracia tem mais
força que o resto da sociedade; e por isso não é de admirar que esse seja um
modelo associado a ditaduras totalitárias. Não muito tempo depois de Max Weber
pronunciar esse parágrafo acima, a democracia alemã, cuja constituição ele
mesmo ajudara a redigir, seria corroída até cair no III Reich.
Com uma burocracia tão grande, e com um histórico patrimonialista,
os teóricos brasileiros deveriam considerar a nossa democracia um milagre a ser
explicado.
(Para não dizer que ninguém tentou responder isso, aponto
que Jorge Caldeira, em sua História da Riqueza no Brasil, tem uma teoria
interessante, que enfatiza o fato de nossas câmaras municipais funcionarem com
eleição desde o século XVI. Temos uma estabilidade democrática impressionante
no plano municipal, interrompida apenas por Getúlio Vargas. E eu cheguei a
tratar desse tema em meu livro, enfatizando o aspecto cultural do
individualismo latino.)
Na capital, menos mau
Max Weber descreve um cenário pior do que o das metrópoles
brasileiras, pois até os empregos privados são distribuídos pelo governante. O
nazismo apenas aprofundaria o vício patrimonialista de existir um monte de
empresas privadas cujo sucesso financeiro adviesse de favoritismos estatais.
Trocando em miúdos, a Volkswagen, a Bayer, e até a editora
alemã que comprou a Companhia das Letras, eram como que as campeãs nacionais de
um BNDES do Reich.
Nas capitais brasileiras, enxergamos a coisa pública como
lugar por excelência do patrimonialismo. Nos interiores, porém, concursos
públicos podem ser vistos como uma conquista pessoal contra o coronel local.
Aqui, vou trazer um causo ilustrativo. Certa feita viajei
para o interior, e fiquei hospedada com moradores locais. Quando perguntados,
exibiam um vasto repertório de histórias de coronéis e cabos. Tinham a história
de um cabo eleitoral pobre, que ganhou muitos brinquedos para dar de presente
aos vizinhos, em troca de um cargo no governo.
O candidato foi eleito, e o cabo ficou a ver navios: coronel
também dá golpe. Contaram do coronel cuja mulher, caridosa, passou a recolher
doações para os vitimados de uma enchente – a fim de acumular as doações, e
segurá-las até o período eleitoral, quando seriam dadas de presente em nome do
coronel.
Alguns senhores se orgulhavam muito dos filhos que venceram
na vida sem ajuda de coronel: só podiam trabalhar nos poucos estabelecimentos
privados, todos de posse dos coronéis, até passarem em um concurso público numa
esfera fora da alçada do coronel, de modo que não baixam a cabeça para amo
nenhum. Em algum momento da história do Brasil, a estabilidade do concursado
significou um ataque ao patrimonialismo de coronéis locais. Depois, virou mais
uma fonte de tirania.
Os guardiões do Crivella revelaram a face de um Brasil
velhíssimo, que com certeza se repete longe das câmeras da Globo. Na cidade do
Rio de Janeiro, os meios de comunicação não são propriedade privada do
governante. Em várias cidades do Brasil, a coisa é bem diferente.
Fiquemos atentos, portanto, e lembremos que mais importante
do que o bate-boca dos aspones é o funcionamento do posto de saúde.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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