Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, 7 de
junho de 2021
A ema, o policial e o intendente.
Eles simbolizam o governo Bolsonaro: a política
anticientífica, o arbítrio e a anarquia. Artigo do professor Denis Rosenfield,
publicado pelo Estadão:
A ema, o policial e o intendente são três símbolos que
talvez melhor caracterizem o governo Bolsonaro: a política anticientífica, o
arbítrio e a anarquia.
A ema foi sábia. Ao ver o presidente com a caixinha de
cloroquina, dele fugiu, mostrando ter melhor discernimento do que boa parte dos
brasileiros, que aderem a poções mágicas. Deve ter ela pensado: será que perdeu
o juízo? Perguntou-se, mesmo, pelo tipo de humano que ele representa ao negar a
ciência, pregar a morte e impor a desordem sanitária. No reino dito animal,
isso não seria possível, quanto mais não seja, porque sempre procuram
instintivamente a própria sobrevivência. Ora, se os humanos foram agraciados
com a razão, eles obtiveram o uso da liberdade de escolha para, em princípio,
melhor organizarem suas relações, progredindo no conhecimento. Vacinas seriam
um dos melhores exemplos disso.
Contudo uma porção dos humanos, continuava ela a pensar,
prefere empregar a liberdade de escolha para o mal e o ódio ao próximo. Em vez
da escolha pela vida, optam pela morte. A ema, em seu bom senso, preferiu
afastar-se, correndo, para ter maior segurança. Será que os humanos brasileiros
não deveriam fazer a mesma coisa? Em todo caso, impeachment e eleições foram
instrumentos criados constitucionalmente por eles para darem conta de tais
anormalidades.
O policial que ameaçou prender um cidadão por se negar a
tirar de seu carro um adesivo antibolsonarista expôs o arbítrio da extrema
direita em ação. Um indivíduo fardado se acredita dotado da missão de aplicar
por ele mesmo a Lei de Segurança Nacional, como se fosse a encarnação de um
tribunal, do Poder Judiciário e do Ministério Público. Quando isso chega a
acontecer, é porque todos os limites estão sendo ultrapassados, o que significa
dizer que doravante reinarão a desordem e políticas liberticidas. Qualquer
pessoa passará a ficar temerosa de expor suas opiniões, expressar seus
pensamentos e criticar o presidente e suas políticas. É o medo pairando sobre
todos. Eis por que a ideologia bolsonarista tem como norte de suas ações o
domínio das Polícias Militares, Civis e Federal. Elas passariam a ser uma força
auxiliar do grupo encastelado no poder, aplicando seus próprios objetivos, na
mais completa violação da lei e da Constituição.
A ema deve ainda ter se perguntado: será que os outros
humanos vão contemporizar com isso? Se o fizerem, serão insensatos, correndo
para o abismo.
Entretanto, a sábia ema ainda não tinha visto tudo, o que a
deixa ainda mais espantada, perplexa. O presidente escolheu para ministro da
Saúde um general com a missão de aplicar a cloroquina e outras drogas inúteis,
embaladas num tal de “tratamento precoce”. Pensou em seus antecessores
medievais que acreditavam em toda espécie de barbaridade médica.
Felizmente, naquele então, e mesmo hoje, os animais não
humanos não compartilhavam de tais superstições e fórmulas absurdas. Isso se
tornou ainda mais ininteligível pelo fato de os humanos terem entrado na rota
do progresso no que diz respeito à ciência e ao conhecimento, com descobertas
incríveis a partir de experiências criteriosas em empresas, centros de pesquisa
e universidades. Surgem, porém, agora os representantes do atraso de antanho,
lutando com todas suas forças contra a ciência e seus avanços. Uma coisa é a
superstição anterior à ciência, outra a posterior, que pretende combatê-la. Até
onde os brasileiros humanos suportarão tal forma de inumanidade?
E como o horrível parece não ter fim, o intendente nomeado
para o Ministério da Saúde, ao contrário de seus antecessores, que agiram
dignamente, mostrou-se totalmente servil ao presidente, acompanhando-o na
política da morte e desonrando a farda que ainda usa por ser general da ativa.
Numa mostra típica de ausência de pensamento, subordinando-se, proferiu uma
frase memorável: “Um manda, outro obedece”. Escaparam-lhe pensamentos básicos,
como o da desobediência devida quando a ordem se afasta de valores e
princípios. Ordens arbitrárias não são, nem devem, ser seguidas. Trata-se de
uma conquista civilizatória, válida para a vida civil e a militar. Oxigênio
faltando em hospitais, pessoas morrendo sufocadas, e ainda lhes era recomendado
o uso da cloroquina! A ema achou melhor esconder sua cabeça.
Coroando todo o processo, o general seguiu orientação
presidencial para desrespeitar o regulamento militar ao comparecer a uma
manifestação política, o que é vedado. A consequência não poderia ser outra
senão a punição. Ora, sob pressão do presidente, o comandante do Exército optou
por nenhuma punição, apagando o corrido, fazendo do feito uma desfeita para sua
própria instituição. Escancarou a porta para a anarquia militar.
Os fundadores da República inscreveram na Bandeira o lema
positivista “ordem e progresso”. Comte entendia que nenhum progresso, fruto da
ciência, poderia realizar-se sem mudanças ordenadas, na ausência do que
prevaleceriam a desordem, a ruptura e a violência. No que devem estar pensando
os fundadores militares da República?
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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