Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, em 19
de julho de 2021
O corpo decaído
Aquela grotesca foto foi estratégia para tentar melhorar a
declinante imagem de Bolsonaro. Artigo do professor Denis Rosenfield para o
Estadão:
A exploração política do corpo doente e da morte é uma marca
da estratégia do presidente Jair Bolsonaro. Ela é empregada tanto em sua forma
de governar quanto em seu objetivo reeleitoral. Mais de 530 mil brasileiros
morreram vítimas da covid-19, ou seja, da incúria governamental e do desprezo
pelo outro, sem que palavras de solidariedade e de compaixão acompanhassem as
famílias vitimadas. Agora, num estranho – mas nem tanto – movimento paradoxal,
o mesmo presidente expõe publicamente uma foto de seu corpo doente, procurando
colocar-se como vítima.
Normalmente, embora se tenha tornado difícil falar de
normalidade nos tempos que correm, as pessoas, na doença e na morte, se
recolhem, voltam-se para os seus sentimentos e pensamentos, entre os seus. O
seu comportamento caracteriza-se pela privacidade, pela união familiar e da
amizade, numa comunhão que assim se forma. Valores morais e religiosos fazem
parte dessa atitude, por diferentes que sejam os princípios e os credos. Há um
tipo de junção que tenderíamos a caracterizar como humana, infensa a
considerações de ordem política. Há algo aqui que diz respeito à dignidade.
A grotesca foto do presidente Bolsonaro foge a esse padrão.
Em vez da privacidade, a exposição pública; em vez do recolhimento, a
exploração política. Não é a cura que está em jogo na estratégia escolhida,
apesar de ser a sua preocupação individual. Não é a pessoa doente que foi
exibida, mas o candidato que procura aprimorar a sua estratégia eleitoral, uma
vez que sua imagem pública está cada vez mais deteriorada.
A imagem de seu corpo retrata a sua curva política
descendente, embora procure ele dela aproveitar-se para melhorar seus índices
de aprovação política. Não é o corpo decaído que está em questão, mas a queda
de sua imagem eleitoral.
A sua estratégia atual é uma mera repetição de seu
comportamento e dos seus familiares e aliados quando da facada que sofreu em
2018. Naquele então, ela lhe serviu para angariar simpatia e popularidade, a
compaixão dos outros, dando-lhe a boa justificativa de não comparecimento a
nenhum debate com os outros candidatos a presidente. Não teve de expor suas
ideias, não somente porque não as tinha, mas porque estava impossibilitado de
fazê-lo. A ferida e a presença da morte tornaram-se trunfos eleitorais.
Acontece, porém, que a situação mudou, pois quem não se
compadeceu com as vítimas da pandemia não deveria – nem poderia – querer
suscitar o mesmo sentimento em relação a si mesmo. O que foi um evento
pessoalmente adverso se torna nessa sua reapresentação uma farsa. Como procurar
suscitar a compaixão para si, quando não tiveram o presidente e seus asseclas
nenhuma compaixão pelos outros?
Não se trata apenas de mau gosto na retratação do corpo
sofrido. A questão é muito maior, uma vez que põe em pauta uma espécie de gozo
mórbido em relação a si mesmo que é a outra face do gozo com a morte alheia.
O atraso na compra das vacinas, a aposta na imunização de rebanho, a publicidade das poções mágicas como “remédio” preventivo para o vírus, a falta de respiradores com pessoas morrendo de asfixia, as negociações políticas de quais vacinas adquirir e, agora, as denúncias de corrupção, reveladas pela CPI, são comportamentos que produzem imagens públicas que vieram para ficar. Quando a história deste período for ulteriormente estudada, certamente os historiadores se perguntarão como os brasileiros puderam chegar a tal grau de loucura política. Será a inteligibilidade do ininteligível.
Como não poderia deixar de ser, a estratégia bolsonarista
tem como objetivo inscrever o estado de saúde do presidente no marco da teoria
da conspiração. O problema residiria, de acordo com essa insensatez
doutrinária, em que o criminoso que o feriu seria um agente do PSOL e, mais
amplamente, do PT. E investigações não teriam sido feitas.
O roteiro é sempre o mesmo. Toda investigação que não
corresponde ao objetivo presidencial se torna uma não investigação.
Mas houve, sim, investigação, cujo resultado foi o de que
esses partidos não tiveram nenhum envolvimento naquele episódio, que se tratou
de um ato fruto da conduta individual de uma pessoa totalmente desequilibrada.
Eis o fato, porém, como não corresponde à versão bolsonarista, torna-se um não
fato.
Trata-se do mesmo procedimento que estamos observando a
propósito do voto impresso. Não houve nenhuma prova, nem indício, de que a urna
eletrônica tenha sido violada, mas, antecipando uma derrota possível, o presidente
Bolsonaro não cessa de repetir que apresentará as provas, sem nunca fazê-lo. O
fato da lisura do pleito, do qual saiu vencedor, se torna algo sob suspeita,
fruto de uma conspiração. A teoria é tão esdrúxula que significaria, tomando-a
a sério, a conspiração que o levou ao poder!
Nesse sentido, a sua foto é somente um outro aspecto de sua
política, que considera todo aquele que dele discorde um inimigo a ser
eliminado. É a paranoia do outro que procuraria abatê-lo!
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário