Publicação compartilhada do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 10 de novembro de 2022
Lula emparedado
O êxito ou o fracasso de seu governo dependerá em boa medida da capacidade de superar essas barreiras. William Waack:
Lula ainda não assumiu, mas já é possível constatar o quanto está emparedado. O êxito ou o fracasso de seu governo dependerá em boa medida da capacidade de superar essas barreiras.
O vai e vem em torno da fórmula para financiar o Bolsa Família pagando R$ 600 por mês demonstrou como é estreita a margem de ação legal, embora exista uma quase unanimidade política pela manutenção do benefício social nessas dimensões. Demonstrou também como é estreita a margem de atuação fiscal.
Esse é um problema gritantemente óbvio e uma das principais heranças não só de Bolsonaro. Até aqui Lula vem tentando escapar dessa parede – a necessidade de uma âncora fiscal, ou seja, de um limitador de gastos –, criando uma falsa dicotomia entre “responsabilidade fiscal” e “responsabilidade social”, quando são a mesma coisa.
Agentes econômicos que se preocupam com juros e inflação não compram essa frase de palanque. Nem concedem ao presidente eleito o benefício da dúvida quando constatam que os nomes que integram a equipe de transição são água e óleo em termos de doutrinas econômicas.
Particularmente nas questões que envolvem princípios ou “escolas de pensamento” (economia e política externa, por exemplo) Lula, por enquanto, está emparedado pela velha-guarda do partido. Ela já funciona como freio no protagonismo de Geraldo Alckmin e o teste da solidez dessa parede virá o mais tardar quando o presidente eleito nomear as prioridades.
Lula enfrenta outra questão de emparedamento – a dos poderes ampliados do Legislativo – que não é meramente circunstancial e que pudesse ser eliminada via compromissos políticos acrescentando siglas partidárias à “base”. O Brasil vive de fato uma situação de semipresidencialismo com dois primeiros-ministros, da qual o orçamento secreto é apenas sua expressão mais visível.
A pior situação de emparedamento, contudo, é a profunda divisão política do País. O novo governo provavelmente terá poucas dificuldades em lidar com os protestos bolsonaristas, que persistem, mas têm limitado alcance, e de apelo golpista sem perspectivas de êxito. Bolsonaro se mostrou incompetente na articulação de uma “virada” institucional (eufemismo para golpe) e seu receio de ser preso tem fundamento.
O verdadeiro emparedamento é o mais difícil de todos. Surge da enorme desconfiança em relação ao PT (um pouco menos em relação a Lula) nutrida por vastos setores sociais (incluindo religiosos), políticos e econômicos, com destaque para segmentos como a agroindústria. É grave erro político igualar essa oposição ao alarido da extrema direita bolsonarista.
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UM COMENTÁRIO:
Maquiavel Messias disse...
Aos fatos, como escreve Claudio Dantas: "Na prática, Lula exerce o mandato de forma antecipada, diante da absoluta omissão de Bolsonaro, que parece ter abandonado a cadeira presidencial, assim como o Ministério da Defesa abandonou os ‘bolsonaristas de rua’ que sonhavam, ao relento, com um relatório bombástico cheio de provas sobre fraudes nas urnas. Ontem, conversei com vários de seus ainda ministros e todos se sentem de alguma forma abandonados pelo presidente, que vai deixando passar a chance histórica de articular uma oposição consistente ao PT, considerando as amplas bancadas eleitas no Congresso. Era visível o constrangimento de Lira ontem ao posar com Lula na saída da residência oficial da Câmara. Como revelei semanas atrás, o deputado imaginava a formação de um bloco (ou até uma federação) de partidos de centro-direita capazes de pautar a agenda de reformas e inviabilizar o projeto de poder lulista. Sem apoio, cuida agora de garantir sua sobrevivência política."
quinta-feira, novembro 10, 2022
Artigo, imagem e comentário reproduzidos do blog: otambosi.blogspot.com

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