Ruiu a pirâmide fajuta do bolsonarismo
O enredo golpista desvendado pela Polícia Federal é espantoso mas não surpreendente. De quebra, também é muito, muito brega. Jerônimo Teixeira para a Crusoé:
Donald Trump, eu disse aqui outro dia, é uma pirâmide: "um objeto imenso, sólido e de linhas na verdade bem simples, mas que representa um mistério para o observador”.
Jair Bolsonaro já foi chamado de “Trump dos trópicos”.
O próprio Trump usou essa expressão quando declarou apoio ao então presidente do Brasil na eleição de 2022.
Pirâmides já foram erguidas nos trópicos. Bolsonaro não é uma delas. Falta-lhe o elemento de mistério. Até seus momentos de destempero e incontinência verbal são previsíveis.
(As revelações do relatório da Polícia Federal sobre o golpismo no governo Bolsonaro são espantosas mas não surpreendentes. "Claro que isso tudo aconteceu. Estava na cara”, pensei logo que soube dos planos elaborados pela milicada bolsonarista para matar o presidente eleito, seu vice e um ministro do STF – embora eu nunca houvesse imaginado nada parecido…)
Bolsonaro será no máximo uma pirâmide cenográfica em um carro alegórico de uma escola de samba do segundo grupo.
Não, a analogia é ruim: o ex-presidente não gosta de Carnaval. Vou tentar de novo.
Bolsonaro é a pirâmide de plástico que caberia na entrada de uma loja Havan, se Luciano Hang decidisse trocar a Estátua da Liberdade por um figurino egípcio (ou maia, ou asteca…).
A chanchada golpista
Como era brega o golpe que não foi!
Reparem na carga de melodrama patrioteiro no nome da operação que pretendia “neutralizar" Xandão, Lula e Alckmin: "Punhal Verde e Amarelo”.
Sérgio Reis poderia tirar daí uma canção de dor de corno: “Um punhal verde amarelo / cravado em meu coração”.
E ainda tem os tais “kids pretos” que andavam monitorando os movimentos de Alexandre de Moraes. Ao que parece, é uma tropa de elite, treinada para operações especiais.
O apelido, no entanto, não evoca soldados sorrateiros e ágeis ou franco-atiradores que nunca erram o alvo. Em sua pronúncia abrasileirada, Quídis Pretos soa mais como um grupo de pagode infantil que homenageia Muçum. Olha o gólpis, cacíldis!
(Mas que sei eu sobre a vida militar? Sou só um desses civis vagabundos cuja vida de folga e festa foi exposta no vídeo da Marinha. Escrevo esta coluna bebendo um mojito nas areias cálidas de Fernando de Noronha. Na noite passada, o DJ do surubão, que é um pândego, tocou In the navy, do Village People.)
O clamor de 1964
É tudo muito ridículo – e também muito grave (chego tarde para dizer isso: Cora Rónai apontou essa dualidade na sua crônica em O Globo).
Entre as revelações sérias do relatório da PF, está a conexão dos conspiradores palacianos com a turma acampada em frente ao quartel de Brasília.
O general Mário Fernandes, um Kid Preto radical, estava em contato com líderes do acampamento. Quis protegê-los: pediu a Mauro Cid que intercedesse junto ao presidente para deter eventuais operações da Polícia Federal na "área militar”.
Fernandes preocupava-se em manter acesas as manifestações contra o resultado das urnas. “O clamor popular, como em 64”, disse ele em áudio enviado ao então chefe da Secretaria-Geral, general Luiz Eduardo Ramos.
Creio que ainda não está claro como a quebradeira do 8 de setembro se encaixa na história. Ao que parece, naquela data as atividades dos Kids Pretos já haviam sido suspensas. É possível que a Horda Canarinha, cansada de esperar, tenha decidido chamar os militares à ação.
O cientista social Jonas Medeiros, que tem acompanhado todas as grandes manifestações de rua do bolsonarismo e escrito a respeito no site da revista Piauí, observou que depois depois do 8 de janeiro a exaltação às Forças Armadas quase sumiu dos cartazes e palavras de ordem desses eventos. Os militantes sentiram-se traídos pelos militares.
Fico imaginando o que terão sentido ao ver o vídeo em que Bolsonaro, sob o pretexto de “pacificar” o país, pede arrego ao STF.
Acabou o pano
Saíram desmentidos os "passadores de pano” de Bolsonaro. Não cola mais a conversa de que o ex-presidente é um homem no fundo inofensivo que não sabe medir as palavras – só um capitão falastrão que jamais representou qualquer ameaça à democracia.
Como tudo é binário no debate público atual, muitos imaginam que, se os golpistas foram desmascarados, Alexandre de Moraes, o ministro dos mil inquéritos, sai consagrado como o comandante da última praça forte da democracia.
Será?
Em agosto de 2022, um mês depois de Bolsonaro ter aludido a seus planos de golpe em uma reunião ministerial, Moraes mandou a PF bater na porta de oito empresários – o mais famoso e vistoso deles era Luciano Hang – que disseram besteiras monstruosas em um grupo privado de WhatsApp.
Um deles afirmou que preferiria golpe e ditadura à volta do PT ao poder.
Quem leu ou ouviu pelo menos algumas das mensagens que o general Fernandes trocou com Cid e outros colaboradores entenderá, pela mais simples comparação, que as opiniões tortas compartilhadas pelos amigos do véio da Havan não constituem um plano de golpe.
Não havia razão plausível para investigar essa gente. Moraes só reconheceria isso um ano depois, quando encerrou o inquérito.
Nenhum dos oito empresários está entre os 37 indiciados no caudaloso relatório da PF. Seus nomes tampouco apareceram entre os financiadores do 8 de setembro.
Ao longo do ano crucial de 2022, a Justiça sacudiu várias árvores, mas não chegou perto daquela que tinha os frutos podres.
As conspirações do núcleo radical do Planalto só seriam descobertas bem mais tarde.
O que nos salvou foi o relativo isolamento dos radicais do Planalto em meio ao legalismo do Alto Comando das Forças Armadas. E também a incompetência dos pretensos golpistas.
Parece que a operação Punhal Verde e Amarelo esteve perto de cumprir pelo menos um de seus três objetivos. Os agentes destacados para sequestrar e talvez matar Moraes estavam em campo no dia 15 de dezembro de 2022. A ação teria sido suspensa porque uma sessão do STF foi adiada.
Por pouco o que era ridículo não se tornou trágico.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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