Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI , de 7 de dezembro de 2024
Como o “Xadrez 4D” de Bolsonaro virou pedido de penico
Oposição a Lula tem pela frente uma oportunidade de consolidar seu processo de depuração, para oferecer à sociedade em 2026 uma alternativa mais digna, menos humilhante. Felipe Moura Brasil para a Crusoé:
O desgaste nacional do PT aumentou a partir de 2014 em razão de 5 fatores básicos:
*Corrupção petista revelada pela Lava Jato e, depois, fraudes fiscais reveladas por Júlio Marcelo de Oliveira, então procurador do Ministério Público de Contas junto ao Tribunal de Contas da União (TCU);
*Crise econômica plantada por Lula, com sua filosofia de gastos, e estourada por Dilma Rousseff, com a “nova matriz econômica” de Guido Mantega;
*Identitarismo intolerante e blogueiragem suja de uma esquerda que, em nome das “minorias”, demoniza os divergentes como “nazistas, fascistas, racistas, homofóbicos, xenófobos” e outros rótulos infamantes;
*Abandono da classe média, que financia com impostos o assistencialismo e o capitalismo de compadrio, mas é tratada como “ignorante, petulante, arrogante, terrorista” por Marilena Chauí, expoente do lulismo acadêmico que ecoa na imprensa;
*Advento e evolução das redes sociais, onde autores não esquerdistas furaram o filtro midiático e apontaram os itens anteriores.
Quando o desgaste do PT culminou com o impeachment de Dilma e a prisão de Lula, já havia em formação no ambiente cultural brasileiro um ideário à direita, mais conectado com posições majoritárias da população, confirmadas em pesquisas sobre drogas, aborto e criminalidade.
No entanto, não havia, com força nacional, representantes políticos de uma direita republicana, liberal e democrática.
O que havia de disponível para a sucessão do ex-vice Michel Temer, fora dos esquemas já revelados, era um radical do Centrão, estatista e defensor da ditadura militar, disposto a abraçar as bandeiras direitistas ignoradas pela classe política e a surfar a onda anticorrupção, antipetista, antiesquerda e antissistema.
Jair Bolsonaro, então, camuflou-se como líder da direita embrionária com três máscaras políticas (além da religiosa, com batismo no Rio Jordão e tudo): a da ordem, representada pelos militares, a do liberalismo econômico, por Paulo Guedes, e mais tarde a da Justiça, por Sergio Moro, que não duraria muito em seu governo.
Depois que um desdobramento da Lava Jato fez emergir o histórico de funcionalismo fantasma em gabinetes de sua família, Bolsonaro usou a presidência da República para desmantelar o combate à corrupção e, como cortina de fumaça, o bolsonarismo passou a preparar o terreno para a acusação de fraude eleitoral, plantando narrativas contra urnas eletrônicas, como depois provariam as mensagens de Mauro Cid, então ajudante de ordens do presidente.
Nesse sentido, a cortina de fumaça usada por Bolsonaro para acobertar seus estelionatos eleitorais serviu perfeitamente ao Supremo Tribunal Federal para, em nome da defesa da “democracia”, acobertar a impunidade do colarinho branco e legitimar a censura, já que bolsonaristas alopraram na fantasia e chegaram a tramar um golpe de Estado.
Derrotado, inelegível e indiciado, o radical do Centrão que fortaleceu o sistema agora implora a Lula, Alexandre de Moraes e outros ministros do STF por anistia, como eu, Felipe, alertei, com anos de antecedência, que iria acontecer.
Em 24 de abril de 2021, comentei no X que restaria a Bolsonaro, quando saísse do poder, “o apelo pela reciprocidade” na blindagem, “para também escapar” da prisão.
Em 29 de julho de 2022, a três meses da eleição, acrescentei: “O bolsonarismo achaca a democracia para conseguir contrapartida, seja ela uma concessão às suas próprias regras eleitorais, seja a anistia de Bolsonaro.”
Em 1º de novembro de 2022, dias após a vitória de Lula, afirmei também: “O que Bolsonaro sempre quis é garantia de blindagem e anistia para nunca ser preso. É o que ele gostaria de ganhar hoje, em troca de um pronunciamento para desmobilizar seus arruaceiros rodoviários, do 'MST' verde-amarelo. Uma chantagem de presidente mimado que não sabe perder.”
Resultado:
Em 29 de outubro de 2024, Bolsonaro apelou ao “coração” do atual presidente: “Eu gostaria que o Lula fosse o pai da anistia… Será que ele não tem coração também?".
Em 28 de novembro, Bolsonaro pediu penico: "Para nós pacificarmos o Brasil, alguém tem que ceder. Quem tem que ceder? O senhor Alexandre de Moraes. A anistia, em 1979: eu não era deputado, foi anistiada gente que matou, que soltou bomba, que sequestrou, que roubou, que sequestrou avião, 'vamos pacificar, zera o jogo daqui para frente'. Agora, se tivesse uma palavra do Lula ou do Alexandre de Moraes no tocante à anistia, estava tudo resolvido. Não querem pacificar? Pacifica… Eu apelo aos ministros do Supremo Tribunal Federal, eu apelo. Por favor, repensem, vamos partir para uma anistia, vai ser pacificado”.
Difícil conceber um fim mais melancólico para quem posava de “imbrochável” que implorar perdão às pessoas que prometeu combater.
Difícil conceber um fim mais melancólico para a militância que falava em “Xadrez 4D” do “mito” que ver seu líder de joelhos para o sistema.
Após tamanho acidente de percurso, o campo de oposição a Lula tem pela frente uma oportunidade de consolidar seu processo de depuração, para oferecer à sociedade em 2026 uma alternativa mais digna, menos humilhante.
O problema é justamente Bolsonaro, que, desesperado com o risco de prisão, precisa de um aliado capaz de se eleger; e fará de tudo para não perder a liderança que usurpou.
Nada vai ser pacificado tão facilmente assim.
Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

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