terça-feira, 6 de janeiro de 2026

'Futuro da Venezuela é Incerto', por Fernando Gabeira

Artigo compartilhado do site do GABEIRA, de 6 de janeiro de 2026 

Futuro da Venezuela é Incerto
Por Fernando Gabeira (In Blog)

A História me deu uma rasteira no sábado. Três dias gripado, sonhava com um mergulho matinal. Maduro foi capturado pelos americanos. O dever profissional me chamava. Não foi surpresa total para mim. Contava com uma ação espetacular. Não imaginava que fosse tão fácil.

O modelo que tinha na cabeça foi a captura de Bin Laden no Paquistão. Ele vivia numa casa, mas não sabia que havia sido descoberto. Maduro esperava algo a qualquer momento. Não dormia no mesmo lugar. Estava cercado de guardas cubanos e controlava a estrutura de segurança do Estado. Tudo foi para o espaço.

A longa preparação, a retórica: “Covardes, venham me pegar”. Eu deveria calcular que os americanos investiriam pesado. Fixaram uma recompensa de US$ 50 milhões por sua cabeça. Por US$ 10 milhões, talvez, pudessem fazer a operação.

Vejo nos primeiros esquemas uma estrutura semelhante à prisão de Bin Laden. Helicópteros do Regimento Night Stalkers, de onde os homens da Força Delta descem por uma corda no Forte Tiuna e conseguem prender Maduro antes que ele feche uma porta de aço de 6 polegadas. Houve apenas um tiroteio, diferente do silêncio noturno na casa de Bin Laden. Trinta e dois cubanos morreram no embate. São detalhes que um dia ficarão mais claros num documentário.

O mais importante no momento é a mensagem de Ano-Novo: vale a lei do mais forte. Poucos dias depois de lançar um documento revivendo a Doutrina Monroe, Trump não apenas prende Maduro, como diz que agora dirigirá a Venezuela. Abre-se um momento de reflexão para toda a América Latina. Na verdade, para toda parte do mundo vizinha a uma grande potência. Taiwan e China, Ucrânia e Rússia, esses dramas serão amplificados pela atitude americana. E a Groenlândia já está na mira de Trump.

Já vi derrubarem vários ditadores. Ninguém em sã consciência os defenderá. O problema é o pós-derrubada. Os casos de Líbia e Iraque são típicos. Trump anunciou que as empresas americanas modernizarão a infraestrutura do petróleo na Venezuela. Na primeira entrevista coletiva depois da prisão de Maduro, mencionou apenas o petróleo, como se tudo se limitasse à troca de comando nessa importante indústria. Não mencionou esforços para estabelecer a democracia, não defendeu a libertação dos presos políticos.

A Venezuela é um país, não se define apenas pelo petróleo. Como ficará tudo? Trump deu a impressão de que, uma vez resolvida a questão da passagem do petróleo para mãos americanas, não se importa muito com o destino do país.

O Brasil expressou uma posição que tenho defendido: defender a não intervenção armada, sem nenhuma simpatia por Maduro. O modelo dessa posição se firmou no caso do Iraque, quando era possível ao mesmo tempo condenar Saddam Hussein e duvidar do êxito da guerra.

Nossos laços com a Venezuela nos deixam apreensivos pela ausência de um horizonte pós-Maduro. Trump pareceu descartar María Corina Machado, apesar de sua popularidade e liderança na oposição. Não foi correto dizer que ela não tem respeito para ser a interlocutora na transição. Parece que Trump não a perdoou por ter ganhado o Prêmio Nobel, seu grande sonho.

Como ficaremos diante de um vizinho com que temos tantas questões bilaterais? Quase 400 mil refugiados, o problema dos ianomâmis, importação de energia, a gestão do Monte Roraima… Não há dúvida de que o chavismo perderá seu lugar histórico na Venezuela. Mas o pós-Maduro ainda é uma grande interrogação.

Texto e imagem reproduzidos do site: gabeira com br 

Nenhum comentário:

Postar um comentário