terça-feira, 1 de abril de 2025

Ditadura nunca mais!

Legenda da foto: Para que ninguém se esqueça! - (Crédito da imagem: reprodução da internet)

Artigo compartilhado do site FENASPS, de 31 de março de 2025

Ditadura nunca mais!

Há aquelas datas que existem para se celebrar; outras, para nos colocar em um estado reflexivo, e até mesmo aquelas que marcam tristes acontecimentos, como massacres e tragédias. O dia 31 de março, porém, é um dia para se rechaçar.

No dia 1º de abril de 1964, um grupo de militares apoiados pela agência estadunidense CIA destituiu o presidente eleito João Goulart em um golpe que impôs uma ditadura que perdurou por mais de 20 anos no Brasil. Os militares envolvidos no golpe de 64 e no subsequente regime autoritário sequestraram, torturaram e assassinaram brasileiros – paradoxalmente – “em nome da democracia” e do “Estado de Direito”.

Ainda que os apoiadores do golpe queiram cinicamente descolá-lo 1º de abril por este ser popularmente conhecido como “o Dia da Mentira“, sabemos que ainda há muito o que ser revelado, e muitas mentiras são contadas até hoje sobre este período. É fato que o Brasil empobreceu, se endividou e que a desigualdade social atingiu níveis desastrosos.

O que havia de mais retrógrado na sociedade da época se juntou na trama: militares, CIA, políticos conservadores e grandes empresários do jornalismo, como as famílias Mesquita, Marinho, e Frias, donas dos jornais Estadão, O Globo, e Folha de S. Paulo, respectivamente, que apoiaram o golpe em seu início.

Hoje, esse grupos de comunicação mudaram de tom, apoiando a democracia plural, ainda que permaneçam apoiando uma pauta, em geral, conservadora e antiprogressista. Grande parte da sociedade, inclusive, mudou de opinião quando vieram à tona as atrocidades cometidas pelos militares com a promulgação da lei que criou a Comissão Nacional da Verdade (CNV), em 2012.

Porém, 61 anos depois, ainda há aqueles que defendem esse período nefasto da história deste país. Por isso, o dia 31 de março é uma data para ser rechaçada, e para que se busque a punição daqueles que se envolveram nos atos bárbaros cometidos nos anos 1960 no Brasil. Ainda estamos aqui!

Para que ninguém esqueça; para que nunca mais aconteça!

DITADURA NUNCA MAIS!

Texto e imagem reproduzidos do site: fenasps org br

sábado, 29 de março de 2025

Quem é Donald Trump?

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 27 de março de 2025 

Quem é Donald Trump?

Por todas estas diversas razões fui conduzido à hipótese, não é mais do que isso, de Donald Trump poder ter sido na juventude uma das conquistas do KGB e poder ser agora um agente russo na Casa Branca. Henrique Neto para o Observador:

Já escrevi que a chegada de Donald Trump à Casa Branca virou o planeta do avesso e deixou por responder uma questão: quem é Donald Trump? Um louco ignorante? Um vendedor imobiliário inculto? Um político sem escrúpulos? Um hábil manipulador das circunstâncias? Um enviado do Diabo à Terra? Donald Trump poderá ser isso tudo, mas não chega como explicação.

Tenho pensado sobre o assunto, nomeadamente sobre quais as razões de Trump estar na prática a propor soluções para a guerra na Ucrânia que são as mais compatíveis com os interesses de Putin? Ou quais as razões de uma relação tão amistosa com o ditador russo e da sua aparente admiração por ele, ao ponto de mandar pela borda fora cem anos de políticas democráticas da grande nação norte-americana? Será isso o resultado de uma juventude formada entre gente de negócios e ambiciosa, ou é devido ao seu mentor Ron Cohn que lhe ensinou as três célebres regras: (1) Atacar, atacar, atacar; (2) Admitir nada, negar tudo; (3) Independentemente do que acontecer reclamar a vitória e nunca admitir a derrota?

Não há dúvida que Donald Trump segue disciplinadamente estas regras e faz delas uma espécie de bíblia pessoal, mas sendo isso verdade, nomeadamente vinda de alguém que aplicou esses ensinamentos com bons resultados na sua ascensão política, não pode representar um programa para tratar das relações geopolíticas dos Estados Unidos, nomeadamente com o seu mais poderoso inimigo, sentado sobre a maior quantidade de ogivas nucleares do planeta. Ninguém pode justificar uma inversão política desta dimensão, para mais de alguém que tem a responsabilidade pelo resultado das políticas seguidas.

Para além de pensar sobre esta questão de quem é Donald Trump, tenho assistido aos mais variados programas de televisão e lido os jornais, nomeadamente norte americanos, com os comentários e as explicações mais variadas sobre as razões de Trump, por vezes razões estapafúrdias, que nos deixam cada vez mais perplexos e menos convencidos das muitas explicações dadas. Terá de haver, penso, alguma coisa mais para explicar os comportamentos de Donald Trump, nomeadamente na sua relação com Putin.

Entretanto, aprendi bastante mais sobre Putin, nomeadamente sobre as suas actividades como dirigente do KGB soviético, onde fez a maior parte da sua formação, como tomei conhecimento das técnicas de espionagem então usadas, nomeadamente os investimentos feitos com objectivos de longo prazo, visando a identificação de alvos passíveis de alguma ascensão pessoal e política nos principais países adversários do comunismo e da URSS, que, por maioria de razões, visavam os Estados Unidos. Uma estratégia de longo prazo à moda da China de que, naturalmente, não conheço os resultados, mas que faz pensar.

Acresce, na sequência da minha procura de explicações sobre Trump nas suas relações com Putin, que ele viveu ainda na sua juventude algumas dificuldades financeiras, teve mesmo alguns casos de falência nos negócios, dificuldades que foi sempre superando sem grande explicação sobre os meios utilizados para além da sua conhecida filosofia de vida. Além disso, o Trump empresário visitou a Rússia onde conheceu Putin, com quem dialogou com o reconhecido agrado de ambos, o que mais tarde conduziu o líder russo a promover apoios pouco claros a Trump nas suas três campanhas eleitorais. Ou seja, por todas estas razões fui conduzido à hipótese, não é mais do que isso, de Donald Trump poder ter sido na juventude uma das conquistas do KGB e poder ser agora um agente russo na Casa Branca. Apenas uma das muitas explicações possíveis para o comportamento errático de Donald Trump relativamente ao líder russo, mas uma explicação que, entre todas, não pode ser ignorada, explicação que aliás deve estar na cabeça de algumas pessoas que rodeiam Putin. Algumas poderão mesmo ter caído das janelas.

Em análise política nunca se deve excluir qualquer possibilidade, sem que isso seja mais do que isso, uma possibilidade. Todavia, neste caso e por uma larga maioria de razões históricas conhecidas, o actual regime político da Rússia, não é de facto muito diferente do passado da URSS e conduz-nos à conclusão de que a maior diferença reside no presente em que há uma ditadura de um homem só e antes a Rússia Soviética era dirigida por um colectivo, o chamado Politburo. Pessoalmente, preferiria a versão comunista.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

Perfil da Prefeita Emília Corrêa

Legenda da foto: Emília Corrêa em seu gabinete na Prefeitura de Aracaju

Perfil compartilhado do site F1 FAN, de 24 de março de 2025

De Perfil > Das linhas de Pirro para a linha do tempo: o perfil da primeira mulher eleita prefeita de Aracaju

Por Larissa Gaudêncio*

Em uma das linhas que Pirro* desenhou, o calor não deixava o sol escaldante das 10h30 passar despercebido, mas à sombra da casa do povo, alguns se sentiram à vontade para dizer palavras afetuosas à nova prefeita. 

Um homem de camisa xadrez atravessou a barreira humana de seguranças, esticando o braço para capturar o momento com o celular. “Quero fazer mais vídeos para distribuir na comunidade”, disse, sorrindo, ao lado de uma Emília Corrêa também sorridente. Uma mulher de roupa florida e alegria no rosto dispensou formalidades: “Como é que você está, menina?”, perguntou a Emília.

Esse gesto simples veio depois de uma cerimônia  formal. Antes, quando os ponteiros marcavam 8 horas e 57 minutos do dia 4 de fevereiro de 2025, Emília chegou à Câmara de Vereadores, no Centro de Aracaju, para marcar o início dos trabalhos legislativos.

No plenário, a primeira mulher eleita prefeita de uma capital chegando aos seus 170 anos saudou colegas vereadores reeleitos e parlamentares de primeira viagem. Mais uma vez, pisava no lugar onde tanto debateu e fez cobranças durante oito anos, mas agora com uma responsabilidade diferente.

“Vereador Levi, o senhor está sentado onde eu costumava me sentar”, disse saudosamente na tribuna. Esse aceno ao Legislativo, posteriormente afirmou em entrevista para a construção do perfil, mostra o tipo de relação que pretende ter com os parlamentares. 

Em um momento em que a imagem da “Emília prefeita” ainda não está consolidada completamente em sua mente, afirma que a experiência de ter sido vereadora não permite que compactue com a hierarquização dos poderes.  

“Não é bom isso, medir força com o poder, até porque são poderes diferentes [pelo] que a Constituição diz. Independentes, mas harmônicos para governar”

– Emília Corrêa sobre relação entre o Executivo e o Legislativo

Relembrando o passado e mirando as incertezas e os desafios que o futuro impõe, se coloca como um ponto de encontro, uma chave que pretende abrir a porta de Aracaju e revelar “uma nova cidade”. 

A mulher que o voto segue

No gabinete da prefeita, ainda há resquícios da campanha de saldo vitorioso. Na ponta da língua, o grito de afirmação: “É desse jeito”, e uma resposta ao passado que a trouxe até esse posto: “Eis-me aqui”. No pulso, pulseiras de miçanga que foram feitas à mão por crianças e entregues a ela durante os atos que realizou na capital.

Sentada em uma cadeira à frente de um quadro imenso que ilustra a praça Fausto Cardoso, quase parece pequena, e confirma essa percepção na própria fala.

“Todo dia eu me sinto desse tamanhinho, carregando esse monte de responsabilidades sobre os meus ombros, mas não tenho parado de trabalhar”

Por outro lado, quando é hora de fazer uma autodescrição, já parece grande. Emília Corrêa Santos Bezerra destaca que é mãe de Rodrigo e Lara, avó de June, esposa, advogada e defensora pública por essência. Nascida e criada em Lagarto, recebeu em 2006 o título de cidadã aracajuana. 18 anos depois, se tornou prefeita desta mesma cidade, em 27 de outubro de 2024, com 165.924 votos, o equivalente a 57,46% dos eleitores.

Confirmou o que a maioria das pesquisas de intenção de voto já apontava na época, após se comprometer em “furar a bolha do sistemão”. Mas nem sempre foi assim. No início da carreira política, não enxergava em si as virtudes que pudessem justificar a confiança que a população lhe deu. 

“Nunca imaginei estar na política partidária, nunca planejei, nunca projetei isso”

Falando sobre sua entrada no jogo político, cita a influência do pai, José Corrêa Sobrinho, e a visão diferenciada da mãe, Orlette Corrêa Santos. Emília lembra que José era comunicativo e carismático, o que combinava mais com o viés político. Já Orlette, acreditava que ela era uma ótima defensora. 

“Ele [pai] foi vereador por três vezes em Lagarto. Foi até presidente da Câmara, mas no tempo em que não existia salário para vereador. Meu pai defendia a cidade, ele amava Lagarto, era impressionante isso. Ele viu isso em mim, eu não me vi em política partidária, mas ele viu isso em mim, como a minha mãe me viu uma advogada ou uma defensora”

O “estalo” para uma mudança de trajetória, na época em que ainda exercia a advocacia, veio de uma fala do pai sobre sua caminhada na política institucional. Candidata a conselheira e presidente da OAB Sergipe, além de pleiteante à vaga do Quinto Constitucional no Tribunal de Justiça, afirma ter sido descrita por José Corrêa como uma líder nata.

“Ele dizia isso para mim: ‘minha filha, tem políticos que têm que correr atrás do voto, outros que compram votos, negociam votos, e outros que o voto corre atrás, eu vejo que você é uma política que o voto corre atrás’”

De quem “desligava o telefone em época de eleição” para desviar dos convites de partidos para que se candidatasse, acolheu um pedido do pai e do ex-governador João Alves para que buscasse um espaço no Legislativo. 

Assim, em 2012, Emília concorreu ao cargo de vereadora de Aracaju pelo Democratas. Não recebeu os votos necessários para ser eleita, mas ficou como primeira suplente, e chegou a assumir a titularidade do mandato entre 2013 e 2014. Em 2016, concorreu novamente à vereança pelo Partido Ecológico Nacional (depois conhecido como Patriota) e, desta vez, foi eleita. Dois anos depois, saiu candidata a deputada federal e recebeu quase 53 mil votos, sendo 35 mil somente em Aracaju, mas não foi eleita por conta do sistema proporcional.

Diante dos números que alcançou na corrida por uma vaga na bancada federal, Emília afirma que chegou a ter o nome ventilado à Prefeitura de Aracaju em 2020, mas não foi a escolhida pelo seu grupo político, que utilizou como o critério o resultado de pesquisas eleitorais e, assim, escolheu Danielle Garcia (MDB) como candidata a prefeita.

“Ela ainda não tinha sido testada nas urnas. Eu já tinha sido testada nas urnas, aprovada, e a pesquisa deu que o nome dela era o melhor naquele momento. E havia um combinado, um acordo de que quem não fosse o escolhido do grupo, não sairia candidato para outro grupo”

Esse acordo, segundo Emília, foi seguido apesar de ter recebido convites de outras lideranças e de temer ser prejudicada politicamente. Optou, então, pela recondução à vereança, e, novamente, foi eleita.

“Com o mesmo tipo de campanha, com um partido pequeno, ou seja, sem a estrutura que tantos e a maioria dos políticos pensa que só vence eleição quem tem. Não é assim, quando tem que acontecer, vai acontecer”

Mas talvez tenha sido em 2022 que a anunciação de sua força política tenha ficado mais fácil de escutar. Candidata a vice-governadora na chapa encabeçada pelo atual prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho (PL), obteve 457.922 votos. 

No entanto, a condição de indeferimento que a candidatura do “pato” enfrentava à época fez os votos serem considerados nulos. O TSE referendou uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe, que condenou Valmir à inelegibilidade por oito anos, pela prática de abuso de poder econômico nas eleições de 2018. 

“Nós ganhamos, mas não levamos por tudo que você já sabe”

Havia grande apelo de uma parcela do eleitorado da chapa ‘Pato+Leoa’ (à época conhecida somente como Emília) para que, diante da insegurança jurídica que rondava a candidatura de Valmir, ela encabeçasse o grupo como candidata a governadora. Isso não chegou a ser feito, conforme a própria Emília, em respeito à decisão do grupo que coordenava a chapa. 

“Quando eu cheguei ali, aquele grupo já estava todo pronto. Eu cheguei apenas para compor, então não poderia eu chegar impondo alguma coisa naquele momento. O grupo entendeu que, se não fosse Valmir, não deveria ser ninguém, porque as pesquisas apontavam Valmir. E aí eu respeitei simplesmente isso”

Por esse motivo, ela especula que talvez sua chegada à prefeitura esteja relacionada a um desejo do povo, tantas vezes protelado, de que ela ocupasse um cargo majoritário. 

“É como se o povo tivesse esperando isso, porque vinha acompanhando a trajetória da gente. Eu já entendia que eu não tinha que permanecer na Câmara, já tinha contribuído com [a Câmara] naquele período, e a gente não tem que ser político permanente nos lugares”

O estouro da bolha 

A imagem da Emília combatente que discursava com altivez na tribuna da Câmara de Vereadores e aparecia em vídeos nas redes sociais fazendo denúncias sobre supostos problemas em diversas áreas em Aracaju ganhou mais uma camada na campanha de 2024. 

Nos mais diversos pronunciamentos, fazia questão de dizer que concorria sem o apoio de grandes lideranças políticas, como o governador, Fábio Mitidieri (PSD), e o então prefeito Edvaldo Nogueira (PDT), que apoiavam o candidato Luiz Roberto (PDT), e de não fazer parte de famílias tradicionais, com grande influência no estado. 

Daí, o argumento de que sua eleição estouraria a “bolha do sistemão”, ou o movimento de perpetuação de um mesmo grupo político no poder. Com essa e outras falas, passou a vestir ideais não somente apoiados em uma visão intelectual de que a renovação era necessária, mas também buscando fazer com que o fato de ser eleita se tornasse um desejo intenso do povo.

Desta vez, concorrendo pelo Partido Liberal (PL), fez um vídeo com o nome mais conhecido da sigla e talvez da própria direita: o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em sua rede social, alegava e agradecia o apoio espontâneo da população, inclusive de crianças, que faziam as já mencionadas pulseiras de miçangas para lhe entregar durante as agendas de campanha. 

Emília usa algumas pulseiras que recebeu durante os dias de campanha

Enfim, chegou ao Executivo. A esse fato, ela também atribui um sentimento de cansaço que, em suas palavras, permeava o eleitorado aracajuano. 

“Esse acolhimento veio do povo que cansou. O povo cansou de mentiras, de personagens que são produzidos. O povo cansou disso, o povo cansou de trocas, de vendas, de compras, de negócios”

Em um pleito marcado pela presença dominante, e até mesmo inédita, de mulheres como candidatas a prefeita, se colocou como uma figura “diferente”.

“Nessa história toda de se cansar e de querer o diferente, resolveram apostar em uma mulher. Mas veja, nós tivemos muitas candidatas mulheres, não que elas não tivessem preparadas, mas parece que eles não queriam só uma mulher, eles queriam uma mulher diferente, e isso não significa, volto a dizer, que eu sou melhor que ninguém”

A harmonia entre os poderes

Fazendo uma avaliação do início de gestão, Emília descreveu um “misto de tristezas, dores, alegrias, problemas e soluções”, e referenciando Juscelino Kubitschek, a percepção de que dois anos haviam se passado em apenas dois meses. 

Às palavras que utilizou, relacionou diversos fatos que se desenrolaram, como a suspensão da coleta de lixo no dia 30 de dezembro de 2024 e, logo depois, no início de janeiro, o anúncio da possibilidade de interrupção dos serviços prestados à Maternidade Lourdes Nogueira.

“À medida que a gente ia resolvendo [os problemas], outros iam se apresentando, ou seja, questões que na transição não foram visualizadas, porque não são mesmo, só quando a gente chega” 

A consciência de que mais adversidades serão enfrentadas durante toda a gestão, em suas palavras, também é uma constante. 

“A gente chegou enfrentando os problemas, e vamos enfrentar muito mais durante os 4 anos, com certeza, mas vamos resolvendo a cada um que vai chegar”

É dentro de um cenário com essas características que recupera na linha do tempo a experiência como vereadora e, agora como gestora, define o tipo de relação que pretende ter com os parlamentares. Emília condiciona a necessidade de uma harmonia entre os poderes. 

“Eu quero ter um relacionamento com a Câmara, se a Câmara assim quiser. Eu quero ter um relacionamento de respeito, de contribuição para a população de Aracaju, de escuta, de ação. Mas para que eu tenha esse relacionamento, a Câmara também tem que querer, para que a harmonia aconteça. Se essa harmonia não acontecer, sabe quem vai penar? O povo”

A leoa da tribo de Judá

Na selva digital, onde a imagem consolidada e o engajamento passaram a ser colocados em um patamar de destaque nas últimas eleições, Emília se assentou. Ela conta que esse movimento começou em 2018, quando concorreu ao cargo de deputada federal e não tinha condições financeiras de se deslocar a todos os municípios do interior para fazer atos de campanha. 

Em 2020, durante a pandemia, foi acometida pela Covid e, diante da impossibilidade de ir às ruas, intensificou o trabalho nas redes sociais.

Na campanha para prefeita, não foi diferente. Da oposição à colocação de cimento no Parque da Sementeira a vídeo com pulseiras da amizade ao som de Taylor Swift, todo conteúdo passível de gerar reações acabava no Instagram. 

A tentativa de reunir uma verdadeira “tribo” online se personificou no dia em que foi eleita prefeita. Em um vídeo publicado logo após a confirmação da vitória nas urnas, estava maquiada artisticamente como um leão, vestida com uma blusa estampada com o nome “escolhida” e fez lipsync da música ‘Leão’, de Gabriela Rocha.

A produção e o trecho “meu Deus é o leão da tribo de Judá” fizeram com que logo ficasse conhecida como a “prefeita leoa”. O apelido, conta Emília, além de não causar incômodo, também ganhou uma funcionalidade dentro de seu imaginário. 

“A leoa tem aquela coisa de proteger a prole, de guardar a prole. Essa prole hoje para mim é o povo de Aracaju. Eu quero proteger, eu quero guardar, eu quero dar para eles o que eles precisam”

Citando outro trecho da música: “E em seu nome os gigantes cairão”, fez alusão aos adversários que enfrentou no pleito.

“Os gigantes caíram. E missão é coisa difícil, é coisa árdua. E você, quando é escolhida para uma missão, é muita responsabilidade”

Viver no presente e seguir a missão à qual foi designada é o desejo que Emília revela para os próximos anos. Antecipando os questionamentos que com certeza virão sobre o ano eleitoral de 2026, destaca que ainda não teve conversas políticas.

“Eu vou trabalhar na missão que me foi dada para Aracaju, não tenho planos, pelo menos agora, não tenho planos para 2026, nem para outros anos. Eu deixo as coisas acontecerem”

Diante do passado de sua trajetória na Câmara, com histórias e experiências, ao futuro que pretende construir, o presente de Emília é um momento que se expande. A política pode não ser uma linha reta como a de Pirro, mas um campo onde as promessas de mudança podem transformar o curso, desde que colocadas em prática. Resta esperar. O tempo é soberano e permite todo tipo de realidade. 

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 * Sobre a coluna

De Perfil é uma nova coluna do Portal Fan F1, dedicada a perfis jornalísticos. Cada perfil narra a história de vida de uma pessoa, pública ou não, de maneira humanizada e subjetiva. Ao contrário de uma biografia, o perfil é mais conciso e foca em aspectos específicos da trajetória do personagem.

Na estreia da coluna, apresentamos o perfil de Emília Corrêa, a primeira mulher eleita prefeita de Aracaju. A narrativa foi construída a partir da cobertura da cerimônia de início das atividades legislativas de 2025, realizada na Câmara de Aracaju no dia 4 de fevereiro, e de uma entrevista exclusiva com Emília, realizada em seu gabinete em 27 de fevereiro de 2025.

*Sebastião José Basílio Pirro foi o engenheiro que elaborou o primeiro projeto da então nova capital de Sergipe, Aracaju, em 1855. A Praça do Palácio (atual Praça Fausto Cardoso), foi o ponto de partida para o crescimento da cidade, com ruas ordenadas como um tabuleiro de xadrez, para terminar no Rio Sergipe.

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Texto e imagem reproduzidos do site: fanf1 com br

sexta-feira, 28 de março de 2025

Por que o batom virou novo símbolo de críticas a Moraes...

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 27 de março de 2025

Por que o batom virou novo símbolo de críticas a Moraes e ameaça a credibilidade do STF

Na avaliação de acadêmicos e criminalistas o ministro Luiz Fux, do STF, ajudou a institucionalizar o debate sobre a revisão de penas aos condenados do 8.01, e o caso da pichadora Débora Rodrigues dos Santos é identificado facilmente pela população como injustiça. Roseann Kennedy para o Estadão:

Desde as primeiras condenações dos envolvidos nos atos golpistas de 8/01, o bolsonarismo reclama de excessos na aplicação das penas. Sem admitir a gravidade dos fatos ocorridos, esse grupo tentou propagar a ideia de que o Supremo Tribunal Federal (STF) estava punindo “velhinhas com a bíblia na mão”. Por óbvio, não colou. Mas, de repente, a pena de 14 anos de prisão para uma mulher com “o batom em punho” virou o símbolo da arbitrariedade para os críticos do ministro Alexandre de Moraes.

O assunto agora domina rodas de conversa pelo País, e ameaça a credibilidade do julgamento, na avaliação de acadêmicos e criminalistas, especialmente depois de o ministro Luiz Fux, do STF, institucionalizar o debate ao levar o tema para o meio do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Esse caso provocou mais emoção por toda semiótica que envolve. Uma mulher, jovem. Muita gente consegue se identificar. E tem o batom no lugar da arma”, observa a advogada Luisa Moraes Abreu Ferreira, professora de Direito da FGV. Entre os crimes atribuídos à pichadora Débora Rodrigues dos Santos, está associação criminosa armada.

É fato que parte dos magistrados já se incomodava com as penas aplicadas, considerando-as excessivas. Desde o início dos julgamentos relacionados ao 8 de Janeiro, cinco ministros votaram por penas menores que as determinadas por Moraes. São eles: Kassio Nunes Marques, André Mendonça, Luís Roberto Barroso, Cristiano Zanin e Edson Fachin. Parte desses votos foi apresentada no plenário. Agora, os casos estão concentrados na Primeira Turma do STF.

No primeiro julgamento de um réu do 8 de Janeiro, em 2023, o STF definiu uma pena de 17 anos para Aécio Pereira. Nunes Marques, André Mendonça e Barroso propuseram absolvição por alguns crimes e foram vencidos. Os ministros sempre ressaltam que o contexto desse julgamento no STF é inédito.

Agora Fux verbalizou, com todas as venias possíveis, sua divergência. E “o Supremo mordeu a isca”, diz Luisa. Para ela, isso pode ter ocorrido por duas hipóteses. Uma razão para a exposição neste momento seria o temor do efeito backlash, que poderá no futuro derrubar condenações, então seria melhor corrigir o rumo para garantir punições corretas e evitar que vire munição para anistia. “Ou pode ter pessoas lá dentro que quer usar o caso para frear o poder exacerbado do STF na figura de Moraes”.

O caso da pichadora com batom virou um estereótipo do julgamento do 8.01, na avaliação do criminalista Sergei Cobra Arbex. “Daqui a pouco, a oposição vai falar deste caso como mais importante que o de Bolsonaro. Porque representa uma situação de injustiça que todos veem com o tamanho da pena”.

“Uma pena porque esse é um processo extremamente importante, que mexe com nossa estrutura de democracia”, avalia Sergei. “Não é o resultado da condenação que vai fazer esse julgamento forte. É o processo. E a culpa a culpa não é de Moraes, é da Corte que se constrange para divergir do relator”, conclui.

Fux considera pena de cabeleireira que pichou ‘perdeu, mané’ exacerbada e fala em redução

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux lembrou na quarta-feira, 26, durante o julgamento que tornou réu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que pediu vista do julgamento da cabeleireira Débora dos Santos, que pichou a frase “Perdeu, mané” na estátua da Justiça no 8 de Janeiro. Fux questionou “pena exacerbada” em alguns processos dos atos golpistas. O relator dos processos, Alexandre de Moraes, reforçou sua posição, mas afirmou que o tamanho da punição será discutido pelos colegas.

“Vou fazer uma revisão dessa dosimetria (cálculo da pena), porque, se a dosimetria é inaugurada pelo legislador, a fixação da pena é do magistrado. E o magistrado o faz à luz da sua sensibilidade, do seu sentimento a cada caso concreto”, afirmou Fux, completando: “E o ministro Alexandre explicitou a conduta de cada uma das pessoas. E eu confesso que, em determinadas ocasiões, eu me deparo com uma pena exacerbada”.

Em referência ao processo de Débora dos Santos, Fux afirmou: “E foi por essa razão, ministro Alexandre, dando uma satisfação a Vossa Excelência, que eu pedi vista desse caso, que eu quero analisar o contexto em que essa senhora (Débora) se encontrava”.

Após a declaração de Fux, Moraes afirmou: “Em relação ao batom, Vossa Excelência me conhece, eu defendo a total independência de cada magistrado. Acho que Vossa Excelência vai poder trazer uma discussão importantíssima para a Turma. O que agora explicito é que é um absurdo as pessoas quererem comparar aquela conduta — de uma ré que estava havia muito tempo dentro dos quartéis, pedindo intervenção militar, que invadiu junto com toda a turba e além disso praticou esse dano qualificado — com uma pichação de um muro”.

O ministro Alexandre de Moraes lembrou que já houve divergências com outros ministros, a exemplo de Cristiano Zanin, sobre o tamanho das penas aos condenados do 8 de Janeiro. “A questão da dosimetria é uma questão a ser analisada”, concluiu o relator.

O julgamento de Débora dos Santos, no plenário virtual do STF, foi interrompido nesta semana por Fux. Moraes votou por condenar a cabeleireira a 14 anos de prisão.

De acordo com a Procuradoria-Geral da República, Débora Santos cometeu cinco crimes: golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, associação criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

"O que é Política?", por Juliana Bezerra

Artigo compartilhado do site TODA MATÉRIA

O que é Política?
Por Juliana Bezerra *

Política é a atividade desempenhada pelo cidadão quando exerce seus direitos em assuntos públicos através da sua opinião e do seu voto.

A palavra política tem sua origem da palavra grega “polis” que significa “cidade”. Neste sentido, determinava a ação empreendida pelas cidades-estados gregas para normalizar a convivência entre seus habitantes e com as cidades-estados vizinhas.

Definição

A política busca um consenso para a convivência pacífica em comunidade. Por isso, ela é necessária porque vivemos em sociedade e porque nem todos os seus membros pensam igual.

A política exercida dentro de um mesmo Estado chama-se política interna e entre Estados diferentes, se denomina política externa.

Um dos primeiros a explicar o conceito de política foi o filósofo Aristóteles. No seu livro "Política" ele define que esta é um meio para alcançar a felicidade dos cidadãos. Para isso, o governo deve ser justo e as leis, obedecidas.

Mas, para que um Estado seja bem organizado politicamente, não basta que tenha boas leis, se não cuidar da sua execução. A submissão às leis existentes é a primeira parte de uma boa ordem; a segunda é o valor intrínseco das leis a que se está submetido. Com efeito, pode-se obedecer a más leis, o que acontece de duas maneiras: ou porque as circunstâncias não permitem melhores, ou porque elas são simplesmente boas em si, sem convir às circunstâncias.

Já no século XIX, quando o mundo industrializado se consolidava, o sociólogo Max Weber definiu:

A política é a aspiração para chegar ao poder dentro do mesmo Estado entre distintos grupos de homens que o compõem.

Os membros de uma mesma sociedade podem fazer política quando desejam melhorias na sociedade civil. Atualmente, nas democracias ocidentais, os cidadãos podem participar da política através de associações, sindicatos, partidos, protestos e mesmo individualmente.

Vemos, então, que a política vai muito mais além do que um partido político, profissionais e instituições.

Políticas Públicas

As políticas públicas podem soar como uma redundância, pois o governo seria o principal responsável pela condução política da sociedade.

No entanto, o governo tem várias atribuições como garantir o funcionamento da economia e da justiça, assegurar a defesa do território, e finalmente, o bem-estar dos cidadãos.

Quando surge um problema específico e que necessita uma solução particular, aí teremos a chamada política pública.

Por isso, definimos política pública como ações do governo para resolver um problema público após análises e avaliações.

Igualmente, a política pública deve contar com a participação da cidadania para a solução de problemas que atingem a sociedade civil.

Política

Hoje a política deve ser construída com a participação de todos

Política Social

A política social pretende ser uma reestruturação da sociedade a fim de distribuir riquezas de maneira mais igualitária.

A política social tem como objetivo garantir condições mínimas de cidadania como habitação, saúde, educação e consciência ecológica.

Política Fiscal

A política fiscal será o conjunto de medidas que o governo fará para garantir o equilíbrio das contas de um Estado.

Se um Estado gasta mais do que arrecada em impostos, o governo tomará ações para que isto diminua, pois sua dívida crescerá. Desta maneira, pode privatizar empresas públicas ou até diminuir o salário de funcionários.

Política Monetária

A política monetária consiste no controle da inflação, da taxa de juros e da quantidade de dinheiro que circula num país.

Os responsáveis pela condução da política monetária são os Bancos Centrais e os Ministérios de Economia de um Estado que ditam as regras econômicas de um país.

Governo

A política também é a arte ou doutrina relativa à organização dos Estados e o responsável por esta missão é o governo.

Ao longo do tempo, seu conceito foi se modificando e as formas de governo foram se adaptando às novas demandas sociais e econômicas.

Assim, temos vários regimes políticos como:

Monarquia

Ditadura

Teocracia

Oligarquia

Tirania

República

Demagogia

Aristocracia

Liberalismo

Socialismo

..........

Partido Político

Na democracia, o voto é essencial para participar da política

Com a Revolução Industrial, as sociedades ficaram mais complexas. Antes, a maior parte da população estava dispersa no campo e a política era decidida por um pequeno grupo de pessoas que pertenciam à mesma classe social: a aristocracia.

Após a industrialização houve o êxodo rural fazendo com que as cidades ganhassem cada vez mais importância. Surgem em cena, dois novos personagens: o burguês e o operário.

Com as duras condições de trabalho nas fábricas, os operários passam a se organizar em sindicatos e associações a fim de reivindicar melhores condições de vida. Por sua vez, os burgueses também passam a exigir dos governos garantias e facilidades para seus negócios.

Com as ideias socialistas, anarquistas e liberais surgidas nos séculos XVIII e XIX, os cidadãos passaram a ter um amplo leque de opiniões a respeito da melhor maneira de governar um Estado.

Desta forma, a política passou a se organizar em partidos, com seus defensores e críticos de cada uma dessas bandeiras.

No geral, as ideias políticas do ocidente se dividem em direita, centro e esquerda.

Direita – manutenção das classes sociais com privilégios para os ricos, livre-concorrência, negociação direta com o empregador, etc.

Centro – defesa da liberdade de comércio com os direitos básicos dos trabalhadores assegurados, etc.

Esquerda – defende a abolição das classes sociais, a repartição igualitária das riquezas, garantia dos direitos dos trabalhadores, etc.

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* Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.

Texto e imagem reproduzidos do site: www todamateria com br

Ielcast ENTREVISTA Dr. Kakay

quinta-feira, 27 de março de 2025

"Ter generais réus é simbólico..."

O ex-presidente Jair Bolsonaro (ao centro) e os generais da reserva Augusto Heleno (à esquerda)e Walter Braga Netto (à direita) podem virar réus a partir de julgamento na 1ª Turma do STF

Publicação compartilhada do site BBC BRASIL de 25 de março de 2025

'Ter generais réus é simbólico. Nenhum militar golpista da história, e foram muitos, jamais foi punido', diz Carlos Fico

Author, Leandro Prazeres

Role,Da BBC News Brasil em Brasília

Twitter,@PrazeresLeandro

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) tornou réus por tentativa de golpe de Estado o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros sete acusados, entre eles três generais — Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa), Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil).

Os cinco ministros da Primeira Turma decidiram de forma unânime aceitar a denúncia feita pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o chamado "núcleo crucial" que teria comandado uma suposta trama golpista para reverter a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2022.

O julgamento tem provocado reverberações à esquerda e à direita dada a relevância política do ex-presidente. Mesmo fora do poder, ele é considerado por políticos e especialistas como a maior liderança da direita no Brasil, neste momento.

Mas para o professor de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Fico, mais importante que a possibilidade de Bolsonaro virar réu por tentativa de golpe é a chance de que isso aconteça aos generais das Forças Armadas.

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"Acho mais importante a admissão (da denúncia) [...] a passagem à condição de réu dos generais Braga Netto e (Augusto) Heleno. Mais até que do que em relação ao ex-presidente Bolsonaro", defende Fico em entrevista à BBC News Brasil.

As defesas de todos, exceto Mauro Cid, alegaram inocência e negaram qualquer participação na suposta tentativa de golpe. Mauro Cid, por sua vez, firmou um acordo de colaboração premiada com a Justiça e admitiu condutas irregulares.

Fico é um dos principais pesquisadores do Brasil sobre o papel dos militares na história política do país e autor de livros como O golpe de 1964: momentos decisivos e atualmente está escrevendo outro sobre todos os golpes ou tentativas de golpe orquestradas por militares no Brasil.

Em entrevista concedida antes da decisão do STF, ele defendeu que o julgamento produziria fatos inéditos na história do Brasil.

Segundo Fico, nunca um ex-presidente e oficiais generais foram processados e julgados por tentativas de golpe de Estado.

Crítico do que ele chama de "tradição intervencionista" das Forças Armadas, ele disse que a ida de oficiais generais como Braga Netto ou Augusto Heleno para o banco dos réus por tentativa de golpe terá um forte impacto.

"Levar esses generais, embora eles estejam na reserva, à condição de réus acusados de planejar um golpe de Estado tem muito significado político e simbólico", afirmou o professor.

Na entrevista à BBC News Brasil, Fico disse, no entanto, que não acredita que o julgamento poderá acabar com a crença entre militares de que eles podem atuar como "poder moderador" da República.

Isso só começaria a acontecer se o Congresso Nacional alterasse a redação do artigo nº 142 da Constituição Federal, afirmou o professor.

Este artigo descreve as atribuições das Forças Armadas e é frequentemente citado por militantes de direita que defendiam uma intervenção militar após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2022.

Para Fico, é preciso alterar a redação do artigo para acabar com as interpretações de que os militares poderiam atuar como um poder moderador.

Fico também disse não acreditar que o julgamento vai reduzir o eleitorado de Bolsonaro, que o ex-presidente tenta se posicionar como um "mártir" político e defende que o Congresso Nacional não aprove anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023.

"A tradição brasileira de leniência com militares golpistas tem sido muito prejudicial no sentido de fazer persistir esse entendimento equivocado entre os militares de que eles seriam um garantidor da República com direito de intervir em situações de crise", disse o professor.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - O Brasil poderá ter um ex-presidente e oficiais das Forças Armadas na condição de réus por tentativa de golpe de Estado. Qual é a relevância histórica disso?

Carlos Fico - A relevância é o ineditismo. É claro que já houve no passado situações assemelhadas. A mais parecida envolveu o ex-presidente Hermes da Fonseca, que governou o Brasil de 1910 a 1914 e se envolveu numa tentativa de golpe em 1922. Também tem um filho envolvido, o Euclides Hermes da Fonseca, que era o comandante do Forte de Copacabana. Foi o famoso episódio dos "18 do Forte". Esse episódio foi uma tentativa de golpe militar contra o presidente Epitácio Pessoa e, tudo indica, à frente do qual estava o ex-presidente Hermes da Fonseca, que foi preso e foi submetido a um inquérito, mas acabou morrendo antes que o inquérito se concluísse. É o único caso assemelhado e muito distante na história de modo que o envolvimento de um ex-presidente numa tentativa de golpe e ele ser submetido a julgamento é algo inédito. Mas tem algo ainda mais inédito. Vários militares, no passado, já foram submetidos à prisão, no entanto, isso sempre no contexto de crises institucionais muito graves e, por ordem do Executivo. Então, temos um outro ineditismo porque o julgamento desta tentativa de golpe de 2022 está sendo conduzida em período de normalidade democrática e pelo Poder Judiciário, com todas as garantias processuais.

BBC News Brasil - O que mudou na estrutura social e política do Brasil que permite que isso esteja acontecendo?

Fico - O que mudou foi o empoderamento que a Constituição de 1988 deu ao STF e à Procuradoria-Geral da República. Antes de 1988, esses órgãos não tinham o papel privilegiado que têm hoje. Isso tem um impacto muito grande porque as investigações estão se dando num contexto de normalidade democrática e com instituições fortes [...] É esse fortalecimento institucional que garante a normalidade democrática do momento e o possível julgamento dessas pessoas.

BBC News Brasil - Há muitos militantes de direita que concordam que isso só está ocorrendo em razão do empoderamento do STF. Segundo eles, haveria uma espécie de "superempoderamento" do STF. Na sua avaliação, o fato de Jair Bolsonaro e militares poderem virar réus é positivo ou negativo para a sociedade brasileira?

Fico - É altamente positivo que o STF tenha a última palavra sempre, ainda que erre. Do contrário, quem vai decidir? As Forças Armadas? A população nas ruas? Para o perfeito funcionamento da democracia é necessário que o Poder Judiciário tenha a última palavra [...] Se as coisas estão sendo conduzidas de acordo com as regras emanadas pela Constituição, não vejo como isso pode ser considerado negativo. Até porque nós temos uma tradição muito negativa de intervencionismo militar na qual as Forças Armadas se consideravam o poder moderador e teriam a palavra final, como se fosse um equivalente ao poder poder moderador do Império.

BBC News Brasil - Que impacto, se é que algum, esse julgamento vai ter sobre essa tradição?

Fico - Olha… inclusive eu acho mais importante a admissão (da denúncia) [...] a passagem à condição de réu dos generais Braga Netto e (Augusto Heleno)...mais até que do ex-presidente Bolsonaro. Do meu ponto de vista, a qualificação desses dois generais tem mais importância. Levar esses generais, embora estejam na reserva, à condição de réus acusados de planejar um golpe de Estado tem muito significado político e simbólico. Me parece que as Forças Armadas, como se diz na economia, já precificaram uma eventual condenação desses dois generais usando estratégia de distinguir a instituição dos indivíduos que a compõem.

BBC News Brasil - Que sentido simbólico é esse?

Fico - O sentido de que nenhum militar golpista na história do Brasil, e foram muitos, nenhum jamais foi punido. Vou lançar um livro em maio no qual eu demonstro isso estudando todas as tentativas de Golpe desde a proclamação da República até o último, em 2022. Alguns até foram alvo de inquéritos ou processos disciplinares, mas logo o Congresso Nacional aprovou uma anistia [...] Isso vai modificar a realidade da democracia brasileira, que tem essa fragilidade estrutural da presença intervencionista dos militares? Eu acho que não. O que realmente vai alterar esse quadro da tradição de intervencionismo militar no Brasil são outras iniciativas, como a mudança da redação do artigo 142 na Constituição Federal.

BBC News Brasil - Por que, na sua avaliação, esse julgamento não vai mudar a realidade da democracia brasileira?

Fico - Em relação às consequências desse julgamento, eu posso dizer duas coisas. Uma é que, sim, esse julgamento terá um impacto simbólico, sobretudo no interior das Forças Armadas, porque se trata de uma coisa inédita. Mas não me parece que o intervencionismo militar vá se resolver com esse julgamento. Eu acho que a tradição de intervencionismo militar somente vai terminar, numa perspectiva otimista, se a sociedade brasileira, por meio do Congresso Nacional, alterar a redação do artigo 142, mas me parece que isto não está no horizonte. Creio que isso seria fundamental para dizer claramente para as Forças Armadas que elas não são garantidoras dos poderes constitucionais e muito menos poder moderador.

BBC News Brasil - O argumento de Bolsonaro, de que não houve tentativa de golpe por não ter havido uso da força faz sentido?

Fico - Houve uma tentativa de golpe que fracassou supostamente porque a maioria do Alto-Comando do Exército não aderiu — algo bastante preocupante porque, nesse caso, teria havido o apoio de alguns integrantes e os demais não denunciaram a existência do plano [...] O crime em questão é a tentativa. A tentativa de golpe teria sido bem-sucedida se tivesse havido adesão dos militares e emprego, ainda que persuasivo, da força.

BC News Brasil - Há um movimento liderado por militantes de direita defendendo a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. Também há um entendimento de que ela poderia beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro. Qual sua opinião sobre essa tentativa de aprovar uma anistia?

Fico - Em todos os episódios de tentativas de golpe de Estado, sempre houve anistia aos militares. Neste caso mais recente, temos a peculiaridade do envolvimento de civis nos episódios de 8 de janeiro de 2023. Provavelmente, surgirá uma pressão, também, em relação à anistia desse núcleo conspirador que vai a julgamento agora. Isso sempre aconteceu. Minha surpresa seria se não houvesse nada nesse sentido [...] Eu espero que não haja a anistia caso haja condenação das pessoas envolvidas, seja no núcleo conspirador, seja em outras atividades igualmente condenáveis.

BBC News Brasil - Por que o senhor espera que não haja anistia?

Fico - Eu espero que não haja porque a tradição brasileira de leniência com militares golpistas tem sido muito prejudicial no sentido de fazer persistir esse entendimento equivocado entre os militares de que eles seriam um garantidor da República com direito de intervir em situações de crise. Vimos os episódios que marcaram o governo Bolsonaro. A todo momento, os generais Heleno e (o ex-vice-presidente Hamilton) Mourão falavam do artigo nº 142 como se ele desse às Forças Armadas o direito de intervir em situações de crise. O fato de ter havido anistia aos militares golpistas na história republicana foi sempre muito negativa porque deu a impressão de que a sociedade não se incomodava.

BBC News Brasil - Os atuais defensores da anistia aos envolvidos no 8 de janeiro têm feito uma comparação com a campanha da anistia que resultou na lei da anistia de 1979. É possível comparar uma coisa à outra?

Fico - As pessoas que fazem essa comparação não conhecem a história do Brasil [...] Há pessoas que se referem à ditadura militar e dizem: "Ah! Mas não vão ver os dois lados?". Mas que dois lados? Na esquerda, que se posicionou contra a ditadura militar, ou as pessoas foram mortas ou os que não foram mortos foram presos, julgados e condenados por uma justiça militar muito dura. Foram milhares de condenações de opositores do regime pela justiça militar. A campanha da anistia visava dar anistia a pessoas que foram condenadas de forma muito brutal e aos que conseguiram sobreviver à tortura [...] Não há equivalência possível entre a atitude de oposição a um regime ditatorial que matava e torturava e o momento atual.

BBC News Brasil - Qual o risco de aumento da polarização política no Brasil em função deste julgamento envolvendo Bolsonaro e militares?

Fico - Não gosto da palavra polarização porque dá a impressão de que a gente está vivendo uma coisa inédita do ponto de vista político como essa contraposição entre setores. Isso sempre acontece [...] É claro que o julgamento do ex-presidente Bolsonaro e do restante do núcleo conspiratório vai ser também utilizado por todos os setores políticos como arma de proselitismo político.

BBC News Brasil - Que efeitos esse julgamento terá para o tamanho do bolsonarismo?

Fico - Não faço ideia. O que a gente tem percebido em relação a essas lideranças de extrema direita, não só aqui no Brasil, mas em outras partes do mundo, é que mesmo quando elas estão envolvidas em situações criminosas, ainda assim, o seu eleitorado se mantém fiel [...] Ele (Bolsonaro) não me parece ter perdido, até o presente momento, o seu eleitorado mais fiel. Não sei se uma eventual condenação terá impacto do ponto de vista da fidelidade do seu eleitorado.

BBC News Brasil - Na sua avaliação, qual a probabilidade de Bolsonaro se transformar numa espécie de mártir político a partir desse julgamento?

Fico - Tornar-se mártir é tudo o que o ex-presidente Jair Bolsonaro está tentando fazer. Ele tenta se colocar como vítima, o que é uma estratégia bastante comum de lideranças políticas que são pegas pela Justiça. Agora, essa estratégia vai emplacar? Realmente, eu não sei. Provavelmente, entre o eleitorado mais fiel vai emplacar [...] Agora, para a sociedade como um todo, eu não sei. Muito provavelmente não vai colar porque ao longo do julgamento, sobretudo se esse julgamento for transmitido pela TV Justiça, vão ficar evidentes essas provas que foram colhidas pela Polícia Federal e elas são muito eloquentes [...] Muitas vezes, as coisas dependem não apenas das tecnicalidades da Justiça, mas da maneira como a justiça é feita.

Texto e uma imagem reproduzidos do site: www bbc com/portuguese

terça-feira, 25 de março de 2025

“Vou embora: desisti do Brasil”


 Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 23 de março de 2025

“Vou embora: desisti do Brasil”

Querido amigo: eu lhe desejo todo o sucesso. Que Deus te abençoe e você prospere no lugar para onde está indo. Eu espero que um dia você possa voltar. Nesse meio tempo, reze pelos que ficam. Roberto Motta para a Gazeta do Povo:

Essa é uma semana difícil. Uma das pessoas que mais respeito e admiro, um cidadão brasileiro, carioca, morador do Rio de Janeiro, me disse que está indo embora. Suas palavras foram: “Roberto, estou de mudança para o exterior. Tenho dois filhos pequenos e desisti do Rio de Janeiro e do Brasil”.

Levei um choque. Essa pessoa – cujo nome não revelarei – é um dos maiores empreendedores do país, um fenômeno de criatividade, inteligência e habilidade em usar tecnologia para desenvolver novos negócios. Se ela vivesse nos Estados Unidos provavelmente teria alcançado projeção equivalente à de Elon Musk e seria conhecida em todo o mundo. Mas aqui tudo é difícil e complicado, tudo exige pedágio e paciência. Aqui, além de talento e trabalho duro – ou seria melhor dizer, no lugar de talento e trabalho duro – você precisa de muita sorte e dos amigos certos, e, ainda assim, coisas terríveis podem acontecer com você. Por isso meu amigo está partindo.

Ele reuniu os filhos, a esposa e outros parentes e vão embora. Levarão na mala ideias, sonhos, projetos e oportunidades de investimento e criação de empregos. Ele leva muita coisa boa que poderia acontecer no Brasil, mas que agora vai acontecer no país para o qual ele vai se mudar. As coisas que ele criaria aqui agora serão criadas lá.

Não sei qual foi a gota d’água que o fez partir, mas não é difícil pensar em possibilidades. Pode ter sido um crime do qual ele, ou um familiar, foi vítima. O Brasil é um país que flerta com a possibilidade de se tornar um Estado dominado por facções. Pode ter sido insegurança jurídica: ninguém sabe quais leis valem hoje ou valerão amanhã, e ninguém sabe quando aquela jurisprudência tributária que seguimos há décadas ou anos será anulada, com cobrança retroativa de impostos. Vivemos um UFC jurídico.

A razão da partida pode ter sido o renascimento da censura. Dar uma opinião virou atividade perigosa. Pessoas são punidas por palavras com severidade desconhecida por traficantes e sequestradores. O Estado debocha dos seus servos, exigindo impostos cada vez maiores para bancar gastos sem controle. Como a arrecadação nunca mata sua fome, o Estado produz a inflação que corrói o dinheiro. O Estado interventor em tudo interfere, enquanto se nega a cumprir sua missão principal: proteger os direitos fundamentais. O direito de ir e vir, o direito de falar e o direito de propriedade se tornaram favores que o Estado brasileiro faz e que podem cessar a qualquer momento.

Pessoas de bem, cansadas disso tudo, compram uma passagem para um lugar civilizado e vão embora. Morei cinco anos nos Estados Unidos e nunca conheci um brasileiro que tivesse se mudado para lá e que não tivesse prosperado. Nos Estados Unidos não existe CLT, ninguém tem “carteira assinada” e as leis não determinam trinta dias de férias – mas as pessoas prosperam. Os americanos começam uma nova era. Trump chamou para si a missão de reduzir o Estado. Começa um ciclo virtuoso: um Estado menor estimulará a iniciativa privada, serão gerados novos empregos, os salários serão melhores e as pessoas vão comprar mais, o que criará mais empregos. Enquanto isso, no Brasil, discutimos ideias de 50 anos atrás e a lei é colocada, mais uma vez, a serviço dos poderosos. Os EUA avançam na repressão ao crime enquanto o Estado brasileiro continua oferecendo proteção quase sagrada aos criminosos.

Não sei por qual dessas razões meu amigo está indo embora do Brasil. Sei que ele vai e eu fico – desanimado com sua partida, mas trabalhando para que um dia o Brasil se torne um país decente, onde prosperaremos com nosso trabalho, livres dos parasitas criminosos e estatais.

Querido amigo: eu lhe desejo todo o sucesso. Que Deus te abençoe e você prospere no lugar para onde está indo. Eu espero que um dia você possa voltar. Nesse meio tempo, reze pelos que ficam. 

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

sábado, 22 de março de 2025

Nas ditaduras, a vida não tem paredes e nem mesmo os sonhos estão a salvo

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 18 de março de 2025

Nas ditaduras, a vida não tem paredes e nem mesmo os sonhos estão a salvo.

Escritora mostra os sonhos que os alemães tiveram entre 1933 e 1939. João Pereira Coutinho para a FSP:

Alguém dizia que o verdadeiro problema de estar preso é não poder trancar a porta por dentro.

Nunca estive preso. Mas imagino que esse seja o maior dos terrores: a porta se abre a qualquer momento para que o Estado exerça a sua violência sobre nós.

Em ditadura, deve ser a mesma coisa. Aliás, o que é uma ditadura senão uma prisão coletiva?

O filme "Ainda Estou Aqui" ilustra essa dinâmica na perfeição. Verdade: os jagunços batem à porta dos Paiva. Mas é apenas uma cortesia ilusória.

A invasão do espaço íntimo, com seu cortejo de abusos e boçalidades, é o prelúdio de um crime maior: o assalto a uma família e a destruição física de um dos seus membros.

Para o poder ditatorial, a vida não tem paredes, eis o ponto. Só os sonhos estão a salvo, embora haja quem discorde: a escritora alemã Charlotte Beradt (1907–1986) dedicou-se a registrar os sonhos que os alemães tiveram entre 1933 e 1939 para mostrar os tentáculos invisíveis do totalitarismo.

O resultado é uma obra-prima intitulada "O Terceiro Reich do Sonho", traduzida para o português por Mário Gomes e publicada pela editora lusa VS. É um dos meus grandes livros do ano.

Não há violência física nesses sonhos, porque Beradt optou por não publicar esses relatos. Curiosamente, Walter Salles também ocultou essa dimensão mais primitiva e bárbara. Entendo. Não devemos dar aos algozes a alegria de contemplarem suas próprias atrocidades.

A violência assume outra forma: a transformação do cotidiano em um "estado de exceção", onde não há lugar para segurança e previsibilidade e onde até os objetos mais banais se tornam provas incriminatórias.

Ou então, em vozes inquisitoriais, repetindo mecanicamente a propaganda do regime ou acusando os indivíduos de suas falhas e misérias, como em "1984", de George Orwell.

Os alemães sob Hitler sonhavam que as palavras mais inocentes —"eu", "Deus", "infelicidade"– os condenavam de imediato. Sonhavam que os próprios pensamentos estavam sob escuta. Sonhavam em língua estrangeira (e estranha) para que nem eles pudessem decifrar o que diziam ou pensavam.

Entre 1933 e 1939, sonhou-se muito com narizes grandes e peles morenas, mesmo entre os "arianos", como se as dimensões do corpo ou a pigmentação da pele fossem marcas de infâmia.

Documentos ou passaportes eram constantes nesses filmes oníricos. Como se o papel certo, ou errado, fosse a diferença fundamental entre a vida e a morte. Ver os documentos destruídos, perdidos, esquecidos –o maior dos pesadelos, no sentido literal e metafórico.

E que dizer da professora de matemática que sonhava recorrentemente com uma Alemanha onde até a matemática tinha sido proibida?

Ela, apesar de tudo, conseguia ainda escrever algumas equações em segredo, como se os números a mantivessem ligada a uma vida que perdera.

No livro de Beradt, dois sonhos em especial possuem qualidades literárias que os elevam acima de um simples documento histórico. Poderiam ter sido escritos por Kafka, não fosse ele já o autor de todos os pesadelos possíveis.

O primeiro, recorrente, pertence a um industrial alemão, social-democrata, que recebe a visita de Goebbels na sua fábrica. Em frente aos trabalhadores, o homem demora 30 longos minutos a levantar o braço para fazer a saudação nazi.

Numa das versões, o esforço é tanto que o industrial quebra a coluna, como se fosse um boneco enferrujado.

No segundo sonho, um médico antinazista é chamado de urgência para tratar Hitler. O homem vai, cura o ditador, é elogiado por ele –e sente orgulho pelo seu feito ao mesmo tempo em que chora de vergonha por sentir orgulho.

Nos dois casos, a violência não vem apenas do regime, mas também dos próprios indivíduos contra si mesmos. Essa é uma das conclusões de Charlotte Beradt sobre o totalitarismo: o medo e o terror são tão interiorizados que os indivíduos acabam se tornando "cúmplices" involuntários da própria submissão.

Aliás, se dúvidas houvesse, a autora apenas cartografou um único sonho em que Hitler era assassinado. Matar o tirano era não só indizível como inimaginável.

Nessa galeria de sonhos, Beradt dedica um capítulo aos sonhos dos judeus, que, estranhamente, tragicamente, oscilam entre a tentativa de cortejar as boas graças de Hitler e a imperiosa necessidade de fugir dele.

Num desses sonhos, um judeu viaja ao Único País que não Odeia Judeus (assim referido), atravessando as terras geladas da Lapônia. Mas, ao chegar à fronteira da salvação, até essa última porta se fecha na sua cara.

Entre as portas que não conseguimos trancar e aquelas que não conseguimos abrir, que venha o diabo e escolha.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

segunda-feira, 17 de março de 2025

Tarcísio se afunda em contradições em ato pró-Bolsonaro

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 16 de março de 2025

Tarcísio se afunda em contradições em ato pró-Bolsonaro

O único candidato potencial que discursou neste domingo foi Tarcísio. Quando ele pediu a volta de Bolsonaro, era como se estivesse pedindo voto em si mesmo. Diogo Schelp para o Estadão:

Como era previsto, a manifestação em Copacabana deste domingo, 16, convocada com o mote de defender a anistia para os condenados pela agitação golpista de 8 de janeiro de 2023, não passou de mais um ato pró-Bolsonaro. O curto discurso do governador Tarcísio de Freitas expôs a lógica que começa com a promessa de fazer justiça para “inocentes humildes” e termina com um chamado pela volta de Jair Bolsonaro ao poder. Minuto após minuto, Tarcísio afundou em contradições.

A fala do governador de São Paulo dividiu-se em quatro blocos argumentativos. No primeiro, tangenciou a narrativa, difundida pela ala mais radical do bolsonarismo, de que o Brasil vive uma ditadura do Judiciário. Tarcísio definiu o ato no Rio de Janeiro como um ponto de inflexão na história do Brasil, mais especificamente na luta pela liberdade. E questionou: “Qual é a razão de afastar Jair Bolsonaro das urnas?” Ele mesmo respondeu, de forma direta: para impedi-lo de chegar ao poder. Com isso, Tarcísio aderiu à tese de que os julgamentos que tornaram Bolsonaro inelegível tinham motivação política.

Se é assim, o governador concorda com a tese de que a atuação da cúpula do Judiciário brasileiro é ilegítima. Mas não é isso que ele transparece no dia a dia como governador. Quando há interesses da sua gestão que esbarram em decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), por exemplo, Tarcísio joga dentro das regras e reconhece a legitimidade dos julgadores — como ocorreu recentemente ao convidar o presidente do Supremo, Luís Roberto Barroso, para uma apresentação sobre as câmeras corporais da polícia paulista.

No segundo bloco de seu discurso de cerca de seis minutos, Tarcísio abordou o tema oficial da manifestação. Pediu anistia aos “inocentes” de 8 de janeiro. E comparou a punição imposta a eles pelo STF ao destino dos envolvidos nos escândalos revelados pela Operação Lava Jato. “Os caras que assaltaram o Brasil, que assaltaram a Petrobras, voltaram à cena do crime”, disse Tarcísio. “Parece haver Justiça nisso?” Ela dá a entender que a única maneira de igualar as coisas, de realmente fazer justiça, é concedendo anistia “para aqueles que nada fizeram”, referindo-se aos vândalos com intenções golpistas de 8 de janeiro.

Aqui, Tarcísio afunda-se ainda mais em contradições. Primeiro, porque como governador ele não tem demonstrado constrangimento algum em interagir e até mesmo trocar elogios com algumas dessas pessoas que “assaltaram o Brasil”, a começar pelo presidente Lula, com quem se encontrou recentemente em meio a mesuras mútuas e públicas. O Tarcísio pragmático do governo estadual, que diz ser necessário deixar diferenças políticas de lado pelo bem da população, não estava presente na manifestação pró-Bolsonaro.

Segundo, porque a impunidade da Lava Jato não justifica a impunidade de quem ansiava pela ruptura da ordem democrática. Terceiro, porque uma anistia pressupõe uma admissão de culpa. A origem da palavra, em latim, tem o significado de esquecimento. Não se pode esquecer ou perdoar algo que não aconteceu. Se os condenados de 8 de janeiro são inocentes, como diz Tarcísio e todos os que estavam naquele carro de som em Copacabana, então não há nada a ser anistiado. Se foram condenados injustamente e por motivação política, sem direito ao devido processo legal, a solução é passar uma borracha em tudo ou reformar o sistema judicial? Esquecimento e reforma são caminhos distintos.

Ao lado da suposta “inocência” dos condenados de 8 de janeiro, Tarcísio expôs no terceiro bloco de seu discurso as motivações adicionais para a anistia. Ela seria necessária, segundo ele, “para que a gente tenha pacificação” e “possa se dedicar aos temas nacionais”. O governador passa, então, a elencar uma série de problemas do País que supostamente não estariam sendo abordados e resolvidos por conta de uma ausência de “pacificação”. Envelhecimento da população, financiamento do SUS, inflação, gastos públicos. Tudo isso estaria sem solução, a julgar pelo que disse Tarcísio, porque o país está Paralisado por algum tipo de conflito social ou político.

A premissa é evidentemente falsa. Não há sinais de convulsão social ou política no país. Ninguém está deixando de discutir o SUS porque algumas pessoas foram condenadas por tentar incitar as Forças Armadas a dar um golpe dois anos atrás. Existe um governo federal razoavelmente impopular e uma oposição que tem explorado essa debilidade, mas estamos distante da necessidade de “pacificação” de que fala Tarcísio. A anistia, nos termos propostos pelo bolsonarismo, só interessa ao bolsonarismo. O próprio Tarcísio, como governador, tem se beneficiado de um contexto republicano menos combativo e atribulado do que aquele vivido durante o governo Bolsonaro.

No quarto bloco de seu discurso, Tarcísio retorna ao argumento de que a solução para os males do país reside no retorno de seu mentor político ao poder. “Se está tudo caro, volta Bolsonaro.” Segundo ele, no governo do padrinho “o Brasil era diferente” e é apenas com ele, “fruto de um milagre”, que será possível “libertar o Brasil da esquerda”. A contradição, nesse trecho, era a própria presença de Tarcísio no palanque. Ele é o nome mais forte para suceder Bolsonaro como candidato presidencial. O fato concreto é que Bolsonaro está duplamente inelegível e está prestes a se tornar réu por tentativa de golpe de Estado. O resto que foi discutido no ato em Copacabana, a começar pela ideia de anistia extensível a Bolsonaro, depende de inúmeras variáveis para se tornar realidade. Estando Bolsonaro inelegível, o único candidato potencial que pegou no microfone neste domingo foi Tarcísio. Quando ele pediu a volta de Bolsonaro, era como se estivesse pedindo voto em si mesmo.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com

domingo, 16 de março de 2025

O que realmente importa

John Rawls

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 15 de março de 2025

O que realmente importa

Geração de riqueza e redução da pobreza andam juntas. Fernando Schüler para a revista Veja:

“A desigualdade mata”, leio em um desses artigos de “combate”, que fazem a festa do ativismo político, baseado em um “relatório” sobre a desigualdade global. Dados impressionistas sobre disparidades econômicas, imagens dos bilionários da lista da Forbes e a sugestão de que é “deles” a culpa pelas nossas desgraças. Tudo se passa como se houvesse um estoque fixo de riqueza no planeta. Algo como bolinhas de gude em um pote. Se alguma criança pega bolinhas demais, sobram menos para os amiguinhos. A retórica é perfeitamente falsa. Sergey Brin, do Google, ficou rico não porque capturou algum dinheiro dos demais, agarrado ao Estado, mas porque as pessoas, por seu próprio juízo, melhoram a vida usando seus buscadores de informação. Vale o mesmo para os compradores de livros na Amazon (eu, por exemplo), os usuários do Whats­App, de Zuckerberg, os agricultores que usam a Starlink, de Elon Musk. Do outro lado do mundo, 200 000 pessoas são internadas, todos os anos, no Brasil, por falta de saneamento básico. E isso não porque o saneamento funciona bem em Maringá ou Uberlândia. Ou porque Bill Gates tem uma mansão com 24 banheiros. O sofrimento não deriva da diferença entre quem vive sob más condições e quem tem um bom serviço, mas dos erros de políticas públicas. Do atraso do modelo estatal e da falta de investimento ao longo dos anos. É disso que seria vital tratar, se houvesse uma preocupação real com a vida dessas pessoas.

Ainda agora li uma teoria estranhíssima sobre o tema. O “limitarismo”, da filósofa holandesa Ingrid Robeyns. A teoria diz que é preciso pôr um teto na riqueza que cada um pode ter. Nossa cantora Anitta já havia sugerido algo assim. E arriscado até um valor: 1 bilhão de dólares. À época, me perguntei o que a pessoa deveria fazer quando sua grana chegasse a esse patamar. Doar o dinheiro e ir morar na Praia da Pipa? Continuar trabalhando por esporte? Por que os incentivos de mercado deveriam valer até o ponto “X”, para logo depois serem jogados pela janela? Seus argumentos me soaram frágeis. Um deles diz que “ninguém precisa de tanto dinheiro assim”. Sob certo aspecto, é verdade. Musk costuma dormir num colchão em suas empresas. Alguns vivem melhor, é verdade. O ponto é que grandes empreendedores usam seu capital para investir, criar negócios, fazer filantropia (sugiro pesquisar The Giving Pledge). Não porque “precisam”, em algum sentido popularesco. Outro argumento diz que muitos ricos são perigosos porque podem usar o dinheiro para lobby político. É verdade. Mas isso depende de muito dinheiro? Os maiores lobbies no Congresso vêm das altas carreiras do setor público, contra o teto salarial; dos militares, contra reformar sua previdência; da Zona Franca de Manaus, para manter os incentivos; dos sindicatos e agregados da educação estatal, mantendo o monopólio. É sobre isso que deveríamos perguntar: a riqueza foi ganha em um ambiente aberto, no mercado, ou via pressão, no mundo político?

Para ter uma boa pista sobre como a economia está longe de ser um jogo de soma zero, vale observar o que se passou com os dois maiores casos de redução da pobreza nos últimos quarenta anos: China e Índia. A China reduziu a pobreza extrema virtualmente a zero, depois que se livrou do maoismo e fez sua guinada para o mercado. A Índia foi de metade da população na extrema pobreza, no início dos anos 90, para menos de 1%, por agora. E aqui vem o detalhe: foram os dois países com maior crescimento de bilionários nesse mesmo período. Enquanto a miséria despencava, os bilionários chineses foram de nenhum a 408; os indianos, de 3 para 209, no ano passado. Não passa de um mito a ideia de que exista alguma contradição entre a geração de riqueza, de um lado, e a redução da pobreza, de outro. Ao contrário: são dois lados do mesmíssimo fenômeno de abertura e dinamização da economia.

O filósofo austríaco Helmut Schoeck escreveu um livro provocativo, ainda nos anos 60 (e hoje um tanto esquecido), tentando entender (entre muitas coisas) de onde vem o “ódio aos mais ricos”. O título da obra: A Inveja: uma Teoria da Sociedade. Ele vê a inveja tanto como uma força positiva como negativa em nossa vida. O lado positivo surge quando ela é “domesticada”, no mercado. Do sujeito que diz: “Vou mostrar a eles do que sou capaz”, e age dentro da regra, trabalhando duro. Quando mal direcionada, é força destruidora. Se torna Salieri, o bom músico, ainda que não genial, e sua relação tóxica com Mozart. Ou quem sabe um bocado de gente gastando energia em odiar empreendedores globais, em vez de se preocupar com o que realmente pode fazer a diferença na vida dos mais pobres.

A melhor resposta a esse dilema foi dada por um tranquilo professor de Harvard, John Rawls. Sua tese: em vez de combater a desigualdade, por si só, por que não fazer com que ela funcione em benefício dos que estão na pior? Ele nos pede para imaginar a seguinte situação: estamos reunidos para escolher as regras de justiça na sociedade. Temos muitas opções. Renda mínima? Mais ou menos desigualdade? Limitarismo? Livre mercado? Detalhe: ninguém sabe o lugar que vai ocupar nesta mesma sociedade. O que cada um escolheria: a sociedade “A”, mais igualitária, mas onde os mais pobres, vamos supor, ganham em média 1 000 reais? Ou a sociedade “B”, mais desigual (vamos imaginar: com Musk e Bezos na vizinhança), mas onde os mais pobres têm uma condição duas vezes melhor? Ou quem sabe: viver na China mais pobre e igual, por volta de 1980? Ou na China fortemente desigual, mas virtualmente sem pobreza, em 2025? Resumo da ópera: apenas a inveja, ou ao menos seu lado sombrio, identificado por Schoeck, faria com que as pessoas escolhessem a sociedade “A”. Uma escolha coletivamente irracional. O ponto não é que não seja natural ambicionar a posição dos outros. O ponto é que usar esse sentimento como parâmetro para as escolhas sociais fará com que todos se tornem perdedores. Algo como: “Eu aceito perder, desde que os outros percam mais do que eu”. O que nunca fez nem fará o menor sentido.

O melhor é mudar o foco. Em vez de gastarmos tempo e energia esbravejando com os resultados de Larry Page, no Google, ou de Larry Ellison, na Oracle, deveríamos nos preocupar com o que realmente importa. Se o ponto é universalizar o saneamento, por exemplo, por que não dar segurança para atrair investimento e fazer uma boa modelagem, com metas e bons contratos? Coisas que já se faz em muitos lugares, que avançaram com uma boa política, como o marco do saneamento. E que rigorosamente nada têm a ver com o valor das ações da Tesla ou da Amazon. É previsível que coisas como segurança jurídica, incentivos e investimento não sejam propriamente excitantes. São temas “a favor”, e não “contra”. Não polarizam, não geram likes e são impróprios para a guerra política, como é o tema da “desigualdade”. E quem sabe exatamente aí resida o problema sobre o qual valeria pensar.

Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Publicado em VEJA de 14 de março de 2025, edição nº 2935

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com 

sexta-feira, 14 de março de 2025

A direita está organizada, enraizada e pronta para o combate contra o PT

Artigo compartilhado do BLOG DO ORLANDO TAMBOSI, de 12 de março de 2025

Muito além de Bolsonaro: A direita está organizada, enraizada e pronta para o combate contra o PT.

O movimento vai além da liderança de Bolsonaro e tem mais a ver com valores de uma população majoritariamente a favor da redução da maioridade penal, contrária ao aborto e que rejeita a “ideologia de gênero". Fabiano Lana para o Estadão:

O presidente Lula imagina que um eventual sucesso na área econômica, somado com uma estratégia massiva de comunicação, incluindo bilhões em propaganda, seja suficiente para reverter a erosão constada em sua popularidade e abrir caminho para a reeleição. A questão é muito mais profunda e essa tese é uma ilusão. Há uma disputa moral em jogo e o que os integrantes do governo têm a apresentar neste momento são princípios que fogem à maioria da população. E, pior, a nova tábua de valores da sociedade, em sua maioria, acaba por confrontar pontos dogmáticos da esquerda.

O Brasil tem mudado de maneira vertiginosa. Tome-se um exemplo a princípio isolado, mas que pode ser um microcosmo do todo que se apresenta: qualquer estudante de “humanas” das últimas décadas, sobretudo dos anos 80 e 90, se deparou em algum momento com a coleção “Primeiros Passos”, em que autores dissertavam sobre temáticas como socialismo, racismo, história, entre outros, em livros curtos e didáticos. O tema “ideologia”, por exemplo, foi escrito pela filósofa Marilena Chauí, aquela que odeia a classe média. Era época em que ninguém se assumia “de direita”, não só na área cultural ou acadêmica, mas também na política. Um cara ser de “direita” era sinônimo de ser visto como um tremendo esquisitão a afugentar as meninas.

Se a gente faz um corte e pula vinte anos na história, ser de esquerda ainda tem lá o seu, digamos, charme – cada vez menor. Mas não mais o monopólio das atrações. A direita se estruturou e se organizou de maneira admirável, de maneira a preencher todos os vácuos de décadas em que permaneceu submersa na opinião pública e, principalmente, publicada, da sociedade brasileira.

Para começar, percebam, nas maiores livrarias do Brasil, que não é tão fácil encontrar algum exemplar dos “Primeiros Passos”. Mas é possível comprar exemplares da coleção “O Mínimo sobre”, também de bolso, com temas como racismo, conservadorismo, doutrinação, arte, “Olavo de Carvalho” e Ideologia de gênero, entre outros, no catálogo.

Sim, é como se a “Primeiros Passos” tivesse se virado à direita. Vejam um trecho do livro sobre feminismo da coleção, escrito pela historiadora e agora deputada estadual pelo PL-SC, Ana Campagnolo. “Diferentemente do que fazem crer as feministas, as mulheres foram inseridas no mercado de trabalho por uma transformação social sem premeditação e não por uma luta organizada de um movimento das mulheres”, afirma a obra, na totalidade dedicada a confrontar o que se chama de feminismo.

Mas a coleção “O mínimo sobre” é apenas uma margem de um movimento muito maior de domínio. Por exemplo: se aparece alguma notícia desfavorável à direita ou aos seus líderes em algum órgão, há uma miríade de influencers, youtubers, twitteiros a busca desmentir, a tentar passar uma versão mais favorável. Logo, esses contra-ataques, imediatos, circularão nos grupos de WhatsApp da escola, das famílias, do trabalho. Muitas vezes com moralismo, indignação, deboche ou humor. As redes sociais são a ferramenta de combate e há a indicação clara do que é preciso seguir para se informar. É algo que não se vê paralelo na esquerda neste momento.

A produtora Brasil Paralelo também faz parte desse mecanismo de doutrinação, com produções próprias, indicações de filmes, na busca de direcionar como se deve pensar sobre cada assunto. Os valores em geral são claros em todo esse ecossistema: família, pátria, religião, hierarquia, obediência, mérito individual por qualquer conquista econômica obtida, loas à livre iniciativa, trabalho, e, transversalmente, o anti-esquerdismo. Ultimamente, com a ascensão de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, até mesmo o liberalismo mundial tornou-se um inimigo a combater (nesse caso especial, por razões diferentes, estão juntos com a esquerda numa comprovação prática da chamada da teoria da ferradura, na qual os polos opostos tendem a convergir seus pensamentos).

Padres, pastores, também possuem seu papel nessa reorganização da direita. O Frei Gilson, que atrai milhões de pessoas nas suas missas pela madrugada com uma mensagem conservadora (ou quiçá reacionária) de submissão da mulher ao homem, é apenas mais um personagem desse sistema que tem sabido falar rápida e diretamente com uma parcela gigantesca da população. Quando publicações e influencers da esquerda criticaram sua postura e seus pensamentos, na semana passada, foi imediatamente defendido por milhares. Até mesmo o papa Francisco, com seus valores “progressistas”, foi substituído por outros religiosos com concepções diferentes de mundo.

Esse movimento vai muito além da liderança de gente como Jair Bolsonaro (seu papel político foi tirar muita gente do armário reacionário). Tem estrelas como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), Pablo Marçal ou o cantor Gusttavo Lima. Mas é algo que tem a ver mais com a exacerbação de valores de uma população que é majoritariamente a favor a redução maioridade penal; contra a legalização do aborto (mas não favoráveis à prisão da mulher); contra a descriminalização das drogas; querem punição rigorosa para qualquer tipo de delito, a partir do roubo de celular, que penaliza bastante as pessoas mais pobres, não só a classe-média alta do bairro Pinheiros, de São Paulo; que não sabe muito bem o que é, mas rejeita a tal “ideologia de gênero” e por aí vai.

A paralisia da esquerda nessa guerra cultural é notável atualmente. O confronto político tornou-se desigual. Talvez, de fato, a inflexão da luta de classes para as chamadas pautas identitárias não tenha conquistado mentes e corações. Quando um trabalhador pardo da periferia é tido como opressor apenas por ser homem, é razoável que ele procure votar numa força política que se oponha a isso, não é mesmo? Enquanto a esquerda colocava todo mundo contra todo mundo, a direita, de maneira pulverizada, desordenada, mas com mensagem coesa, se preparou com afinco para colocar todo mundo contra a esquerda. O ano de 2026, nas eleições presidenciais, será o tira-teima desta disputa, que é mundial, em palco brasileiro.

Texto e imagem reproduzidos do blog: otambosi blogspot com